O Estalajadeiro

Capítulo 94

O Estalajadeiro

Leo era, naturalmente, Lex. Ele simplesmente tirou a Roupa de Hospedeiro e colocou um dos óculos para permanecer anônimo. Ainda assim, não usava seu nome verdadeiro para evitar qualquer suspeita.

Ele estava empolgado porque finalmente descobriu um jeito de interagir com seus convidados sem precisar se preocupar com sua aparência. Podia fazer as perguntas mais idiotas — afinal, ele era apenas o dono de uma loja de jogos. Não era nem mágico, como a barbearia ou o Machado de Batalha. Era pura e simplesmente videogame em computadores.

Era uma pena não conseguir conectar a loja à Internet de volta à Terra, mas dava pra se virar.

Além de jogos, os computadores teriam uma vasta biblioteca de filmes e vídeos para assistir, mas demoraria um tempo transferir todos os dados. Como o Lex conseguiu todos esses jogos e vídeos se a loja não podia se conectar à internet? Acontece que, através do Monóculo Elegante! Quando Lex conectou o Monóculo à internet para montar sua própria base de dados, ele absorveu tudo.

Lex poderia fazer upload seletivo dos dados do Monóculo Elegante para seus computadores. Quem diria que, além do seu propósito original, o Monóculo funcionava como um pendrive USB? Só mostrava que não se deve limitar a compreensão das coisas pelos textos do sistema.

"Nunca joguei videogame antes. É complicado demais?" perguntou Helen. Ela topava experimentar — quando mais ela teria a chance de jogar de uma forma tão casual?

"Não, de jeito nenhum. É bem simples. Vou te ensinar, vai ser muito fácil. E, se você não gostar deste jogo, aguarde um pouco. Novos jogos estão sendo adicionados ao sistema agora mesmo, vai levar só um tempinho."

A loja de jogos ficava tanto no térreo quanto no primeiro andar. No térreo, os convidados podiam alugar uma cadeira e uma mesa com acesso a um computador completo, com tudo o que precisassem — mouse, teclado, controladores (se preferir), headset e o que mais quisessem.

No primeiro andar, os convidados podiam alugar salas privativas para jogar em paz, sem as distrações do público. Mantinham ambas as opções disponíveis porque, às vezes, o clima da loja ajudava na experiência de jogo, mas, em outras ocasiões, durante partidas importantes, não se podia lidar com distrações. Assim, ambos os ambientes estariam disponíveis conforme o desejo de cada um.

Além disso, para quem quisesse jogar realidade virtual, era preciso alugar as salas especiais.

Lex levou Helen até uma cadeira e começou a configurar o jogo para ela. Sentou-se ao lado dela na mesa e também ligou seu próprio computador.

"Vou te ajudar com alguns jogos enquanto você pega o jeito," falou ele, preparando a partida em rede. De trás do balcão, uma pequena figura observava os dois.

A IA da loja, conhecida apenas como Z, foi a primeira IA a já ter um nome assim que foi invocada. Ela também era diferente das outras IAs na equipe — todas adultas, até a Velma, que ainda era adolescente. Z, por outro lado, parecia ter uns dez anos de idade.

Quando teve certeza de que os dois estavam distraídos com o que estavam fazendo, Z abriu o computador de administração e começou a assistir a um anime chamado Initial D. Era um anime de corrida, com o protagonista sendo um idoso que se parecia um pouco com Gerard. Invocando um dos lanches vendidos na loja de jogos e cobrando sem cerimônia na conta do Lex, Z começou a assistir anime.

Nem Lex nem Helen perceberam isso, pois Lex estava explicando o tutorial e os controles. League of Lex, ou LOL, era jogado usando vários heróis diferentes, cada um com habilidades próprias.

Era um jogo onde se competia por recursos e equipamentos limitados com o inimigo, enquanto se atacava a base deles para pressionar e impedir que eles conseguissem esses recursos também.

"Esses heróis são baseados em cultivadores reais da Terra," explicou Leo, após terminar de falar sobre as habilidades de cada herói.

"Sério?" perguntou Helen, surpresa.

"Acho que sim, provavelmente," respondeu Leo. Até então, ele já tinha escolhido seu próprio Herói e havia esquecido completamente de Helen.

Helen estava irritada com Leo, mas também curiosa sobre ele. Ele era bem mais velho que ela — pelo menos, pelos padrões dela, era muito — mas era quem atuava como uma criança empolgada.

