
Capítulo 241
O Estalajadeiro
"A gente já se conheceu?" perguntou Lex, completamente alheio à expressão irritada dela, principalmente porque ela parecia um ursinho fofo. "Você me parece familiar, mas não conheço muitas pessoas aqui."
"Você se sentou ao meu lado na cantina! E agora está fazendo de novo. A sala inteira está vazia, por que você precisa sentar ao meu lado? Eu gosto do meu espaço pessoal!"
De repente, Lex lembrou do constrangedor encontro e não conseguiu deixar de rir. Ele olhou ao redor e, de fato, havia muitas cadeiras vazias.
"Foi mal, ultimamente tenho estado meio desligado, então tenho funcionado no piloto automático," explicou Lex enquanto se levantava e se movesse. Mas, mesmo não estando mais exatamente ao lado da garota conhecida, ele tinha se deslocado apenas algumas cadeiras.
"Meu nome é Lex, aliás," apresentou-se. Mas a garota só fez um som de 'hmph' e virou o rosto dramaticamente, jogando o cabelo para trás.
Apesar do estresse, Lex deu uma risada. Para ser honesto, ele realmente não estava com vontade de paquerar garotas. Mas, por outro lado, socializar um pouco talvez fosse bom para ele. Não adiantaria nada alguém se esgotar só pensando em voltar para casa.
Um pouco depois, o professor deles entrou na sala. Era um homem idoso, com uma cicatriz calva enorme na cabeça, coroada por fios brancos. Era magro, quase parecendo frágil, mas caminhava com a energia da juventude.
"Sejam bem-vindos à disciplina 'História Básica do Reino de Cristal'. Apesar do nome, nosso foco permanece em eventos relativamente recentes, e o curso começa cem anos antes da guerra contra os Kraven. Como muitos de vocês sabem, a maior parte das disciplinas básicas abordam conceitos relacionados aos Kraven, pois eles dominaram a tendência do reino nos últimos séculos."
"Se quiserem avançar seu conhecimento além da influência dos Kraven, precisarão fazer cursos mais avançados."
"Nossa aula começa no dia da coroação do rei Cornélio II, após a morte do pai dele no campo de batalha. Na época, ele ainda era um menino, com apenas 16 anos. Nação Hum não existia, e o território que a compunha…"
Ao contrário do que Lex esperava, ele realmente aproveitou a aula de história. O foco da aula não era datas específicas ou memorizar milhares de nomes, mas sim em algumas pessoas-chave que influenciaram eventos monumentais.
Por exemplo, nem o legado nem eventos importantes da vida do rei Cornélio II eram discutidos antes de sua coroa, porque só depois de se tornar rei ele passou a ser relevante na história do reino.
Naquela época, a nação Hum era composta por centenas de países menores — claro, menores só por comparação. Pelo que Lex entendeu, alguns desses países menores aqui eram maiores do que continentes na Terra.
Cornélio, que herdou um país em guerra, liderou a campanha mais bem-sucedida conduzida por um humano, e expandiu seu território tanto ao longo do século seguinte que ninguém ousou desafiar seu reinado.
Quando a guerra contra os Kraven começou, cerca de 300 anos atrás, os humanos ainda não tinham se envolvido. Havia duas raças cujos territórios ficavam próximos aos humanos: os Sentinelas e os Varns. Os Kraven vieram de um lugar bem distante, além da compreensão dos humanos, e travaram guerra com quem fosse possível alcançar.
Mais ou menos 80 anos após os humanos ficarem sabendo que os Varns estavam em guerra, os Kraven finalmente conquistaram terras suficientes para ficarem expostos aos territórios humanos também.
Ninguém esperava que eles envolveriam os humanos na guerra, pois isso deveria ser prejudicial para eles, mas envolveram. Não só travaram guerra, como vieram com uma fúria que apagou países da face da Terra em poucos dias.
Percebendo a gravidade da situação, Cornélio convenceu os humanos a se unirem para enfrentar essa ameaça, e pagou um preço alto até mesmo para pedir ajuda aos Sentinelas.
Por fim, os humanos conseguiram resistir ao ataque. Mas resistir não significava recuperar as terras perdidas, pois as forças humanas foram se desgastando lentamente, e começaram a perder territórios novamente. Foi aí que, sob a liderança de Cornélio, nasceu a Nação Hum.
Pela primeira vez na história, diante da ameaça de extinção, os humanos deixaram de lado suas picuinhas e se uniram para enfrentar o perigo. Quanto àqueles que resistiram, Cornélio os reuniu e usou-os, junto com suas famílias, como a primeira linha de defesa contra os Kraven.
Mesmo assim, aos poucos, eles foram perdendo território. Chegou ao ponto de a fronteira com os Sentinelas ficar exposta, e eles também entraram na guerra — não por lucro para os humanos, mas para defender suas próprias terras.
Embora os humanos estivessem na ponta mais fraca do conflito, com um esforço concentrado, a tecnologia e a civilização humanas vivenciaram um período de rápida expansão. Suas técnicas de cultivo melhoraram, suas armas ficaram mais letais, seus guerreiros mais ferozes, sua determinação mais firme.
Foi quando notícias graves dos Varns chegaram: os Poliods, a primeira raça a encontrar os Kraven, tinham sido completamente derrotados, e os remanescentes escaparam para onde puderam. Eles se juntaram às outras raças na luta, pois, apesar de terem perdido seu lar, a raça não estava extinta. Lutaram na esperança de que um dia conseguiriam vencer.
Tudo isso aconteceu nos primeiros 150 anos de guerra, e ainda restava cerca de mais 150 anos para cobrir até o encerramento da aula.
O professor explicou que primeiro daria uma visão geral do conflito antes de aprofundar nos eventos mais relevantes.
A aula terminou, e os alunos começaram a se dispersar, mas Lex permaneceu sentado. Todos os outros já tinham algum conhecimento sobre a guerra. Só ele estava aprendendo sobre ela pela primeira vez. Essa guerra, quer ele quisesse ou não, era extremamente importante para o seu futuro imediato, pois, a não ser que encontrasse uma maneira de voltar para a Taverna, ela também era a sua guerra.