O Estalajadeiro

Capítulo 50

O Estalajadeiro

Enquanto esperava por Larry, Lex continuou vasculhando o Portal Ave-Rio em busca de detalhes sobre o que tinha acontecido. Havia inúmeros rumores, desde uma guerra iminente na região, até um patrimônio antigo descoberto, ou uma joia única que tinha atraído todos os ricos e poderosos. No entanto, nenhuma notícia confiável havia sido divulgada.

Nem a Blue Bird nem nenhuma outra organização emitiram um comunicado oficial sobre o que realmente estava acontecendo; apenas que todas as atividades dos cultivadores precisavam ser interrompidas temporariamente. Independentemente do que fosse, Lex estava mais confuso ainda por não entender por que isso o afetaria em Nova York, se a batalha acontecesse no Egito.

Baseado em tudo que sabia, apesar de sempre haver muitos cultivadores de segurança envolvidos em confrontos constantes.

Lex ficou perdido em seus pensamentos por um tempo, até ser acordado do devaneio pelo som de batidas na porta. Ele abriu a porta e se deparou com Larry, maltratado, suado e com hematomas, segurando uma pequena bolsa de saída cheia de roupas.

— O que aconteceu? — perguntou Lex, preocupado. — Você está bem? Te meteu em alguma briga?

— Não, não se assuste! — respondeu Larry, com a voz ainda animada e alegre como sempre. — Estava no trabalho quando saiu a notícia da Blue Bird. Trabalho como parceiro de combate, então umas escoriações aqui, ali, são bem comuns. Normalmente vou ao médico depois das sessões pra cair tudo, mas o Clube precisou fechar às pressas, e não tive tempo.

Queria ir pra casa, mas o trajeto costuma levar uma hora. Não sabia o que os agentes da Bluebird fariam comigo se me vissem ainda na rua, tanto tempo depois do comunicado de emergência. Não quis correr o risco, espero que não se importe.

— De jeito nenhum — disse Lex, acolhendo Larry. — Por que não toma um banho e se arruma primeiro? A gente conversa depois.

— Obrigado — Larry sorriu grato, entrando no banheiro com a mala. Lex ficou ainda mais curioso com esse colega de classe. Ele não duvidava que Larry trabalhasse como lutador ou treinado, mas tinha visto Larry lutar na aula de autodefesa. Ele não era alguém facilmente vencido, nem tão fácil de ficar machucado assim.

Havia algo mais na situação de Larry do que ele deixava transparecer, mas já que Larry não quis falar, Lex resolveu não se intrometer. Enquanto aguardava, continuou navegando pelo portal em busca de mais notícias.

Havia inúmeras teorias da conspiração, mas pouco de concreto. Alguém chegou a apontar que Marlo tinha cancelado reuniões de negócios durante toda a semana e que, recentemente, tinha desaparecido do público. Embora Lex soubesse que Marlo era famoso, ficou surpreso de alguém estar tão atento a detalhes seus e colocar isso relacionado ao que estava acontecendo.

Quarenta minutos depois, Larry saiu do banheiro com roupas novas, e embora ainda apresentasse hematomas, pelo menos não estava mais suando.

— Que sensação boa — disse Larry, jogando-se no sofá. — Desculpa invadir assim, espero que sua namorada não se chateie comigo ficando aqui. — Larry piscou de forma lasciva para Lex e olhou ao redor do apartamento procurando qualquer sinal da 'namorada'.

— Moro sozinho — respondeu Lex, divertindo-se com a obsessão de Larry por garotas.

— Ah, vivendo a vida de solteiro. Tudo bem, não há motivo pra amarrar ninguém.

Lex balançou a cabeça, sem se preocupar em explicar. Nesse aspecto, Larry era completamente perdido.

— Você sabe o que aconteceu? Por que a Bluebird emitiu um comunicado de emergência? O que quer que tenha acontecido, não deve ter sido tão grave. Quero dizer, o mundo fora do mundo da cultivação parece estar seguindo normalmente.

— Não sei ao certo, mas posso imaginar. Deve estar relacionado a uma das Agências de Policiamento de Cultivadores internacionais (ICPA). Assim como a Bluebird cuida de Nova York e alguns estados da América do Norte, há várias dessas agências pelo mundo. Sempre que uma delas enfrenta uma emergência, todas adotam a prisão domiciliar de cultivadores.

Não é comum, mas já aconteceu antes.

— Mas isso é um pouco extremo, né? Até onde eu sei, tudo aconteceu no Egito. Por que precisaríamos ficar presos aqui? Ou no restante do mundo?

