O Estalajadeiro

Capítulo 42

O Estalajadeiro

Alexander estava sentado tranquilamente em uma sala de reunião, refletindo de forma sombria sobre os eventos que ocorreram na última semana. Forram acontecimentos extremamente inesperados, e eles influenciaram bastante seu humor. Era um jovem bonito de 17 anos, mas seus olhos e postura transmitiam um poder e uma compostura incomuns entre seus pares.

Suas experiências de vida eram extremamente incomuns, a ponto de parecer improvável que alguém tivesse passado por algo semelhante ao que ele vivenciou. Nascido herdeiro de uma das famílias mais — senão a mais — poderosas de todo o sistema solar, foi preparado desde o nascimento para ser o melhor.

Uma equipe composta por mais de 300 psicólogos, biólogos, cultivadores, filósofos, historiadores e muitos mais foi reunida para criar a formação mais perfeita, de modo a torná-lo o humano mais capaz que já existiu.

O plano começou muito antes de sua concepção. Seus pais foram levados a atingirem níveis físicos máximos antes mesmo de conceberem, e sua mãe foi nutrida e estimulada com as melhores ervas espirituais e remédios conhecidos pelo homem enquanto carregava o bebê. Nos primeiros cinco anos de sua vida, ele passou por treinamentos e observações, mas não de forma rígida.

Foi incentivado a explorar e crescer como uma criança comum, porém certos hábitos de trabalho árduo e busca pela excelência foram cultivados. Foi aos cinco anos que seu treinamento realmente começou.

O treinamento era extremamente cuidadoso. Não queriam influenciar sua personalidade para que se tornasse algo específico, mas enquanto seus interesses e buscas estavam sob seu próprio controle, ele tinha que aprender certas habilidades e modos de pensar. Foi ensinado a enfrentar o fracasso, repetidas vezes, em todos os campos, e a não desistir só porque falhava.

Porém, isso também não significava que ele deveria tentar incessantemente alcançar o sucesso, como um idiota preso em uma situação. Após cada fracasso ou sucesso, ele tinha que analisar e entender o que aconteceu, e determinar o melhor caminho para tentar novamente ou seguir uma direção diferente.

Quando completou sete anos, seu treinamento se tornou mais rígido, e ele teve menos liberdades. Também foi nesse momento que foi feito pela primeira vez a tarefa de matar um animal. Era um animal sedado, e ele foi ensinado sobre a melhor e mais eficaz forma de eliminá-lo. Ficou sozinho em uma sala com o animal, sem supervisão, e foi informado de que poderia sair assim que completasse a tarefa.

A sala não era trancada, e, para ser honesto, ele não sentiu muita pressão, já que sempre soube que isso viria. Mas experimentou uma relutância incomum, uma que nunca conseguiu entender plenamente. Era como se soubesse que, ao dar esse passo, entraria para sempre em um caminho do qual não poderia mais voltar. Ainda assim, não hesitou por muito tempo. Realizou o ato e saiu, seguindo para seu próximo treinamento.


Uma semana depois, foi apresentado a outro animal e ordenado a matá-lo. Desta vez, não houve hesitação. A partir de então, toda semana ele deveria matar um animal, e eventualmente eles deixariam de sedá-los. Quando completou nove anos, houve uma mudança. Não foi mais ordenado a matar um animal; em vez disso, foi colocado na toca de um animal selvagem jovem e selvagem, e convidado a sobreviver por 30 minutos.

Nesse momento, ele já havia recebido treinamento de combate e matou o animal bem antes do término dos 30 minutos. Mesmo assim, tinha que permanecer os 30 minutos completos.

Como os humanos só podiam iniciar a cultivação aos 15 anos, ele nunca enfrentou bestas espirituais, mas, ao longo dos anos, enfrentou tudo, desde cães selvagens até ursos ferozes. Eventualmente, atingiu um nível de habilidade e temperamento que não precisou mais matar os animais.

