Flores São Iscas

Capítulo 110

Flores São Iscas

Kwon Chae-woo chegou atrasado e abriu caminho pela multidão, ignorando os gritos e os punhos cerrados. Logo encontrou o rosto dela, agora escuro como cinza por causa da poeira e do musgo.

Lee-yeon, com uma corda enrolada na cintura e pendurada na árvore, estava numa posição tão precária como se estivesse numa guilhotina. O que tremia, no entanto, não era ela, mas a motosserra.

Ela pegou a máquina barulhenta e cortou um galho seco com entusiasmo. Não parecia nem um pouco uma médica, mas sim uma espécie de destruidora da natureza. Kwon Chae-woo sorriu discretamente, observando a esposa realizar sua cirurgia com tanta ousadia.

Crack, thump. Crack, thump.

Cada galho que caía no chão arrancava mais gemidos da multidão.

“Ahhhh!”

Os mais velhos se jogavam no chão ou gritavam: “Por que ninguém impede essa mulher?!” As mãos de Kwon Chae-woo se crisparam, com vontade de quebrar o pescoço de quem a criticasse.

“Achei o reto!”

Não demorou para que a voz estrondosa de Lee-yeon chegasse a Choo-ja.

Ela localizou o buraco podre e o encontrou fervilhando de insetos. Falando em termos do corpo humano, um buraco na espinha dorsal apodreceu, e a infecção se espalhou tanto que o dano era irreversível.

Lee-yeon prendeu a respiração por um instante e virou o rosto para longe do fedor que se espalhava. Enquanto separava lentamente a podridão e os galhos mortos, a pele e os excrementos dos insetos se acumulavam.

Kwon Chae-woo não conseguia tirar os olhos de Lee-yeon enquanto ela se entregava ao trabalho.

“…”

Seus lábios cerrados estavam determinados, e o olhar em seus olhos era incomumente sério, quase selvagem. Era a primeira vez que a via nesse estado. O pomo de Adão dele subiu e desceu nervosamente. De repente, o sol brilhou e invadiu seu campo de visão. Chae-woo apertou um dos olhos e a encarou, absorvendo sua imagem.

“Lee-yeon.”

Ele queria afastar a franja úmida grudada em sua testa, envolver o joelho dela que estava sendo varrido pela árvore.

Naquele momento, ele cruzou o olhar com alguém na multidão: uma figura chamativa, mas familiar. Um xamã que já havia realizado um ritual ali encarava Kwon Chae-woo, como se estivesse procurando algo. Ele franziu a testa de forma rude e descarada, retribuindo o olhar do xamã, que continuou a observá-lo atentamente.

“…”

“…”

De certa distância, o xamã murmurou algo inaudivelmente. Estranhamente, em vez de ignorar como um murmúrio insignificante de um estranho, ele conseguiu ler seus lábios com precisão.

‘Quando a lua estiver cheia, o cão vai uivar.’

O xamã puxou os cantos da boca para cima e sorriu. Embora sua boca estivesse bizarramente virada para cima, suas sobrancelhas caíram bruscamente. Parecia estar zombando de Chae-woo, sentindo pena dele, rindo dele.

Simultaneamente, a cabeça de Chae-woo latejou como se estivesse sendo atingida repetidamente por uma série de armas contundentes. Os protestos e o zumzum das pessoas ao seu redor só pioravam a dor de cabeça lancinante.

‘O que está acontecendo?!’

Kwon Chae-woo mordeu a língua com força até sentir o gosto de sangue, suportando toda a dor.

Como se o chão em que estava virasse de repente, seu rosto se contorceu violentamente, e seus olhos brilharam com vida.

Ele olhou para cima novamente, procurando o xamã, mas ele havia desaparecido sem deixar vestígios.

A aparência da árvore sagrada mudava a cada segundo. A árvore grandiosa e misteriosa que antes estava ali não existia mais.

‘Você vai voltar. Hoje à noite.’

Kwon Chae-woo ouviu distintamente as últimas palavras do xamã: um sussurro furtivo, como o bater das asas de uma borboleta.

Algo estava definitivamente mudando.

* * *

“Choo-ja, bom trabalho.”

A longa operação de cinco horas finalmente chegou ao fim.

Depois de aplicar o soro, Lee-yeon soltou um longo suspiro. Assim que a tensão se dissipou de seu corpo, seus membros tremeram.

As pessoas estavam fixas na nova aparência da árvore sagrada, agora magricela como um poste de telefone. Alguns choravam, outros batiam os pés e avançavam contra Lee-yeon com raiva.

Kwon Chae-woo os empurrou para longe com facilidade e ficou orgulhosamente ao lado de Lee-yeon. Quando um homem tão alto e forte tinha um olhar frio nos olhos, as pessoas hesitavam em avançar.

“Huh? Chae-woo, como você chegou aqui?”

Ela olhou surpresa para o homem que havia aparecido sem avisar. Seus olhos se encheram de alegria e seus lábios se abriram em um sorriso. A garganta de Chae-woo de repente ardeu. Escusado será dizer que era um momento que ele desejava gravar em sua memória para sempre. Quando ele encostou a bochecha no topo da cabeça de Lee-yeon, ela afastou seu corpo grande.

“Estou cheia de musgo. Vai te sujar todo!”

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