
Capítulo 9
O Estalajadeiro
Com um pensamento, Lex retornou da Taverna para seu apartamento. Ele podia voltar da Taverna para onde fosse com um só pensamento. No entanto, retornar à Taverna levava alguns minutos, durante os quais, se o processo fosse interrompido, seria cancelado. Lex não tinha certeza do motivo dessa diferença entre voltar da Taverna e ir até ela, mas aquilo se resolveria quando ele elevasse o nível da Taverna.
Ou assim ele achava.
A primeira coisa que fez ao retornar foi verificar o Monóculo Elegante. Ele estava realmente preocupado com a quantidade de dados que ele consumiria para preencher seu banco de dados. Se ele simplesmente aprendesse tudo do Wikipedia ou de alguma biblioteca online, ainda seria suportável, mas se decidisse baixar a internet inteira para preencher seu banco, isso certamente traria problemas.
Isso, claro, assumindo que baixar é o método que o monóculo utiliza para atualizar seu banco de dados. Quem saberia como esses tesouros do Sistema funcionam?
Felizmente, ao encontrar o monóculo, a aba no computador dizia 'banco de dados atualizado', e não parecia haver nenhum problema, então, na esperança de que tudo estivesse bem, Lex colocou o monóculo sobre o olho direito e olhou ao redor do cômodo, ficando instantaneamente impressionado. Fragmentos aleatórios de dados apareciam ao redor de qualquer coisa que ele focasse, e esses dados desapareciam ou se expandiam de acordo com seus pensamentos.
Ele olhou para uma mesa e foi mostrado um conjunto de informações sobre o tipo de material, suas dimensões, durabilidade, desgaste acumulado e muito mais. Olhou para si mesmo no espelho e começou a ver dados sobre seu corpo: altura de 1,85m, peso de 84kg, o comprimento do cabelo, o material de suas roupas e muito mais.
Era impressionante, no entanto, Lex desativou todas as informações e configurou o sistema para que exibisse somente os detalhes em que tinha interesse.
Com um pensamento, ele devolveu o monóculo ao sistema e foi tomar banho. Já fazia mais de um dia desde sua última ducha e ele sentia uma forte vontade de se lavar. Depois de um banho quente e longo e de passar um tempo na frente do espelho admirando seu novo corpo, Lex colocou uma calça, uma camiseta e tênis e deixou seu apartamento.
Ele poderia simplesmente enviar seu pedido de demissão por e-mail, mas isso não parecia adequado. Embora não fosse próximo de seu chefe, mantinham uma relação amigável e profissional, então seria melhor pessoalmente. Além disso, queria se despedir de alguns colegas de trabalho.
Conectou seus fones de ouvido — um padrão de Nova York — colocou sua playlist no modo shuffle e começou a caminhar em direção ao metrô. Lex, perdido em seus pensamentos, não percebeu, mas sua passada tinha ficado mais lunga e seu ritmo mais rápido. Transpirava um ar de determinação e autoconfiança que antes lhe faltava, e sua silhueta forte chamava tanto atenção quanto o sorriso suave no rosto.
Ao entrar no vagão do metrô, abriu a Loja da Meia-Noite e comprou uma Chave de Ouro para convidar um convidado. Uma chave custava 100 MP, e seu preço dobrava a cada compra, resetando toda semana.
Para Lex, isso representava um problema, pois comprar chaves era um pouco uma aposta, já que um convidado precisaria ficar pelo menos duas noites para que ele desse um retorno, ou talvez comprar algo na Loja de Presentes.
Ele soube, por Mary, que 1 MP equivalia a aproximadamente 1.000 dólares se fosse em dinheiro. Segundo ela, pagar com algum item espiritual em vez de dinheiro seria mais viável para seus convidados de Terra. Mas como ele saberia onde procurar por convidados com itens espirituais?
Ele não tinha ideia alguma, mas sua sorte nos últimos dias fora ótima, então planejava continuar confiando nela para isso. Quando chegou na sua estação, uma Chave de Ouro "caiu" do bolso dele sobre o assento, mas antes que alguém notasse, ele já tinha saído. Durante um tempo, ninguém deu atenção à chave, mas eventualmente uma criança se atraiu pelo brilho e a pegou.
Ele tentou mostrar à mãe, mas ela estava ocupada com alguma coisa no telefone. Decidiu mostrar para ela mais tarde.