Quando entrava na toca, enfrentava os animais, e mais frequentemente do que o esperado, eles reconheciam sua força e se curvavam. Quando saía da toca, o animal ainda permanecia vivo, selvagem e feroz caso alguém entrasse, mas domado na frente de Alexander.

Nos estudos, ele não era esperado ser o melhor da turma e receber apenas A's, apenas tinha que compreender o conteúdo o suficiente para poder utilizá-lo. Para testar isso, todos os anos recebia uma certa quantia de recursos e devia montar um novo negócio com o que aprendera no ano anterior.

Começou aos dez anos, e desde então, todos os seus empreendimentos foram um sucesso. Alguns melhores, outros nem tanto, mas todos lucrativos.

Foi ensinado a socializar com pessoas mais velhas, com iguais, de diferentes origens financeiras e culturais. Aprendeu a recrutar seguidores, identificar motivações ocultas, detectar ameaças e sinais de amizades verdadeiras. Seu treinamento tornou-se extremamente difícil à medida que começava a cultivar, tanto mental quanto fisicamente.

Nesse momento, quase toda liberdade foi retirada dele. Só podia seguir a rotina de treinamento, com a única liberdade de uma escolha: a liberdade de desistir. Desde o início de seu treinamento, aos cinco anos, lhe disseram que poderia desistir quando quisesse. Se desistisse, ele poderia liberar-se de tudo, levando uma vida normal.

Porém, se desistisse, embora seu cargo como filho mais velho dos pais permanecesse, perderia o status de herdeiro.

O que uma criança de cinco anos poderia entender sobre esse cargo? Ele seria rico mesmo sem esse status, e seria amado com ou sem ele, mas, por alguma razão, nunca conseguiu racionalizar a ideia de desistir. Não sabia exatamente o que isso significava, o que simbolizava ou qual seria o resultado, mas era a única expectativa que sua família tinha dele, e ele nunca decepcionaria!

Mesmo quando doía tanto que chorava secretamente, mesmo quando tinha que estudar sozinho enquanto seus colegas brincavam, mesmo quando enfrentava a morte repetidas vezes, ele nunca desistiu. Perdeu muitas batalhas na vida, fracassou em vários empreendimentos, arriscou muitas vezes, mas entre seus colegas da mesma idade, sempre foi o melhor.

Nunca, sequer antes de completar cinco anos, tinha visto um colega na mesma faixa etária como um desafio real. Aqueles que podiam ameaçá-lo eram mais velhos e experientes. Seus pares eram apenas seguidores ou admiradores, era algo natural, uma questão de fato. Até a semana passada!

Quando começou a cultivar, quase todas as suas liberdades foram tiradas, mas também lhe disseram que, ao atingir um de dois objetivos — completar a Fundação ou fazer 20 anos —, receberia a liberdade completa. Poderia decidir se continuaria seu treinamento, e então teria total controle sobre sua própria vida.

Para quase todos, era uma surpresa que ele já tivesse entrado na Fundação aos 17 anos! Em apenas dois anos de cultivo, ingressara na Fundação — algo totalmente sem precedentes na história registrada!

Porém, entrar na Fundação não fora fácil; precisava de uma oportunidade específica, que estava em uma pequena dimensão em Cairo. Essa dimensão era especial por abrir a cada dez anos e ser usada por algumas academias e organizações como uma zona de treinamento para seus cultivadores.

Ela era repleta de ruínas antigas e diversas bestas espirituais, e quem entrava tinha que encontrar suas oportunidades por conta própria. Alexander conseguiu, por meios especiais, permissão para entrar na zona menor, mas se conseguria ou não a oportunidade desejada dependia de suas próprias habilidades.

Para Alexander, isso não era problema — ele já estava no auge do Qi Training e era especialmente habilidoso. Os eventos ocorreram exatamente como esperava, e todos os seus adversários fracassaram, permitindo que ele encontrasse facilmente a oportunidade que buscava: uma câmara de meditação especial deixada por uma civilização antiga e desconhecida.

