
Capítulo 154
O Estalajadeiro
Por mais descontraído que Brandon geralmente fosse, nem mesmo ele estava sorrindo neste momento. Sentia na água que algo iria acontecer durante as competições, mas, apesar de todas as investigações, nada tinha resultado. Agora parecia que a resposta estava bem diante deles. Era impossível que uma conspiração tão grande estivesse escondida de todas as cinco famílias, a não ser que os integrantes de cada uma também estivessem envolvidos.
Parecia que eles tinham suprimido as ambições de todos por tempo demais.
Ele estava sentado numa sala ao lado dos chefes das outras famílias. O homem sangrento também estava presente e tinha sido totalmente interrogado. Para garantir a veracidade do que dizia, os chefes familiares haviam enviado de volta diversos de seus assistentes e seguidores para a Terra, mas nenhum deles tinha retornado até então. Isso, por si só, já era informação suficiente.
"O fato de que voltamos à Terra exatamente do mesmo lugar de onde partimos é uma grande falha," finalmente disse Richard. "Isso permite que o inimigo prepare uma armadilha para nós com antecedência."
"Não adianta adiar isso. Mesmo que haja armadilhas, o que eles podem fazer contra nós? Basta retornarmos e resolver quem tentar nos atrapalhar."
"As coisas já passaram desse ponto. Você sabe mesmo em quem confiar? Quem você vai 'resolver' quando voltar? Quantas pessoas você vai matar como demonstração? Sabe, o objetivo de nos deixar no comando era evitar o caos. Se voltarmos e começarmos a matar todos que resistirem, o que faremos quando 'eles' ficarem insatisfeitos?"
Mais uma vez, o silêncio tomou conta da sala. Desde o início da reunião, ninguém tinha conseguido chegar a uma conclusão sobre o que fazer. A verdade é que todos estavam apenas evitando o problema o máximo que podiam, porque uma vez que enfrentassem de fato, seria provável que tivessem que matar seus próprios parentes.
Além de Brandon, que tinha apenas 104 anos, os demais eram bem mais velhos — embora tentassem disfarçar suas idades. Falta-lhes o vigor jovem necessário para lidar com situações difíceis.
Quando estavam prestes a começar a discutir novamente, o holograma pessoal de Richard apareceu à sua frente.
"Desculpe incomodar, mas sua neta, Selene, está tentando falar com você. Gostaria de permitir que ela entre na sala?"
"Sim, deixe ela entrar," respondeu rapidamente. Selene estivera na Terra e não tinha vindo com ele para as competições, então sua presença ali era um grande alívio. Mas também deixava uma ponta de medo no coração dele — e se fosse ela quem o traísse?
A garota que entrou já não tinha mais sua graça e elegância de antes; seu rosto estava marcado por ansiedade. Ao ver o avô, ela lhe entregou uma carta, insegura se conseguiria falar claramente naquele momento.
Richard leu a carta, seu corpo tremendo de raiva ao ler as palavras, até chegar ao fim, quando seus ombros se entregaram em derrota.
"A carta é do meu sobrinho," disse Richard, passando a eles. "Dizem que dez dispositivos nucleares foram plantados em cidades ao redor do mundo. Eles têm sob vigilância todas as nossas rotas de saída da Terra. Se algum dos chefes das famílias retornar, eles irão detonar duas bombas nucleares para cada um."
Alguém virá ao Pouso para negociar conosco em algumas horas. Até lá, fomos instruídos a ficar aqui."
As palavras dele gelaram o coração de todos. Não só confirmaram seus piores medos de serem traídos pelas próprias famílias, como também os colocaram numa situação onde não podiam dar chance ao azar. A menos que alguém conseguisse provar que não havia dispositivos prontos, com as pessoas da Terra como reféns, os chefes das famílias não poderiam fazer nada.
Além disso, do Pouso eles não podiam nem mesmo se comunicar com a misteriosa dama com quem conversaram antes para informar sobre a situação. Tudo que podiam fazer agora era esperar.
Lex, que vinha espionando a reunião, fez uma expressão de desgosto. Originalmente, seu conhecimento sobre a política da Terra era bastante limitado, mas ocasionalmente, sempre que tinha um tempo livre, ele espionava esses humanos de alto nível para aprender mais sobre seu planeta.
Ele tinha uma compreensão básica das cinco famílias e agora concluía que a chamada 'Guerra Mundial' era resultado de rebeliões dentro delas.