Sem saber que sua chave tinha caído nas mãos de uma criança, Lex seguiu seu caminho até chegar a um prédio alto. Olhou para cima, admirando a construção uma última vez, lembrando dos anos que passou ali. Sua empresa ficava no 9º andar, com mais de 80 funcionários, muitos dos quais Lex conhecia bem.
Trabalhava como desenvolvedor web e o trabalho, no começo, tinha sido interessante, mas nos últimos tempos ele estava entediado, como se tivesse cansado de tudo. Pelo menos agora sabia o motivo desse tédio, e mesmo sem resolvê-lo, sua trajetória atual na vida proporcionava pouco espaço para qualquer coisa além de excitação.
Inspirou fundo, de forma lenta e profunda, respirando os cheiros de pretzels e bagels quentinhos sendo vendidos nas barraquinhas próximas, e, finalmente, deu um passo firme em direção ao escritório com determinação.
Ainda era cedo, então as pessoas ainda estavam chegando. Harry e Elaine, seus dois colegas mais próximos, ainda não tinham chegado, mas sua chefe, Jessica, já estava sentada em seu escritório. Ele bateu na porta e esperou ela dizer "entrou" para então entrar.
"Oi, Jessica, acho que te peguei cedo. Preciso conversar com você sobre algo."
"Lex?" Jessica levantou o rosto do computador ao vê-lo entrar. "Espero que esteja tudo bem. Quando você não apareceu ontem, tentei te contatar, mas não consegui falar com você."
"Sim, sim, está tudo bem. Desculpe por não ter ido ontem, mas o motivo de não ter conseguido foi justamente por isso que vim falar com você." Lex sentou-se em uma cadeira oposta à dela e pensou por um momento antes de falar. "Estou aqui para entregar minha demissão."
"O quê?" Jessica exclamou, surpresa. "Como assim? A empresa sempre tratou bem todos os funcionários, e nunca ouvi nenhuma reclamação sua antes."
Lex sorriu de modo fraco e respondeu: "Você está certa, a empresa sempre me tratou de forma justa e eu nunca tive reclamações, nem tinha planos de sair antes. Mas, recentemente, recebi uma proposta muito promissora como líder de equipe em uma startup nova. Precisavam de uma resposta minha o quanto antes, por isso não consegui ir ontem, pois estive visitando o local deles."
"Ah, entendi. Parabéns então," respondeu Jessica, recuperando a compostura rapidamente. Ela conhecia Lex tão bem quanto as demais funcionárias sob sua gerência, o suficiente para saber que ele era um trabalhador competente e que dava poucas dores de cabeça. "Você vai sair imediatamente?"
Devo lembrá-la de que, se abrir mão do aviso de duas semanas, perderá a gratificação e quaisquer outros benefícios que a empresa normalmente oferece."
Lex sorriu internamente. Apenas os investimentos feitos com seus 7 milhões de dólares já lhe proporcionavam um retorno mais alto que seu salário, então o dinheiro era a menor de suas preocupações. "Obrigado por avisar, mas preciso começar imediatamente. Vou abrir mão dessas benesses."
"Então, nesse caso, desejo sucesso em seus novos caminhos. Para oficializar, por favor, envie uma solicitação por escrito ao Henry do RH, que irá fazer você preencher alguns formulários, recolher qualquer propriedade da empresa que você tenha e realizar uma entrevista de saída. Assim que o processo terminar, traga os papéis de volta para mim e eu os assinarei."
Jessica sempre foi tão formal, mas, de certa forma, isso facilitava as coisas. Lex deixou seu escritório, mas Harry e Elaine ainda não tinham chegado, então ele foi até o setor de RH. O processo demorou bastante mais do que esperava e, pouco mais de três horas depois, Lex voltou à sala de Jessica, que revisou os papéis e finalmente assinou tudo.
"Parece que você está partindo para coisas maiores, Lex," ela disse, levantando-se da cadeira. "Desejo sucesso e muita sorte nos seus novos empreendimentos."
Ela estendeu a mão para um aperto de despedida, e Lex respondeu concordando, achando que era uma boa forma de se despedir. O que ele não esperava era que, assim que eles se tocassem, os olhos de Jessica se arregalassem de choque e ela soltasse: "Um cultivador?".