Ela abria a cada dez anos para uma pessoa, facilitando uma entrada tranquila em qualquer reino em que estivesse. Mas, pouco antes de entrar na câmara, foi parado por uma mulher misteriosa.

Ela usava uma máscara, então ele não pôde identificar quem era, mas tinha certeza de que ela era mais jovem do que ele! Não cantou sua frustração por ela ter impedido sua entrada, pois a oportunidade era para quem a aproveitasse, e enfrentou-a honestamente pelo direito de entrar. O que não esperava, no entanto, era perder! Não porque suas técnicas, equipamentos ou cultivo fossem superiores, mas porque seu julgamento e eficácia em batalha estavam além de tudo que já tinha visto! Ela revidava de formas que ele nunca esperou, e nunca era pega desprevenida, não importando o que tentasse. Sua postura e comportamento também eram extraordinários — algo que nunca vira em alguém de sua idade.

Se ela fosse de uma linhagem renomada ou poderosa, como ele, provavelmente ouviria falar dela, mas essa mulher era completamente desconhecida!

No final, ele perdeu a luta. Mas, antes que ela pudesse entrar, ele ofereceu um negócio em troca de deixar que usasse a câmara. Assim que conseguisse atravessar, ganharia sua liberdade e teria todos os recursos de sua família sob seu controle, e a longo prazo poderia oferecer muito mais benefícios do que a câmara específica pela qual competiam.

Depois de refletir um pouco, a mulher pediu suas informações de contato e desapareceu, permitindo que ele usasse a câmara.

Ele entrou na câmara, conseguiu a ascensão, mas não teve tempo algum para aproveitar sua nova liberdade e poder. Estava demasiado focado na identidade daquela mulher que o derrotou! Ao deixar a dimensão menor, usou todo o poder à sua disposição para investigar todas as pessoas que entraram nela, mas não encontrou nada sobre ela.

Era evidente que ela tinha se infiltrado na dimensão de alguma forma, uma façanha incrível por si só. O mistério ao redor dela só aumentava, e Alexander ficou ainda mais intrigado.

Por fim, soltou um suspiro profundo e resolveu deixar o assunto de lado. Só podia esperar que ela entrasse em contato, assim poderia aprender mais sobre ela. Até lá, era melhor concentrar-se nas coisas em que realmente podia agir.

A primeira delas era controlar sua arrogância: já achava que tratava seus oponentes com seriedade, mas sua derrota havia deixado claro que nunca levou a sério pessoas da mesma idade como um desafio real ou ameaça. Era uma brecha na sua mentalidade, que poderia ser usada contra ele por qualquer um que percebesse a falha. A segunda era finalmente celebrar um pouco.

Pela primeira vez em seus dezessete anos, podia fazer o que quisesse.

"Deem entrada," dezejou pelo intercom, e logo depois, três adolescentes entraram na sala gritando!

"ALEX, NÃO ACREDITO QUE VOCÊ CONSEGUIU!" gritou o primeiro garoto, que era bem mais alto que os demais. Observando sua silhueta extremamente magra, não dava para perceber que ele era um cultivador do Segundo degrau do Qi Training! "HAHAHAHA, SABE QUANTO EU APOSTEI QUE VOCÊ IRIA AVANÇAR PRIMEIRO QUE O HENRY, AQUELE VELHO CABRA?"

"VOU FICAR RICO!" O garoto riu alto e animadamente, como se estivesse vendo seus sonhos se realizarem.

"Ah, cala a boca, Greg!" gritou uma menina, empurrando-o para fora do caminho. Ela tinha cabelos longos e pretos até a cintura, com olhos negros lindos. Estava sorrindo suavemente, olhando para Alexander com admiração e reverência. "Parabéns, Alex, você treinou duro." Ela se chamava Helen e seu nível de cultivo era o mais alto na sala, além do de Alexander, no sétimo degrau do Qi Training.