Ele não se importava muito com as disputas internas, mas se alguém de sua família se ferisse por causa disso, ele faria eles pagarem caro. Nesse momento, Lex descobriu algo sobre si mesmo. Ele nunca tinha percebido, mas tinha um sério problema de raiva e, ao pensar em tudo que faria se sua família fosse implicada, acreditava fortemente na vingança.
*****
Em algum lugar na Terra, em uma versão bastante moderna do Taj Mahal, Kristine e Vera Joel estavam próximas, cochichando entre si. Ao redor delas, diversos guardas de segurança e apenas alguns outros indivíduos, vestidos de modo casual. Entre esses, estava Ayesha Shehzad, com uma expressão de desânimo.
"Você tem certeza disso?" Kristine perguntou nervosamente à filha.
"Sim, sim, confie em mim. Bom, não tenho tanta certeza de você, mas já determinei que estarei completamente segura aqui," Vera respondeu com sinceridade demais. "Só precisamos esperar passar o mês, depois podemos deixar esse planeta desolado."
"Espero que você esteja certa," Kristine respondeu com amargura.
De repente, Vera virou a cabeça na direção de uma parede, um sorriso malicioso surgindo em seu rosto. Parecia que ela observava algo invisível, mas a alguns cômodos naquela direção, um dos guardas começou a fazer um relatório sobre a guerra repentina para um holograma de uma mulher. Era a mesma mulher para quem os cinco chefes relataram.
*****
Alexander não tinha conhecimento do que estava acontecendo na Terra e tinha toda a sua atenção focada na missão à sua frente. Se tudo corresse conforme o planejado, essa partida terminaria antes das 12 horas, e ele lideraria em pontos de vantagem.
Ele e seus 99 soldados estavam correndo na velocidade máxima, irradiando energia espiritual aos quatro cantos, para que qualquer um percebesse. Mas, mesmo que fossem notados, já não faria diferença, pois eles já haviam pegado as fichas.
Apesar de correr ao máximo e usar toda a energia possível, Alexander jamais se sentira tão bem. Imagine realizar a tarefa física mais difícil que seu corpo pudesse suportar sem morrer. Agora, imagine fazer isso repetidamente, sem fadiga ou risco de se machucar. Era esse o sentimento de Alexander agora — tudo o que ele fazia era correr.
Na verdade, ele fazia mais do que correr. Era o farol que guiava suas tropas à batalha, a ponta da lança que atravessaria o inimigo, a vanguarda que abriria caminho para os que vinham atrás.
Seu plano era simples. Ele e seus 99 soldados iriam ativamente batalhar contra os zumbis, bombardeando o nó com as armas mais fortes, mortais e destrutivas que tivessem, aproveitando energia espiritual ilimitada — como truques de videogame na vida real.
O primeiro zumbi entrou em sua linha de visão, e ele também entrou na deles. Quando os zumbis perceberam que não se tratava de uma bola de chama dourada se aproximando, mas de uma pessoa, já estavam perto demais.
Rasgando a horda como uma bala atravessando pão, Alexander tinha seu alvo marcado. Rindo de alegria pelo sentimento de poder infinito, seus soldados iniciaram um ataque coordenado ao grupo de monstros.
Porém, nesse cenário em que suas mentes estavam levemente estimuladas pela euforia constante, coordenação era apenas gritar "veja quantos consigo matar nesta direção" antes de lançar o ataque mais forte, que normalmente deixaria todos exaustos.
Por mais ridículo que fosse o quadro, quem assitia ao combate percebia que esses soldados talvez tivessem… perdido um pouco a cabeça. Mas quem se importava? O show era divertido.
Alexander chegou ao centro do que restou da horda e percebeu que não via o nó. Será que ele estava escondido em algum lugar? Enquanto analisava a situação, suas seis lâminas giraram ao seu redor como uma serra, cortando tudo que tentasse se aproximar, com uma ferocidade nunca antes vista.
"Talvez seja subterrâneo," pensou Alexander, olhando para baixo. Nesse exato momento, o chão se abriu e uma mão blindada se estendeu em direção à sua perna.
Alexander pulou para trás, mas a mão foi mais rápida e maior do que ele esperava. O demônio, com cerca de dois metros de altura, revelou-se: sua armadura escamosa, apesar de ter saído do solo, estava impecável, sem uma sujeira. Ele segurou o jovem com firmeza.
Antes que Alexander pudesse fazer algo para se proteger, Pramod usou o corpo dele como uma marreta e o lançou contra o chão. Não se podia ver por baixo da máscara, mas os espectadores tiveram a sensação de que Pramod estava dando um sorriso malicioso.