Ao invés de responder imediatamente, Larry olhou para Lex com uma expressão divertida e de entretenimento. — Vamos lá, meu amigo, ficar de olhos nas garotas é bom. Mas não dá pra ficar tão absorto nisso a ponto de se fazer de desinformado sobre o que acontece fora.

Lex deu um riso de canto, pensativo: qual dos dois tava completamente focado em garotas?

— Acho que você realmente não se envolve em nenhuma organização, ou conhece outros cultivadores além da aula. Se conhecesse, não faria uma pergunta tão básica. Ou ao menos teria alguma ideia do porquê. Ahn, acho que preciso te explicar. Vai levar um tempo, tem comida aí?

Lex não tinha comida em casa, pois vinha comendo no Pouso recentemente, então pediu algumas pizzas grandes. Parecia muito para os dois, mas Lex tinha se acostumado a comer mais após começar a cultivar.

— Você já ouviu falar do Complexo Divino? — Larry perguntou assim que Lex terminou de fazer o pedido. Mas antes que pudesse responder, Larry prosseguiu. — O Complexo Divino é quando alguém começa a acreditar que é infalível. Que suas habilidades são melhores que as dos outros, ou que ele próprio é essencialmente superior.

Entre os mortais, cirurgiões muito bem-sucedidos são conhecidos por desenvolverem esses complexos. Entre os cultivadores, é ainda mais comum.

— Isso não quer dizer que cultivadores se transformem em pessoas más. Não, a maioria permanece legalista, pacífica, vivendo suas vidas sem pensar em fazer mal a alguém.

— Mas quanto mais alguém cultiva e mais forte fica, mais começa a se ver como algo além do que era. Com divisões tão claras na cultivação, é natural que, à medida que sua energia sobe, você comece a se achar melhor que os demais.

— Com o passar do tempo, sem perceber, cultivadores começam a se enxergar como diferentes ou superiores aos mortais. Basta pensar na palavra usada para os não cultivadores: mortais.

— No mais, isso não faz diferença na rotina de ninguém. Mas, se entre mil cultivadores, mesmo um desenvolver um ego inflado, imagine o que essa pessoa faria com os mortais que não gostam? Se um cultivador de Temperamento Corporal consegue dominar completamente os mortais, imagine um cultivador de Qi, que esteja tendo um dia ruim."

— Ou um cultivador de Qi que acha que um mortal o ofendeu? Já foi mordido por um mosquito? Ficou com vontade de exterminar todos eles do mundo por aquela coceira irritante?

— Antigamente, era comum cultivadores matarem mortais por qualquer inconveniente mínimo. Essa foi a verdadeira razão da formação da ICPA. Para proteger os mortais dos cultivadores. Sim, eles fazem muito mais do que isso. Mas se um cultivador matar outro cultivador, eles podem agir, mas dependendo do assassino, podem sair impunes.

— Mas se um cultivador for pego matando um mortal, mesmo que seja um cultivador de Núcleo Dourado, a ICPA leva tudo a sério.

— Por isso, quando há uma emergência, todos os ICPAs do mundo reforçam a prisão domiciliar. Você está dizendo que o que aconteceu no Egito provavelmente sobrecarregou as autoridades lá, que não podem focar em mais nada. Para evitar que cultivadores cheguem lá e usem a situação a seu favor, todos ficam presos em casa.

— A maioria nem pensaria nisso, mas basta um cultivador de Núcleo Dourado para que os estragos possam ser inimagináveis.

Uma atmosfera séria pairava no ar enquanto Lex absorvia tudo que Larry lhe dizia. Afinal, tal magnitude no ocorrido indicava que algo assim já tinha acontecido antes.

— Mas os ICPAs também são compostos por cultivadores? Quem impedirá eles se forem os que querem tirar vantagem da situação?

Larry deu de ombros.

— Não sei. Esse tipo de coisa fica na cabeça dos cultivadores de nível mais alto. Nós estamos no fundo do poço por enquanto, isso não tem nada a ver com a gente. Enfim, vamos lá, quero ver se há alguma novidade real sobre o que aconteceu. Estava tão ocupado antes que nem fiquei online.

Lex concordou, também curioso para entender a origem de toda essa confusão. Surpreendentemente, ao voltar ao portal, a primeira manchete que viu dizia: "Alexander Morrison assassinado no Egito!". O nome familiar o pegou de surpresa, e ele nem notou a expressão horrorizada de Larry.

Comentários