Com poucos semanas a mais que Alexander, ela seria considerada uma gênia sem igual em qualquer lugar, mas ao lado dele, sua luz parecia ofuscada.

"Precisamos comemorar! Já reservei uma nave, podemos seguir para a lua em alguns dias! Haha, sem ninguém para nos controlar, podemos nos jogar em Las Vegas Nova!" O terceiro adolescente era um jovem bastante extravagante, com cabelo ruivo brilhante e uma tatuagem de um pássaro flamejante no pescoço, de cor laranja.

Seu cultivo era o mais baixo, no primeiro degrau do Qi Training, mas, considerando sua juventude, ainda era considerado um talento.

"Cala a boca, Zeus, ninguém vai para a lua!" repreendeu Helen, empurrando o menino sorridente completamente para fora da sala. Seu jeito gentil havia desaparecido, e ela parecia irritada e zangada com o tolo. Ele só tinha ideias sujas na cabeça, ela não podia deixar a genialidade de Alexander ser manchada por esse hedonista aspirante!

"Esqueçam eles! Esqueçam! Atualize seu status no Tempest! Preciso de uma prova, senão, aquele velho cachorro nunca vai pagar sua aposta!" disse Greg, rapidamente retirando o telefone e se aproximando de Alexander. Divertido, Alexander consentiu e entrou no Tempest usando seu telefone, ativando um talismã de detecção para verificar seu nível de cultivo, que se atualizou automaticamente no sistema.

Greg explodiu numa gargalhada e rapidamente discou para o telefone de Henry, seu irmão mais velho, que logo atendeu.

"Helen tem razão, Zeus, ainda não posso ir para a lua. Mas, mesmo assim, o evento é motivo de comemoração. Alguma sugestão?"

"Hoje à noite vai ter um leilão perto da Praça Tahrir," disse Helen, sem dar chance para os outros falarem. "Você devia ir lá comprar presentes para seus pais e professores. Depois, ouvi dizer que um restaurante chamado Jardim de Cleópatra tem um prato especial feito com bestas de Despertar Espiritual, e eles têm música ao vivo com espíritos."

"Parece ótimo," comentou Alexander, "vamos fazer isso."

*****

Lex estava na frente do Pod de Recuperação de Marlo, um pouco triste. O homem tinha acordado, mas sua recuperação ainda estava em andamento. Pelo que parecia, ele precisaria pagar mais um dia de recuperação para o gigante, o que machucaria seu bolso. Mas ele disfarçou a preocupação.

Embora Marlo estivesse acordado, ainda estava extremamente fraco. Apesar de estar se recuperando de várias feridas, Lex precisava concentrar toda a sua atenção em estabilizar a linhagem instável do amigo, um processo que não era rápido. Assim, o Pod de Recuperação usava sua energia para curá-lo, enquanto sua própria sangue lhe causava dor.

Gradualmente, a linhagem de Marlo estava se estabilizando, indicando que ele ia na direção certa, mas levaria mais tempo do que Lex havia esperado.

"Fiquei impressionado por você ter completado o teste tão rápido. E mais: derrotar um zumbi de Nível 5? Você precisa me contar essa história quando estiver recuperado," elogiou Lex com admiração.

Marlo sorriu de canto, mas não respondeu.

"Por ora, pode descansar. Quando estiver bem, a gente conversa. Confie em mim, você vai ficar extremamente satisfeito com o estado do seu corpo quando terminarmos de cuidar de você."

Marlo acreditava no que o Anfitrião dizia, mas, por alguma razão estranha, não sentia entusiasmo com a ideia de sua recuperação. Seus pensamentos se desviaram para a mulher extremamente forte que vira no planeta cheio de zumbis. Antes de adormecer novamente, seu último pensamento foi que queria enfrentá-la. Como ela ousou dizer que ele era desperdício com suas armas?

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