Ele iniciou o jogo e eles estavam jogando contra o computador, e, ao contrário do que ela esperava, ele não a deixou de lado para jogar sozinho, mas a guiou pelo mapa e apresentou as mecânicas do jogo. Ajudou a lutar contra inimigos, coletar recursos, entender suas habilidades, aprender sobre Temps de Recarga e muito mais.

Quando inimigos Heróis atacaram, ele ajudou a proteger para que ela pudesse praticar o combate.

A velocidade com que ela foi aprendendo os controles era espantosa, e em dez minutos ela já não precisava mais da ajuda de Leo. Nesse momento, ele a deixou sozinha, para que tentasse se acostumar a jogar por conta própria, enquanto seguia para outra parte do mapa. Surpreendentemente, eles tiveram uma boa sinergia e rapidamente derrotaram o computador.

Satisfeito com o nível de habilidade de Helen, Leo sugeriu que, desta vez, ele jogaria contra ela para tornar a partida mais desafiadora.

Ela ficou muito animada com a ideia, e Leo começou uma partida nova. Nos primeiros minutos, Leo quase se sentiu um maudade, pois, além de ser bastante experiente no jogo, seu nível havia aumentado ainda mais desde que começou a cultivar. Mas logo notou que Helen dominava a partida. Ela eliminava os Heróis da equipe dele e roubava todos os recursos que precisava para montar seus exércitos.

Leo tentou bloquear ela, mas descobriu que estava sempre um passo atrás. Algo definitivamente não estava certo. Foi quando ele percebeu: ELA TAMBÉM ERA UMA CULTIVADORA! Não só era uma cultivadora, como seu plano superior a dele, então sua resposta seria naturalmente ainda melhor.

O dono da loja ficou interessado e passou a jogar sem segurar nada, pois já não era questão de entreter uma convidada, mas de honra. A partida terminou com Leo liderando relutantemente, mas Helen pediu uma revanche. A segunda partida terminou em empate, a terceira na favor dela e a quarta, outro empate!

Sem perceber, eles jogaram por mais de duas horas!

Quando Leo percebeu a hora, soube que tinha que parar, pois tinha outras coisas para fazer. Despediu-se de Helen, deixando-a à vontade. Avisou que outros jogos já tinham sido baixados, caso ela quisesse explorar, e, como ela foi sua primeira convidada, não iria cobrar nesta rodada para que pudesse jogar o quanto quisesse.

A jovem ficou um pouco decepcionada ao ver Leo ir embora, pois queria vencê-lo de forma convincente, mas se conformou pensando que na próxima vez conseguiria. Pediu para Z cuidar de Helen, caso precisasse de algo, e saiu da loja.

O dono da loja desapareceu e reapareceu em seu apartamento. Tirou os óculos e voltou a ser Lex. O Mestre da pousada estava um pouco pálido, exausto de tanta energia mental focada no jogo. Helen ainda não tinha dominado todas as mecânicas, mas seu tempo de reação tornava difícil competir com ela. Ele prometeu que, na próxima, faria sua vingança e mostraria o que é habilidade de verdade.

Tomou um banho relaxante antes de ir para a sala de Meditação. Lex havia decidido meditar todos os dias para aumentar sua cultivação. Justo quando se preparava para começar, Mary apareceu na sua frente, hesitante e confusa.

"O que foi?" perguntou Lex, já esperando por alguma notícia ruim.

"Não posso garantir, mas acho que..." ela hesitou bastante antes de decidir revelar a insana descoberta que fizera. "Parece que jogar videogame tem o mesmo efeito em você que meditar."

"O QUE?" exclamou Lex, pulando de alegria. Isso era bom demais pra ser verdade, certo? Meditar é difícil e às vezes entediante, enquanto jogar é exatamente o oposto. Como isso pode ser compatível?

"Bem, ainda não tenho certeza e não há provas conclusivas. Você deve continuar meditando por enquanto, mas isso com certeza é algo que podemos pesquisar. Se for verdade, quem sabe, sua loja de jogos pode de fato se qualificar como um serviço do Verdadeiro Inn da Meia-Noite."

Lex sorriu. Um artigo que ele escreveu na faculdade falava sobre os benefícios mentais de jogar. Como um verdadeiro jogador — que se cuidava, tomava banho e mantinha higiene —, Lex era totalmente contra os estereótipos de gamers. Como poderia perder a oportunidade de beneficiar a comunidade gamer?

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