
Capítulo 75
Flores São Iscas
“Poderia me mostrar sua identidade, por favor?” Era uma pergunta que a funcionária havia feito inúmeras vezes, mas hoje sua voz vacilou.
“Preciso?”
“Sim.”
“Eu a perdi. O que devo fazer se não a tenho comigo agora?”
“Ah… então, por gentileza, preencha um pedido para emissão de uma segunda via da sua identidade primeiro?” Ela apressadamente lhe entregou um formulário.
O formulário de solicitação exigia um número de registro de residente, do qual ele não fazia ideia. Kwon Chae-woo franziu a testa. A funcionária encarou o homem paralisado sobre o formulário. Kwon Chae-woo largou a caneta e massageou as têmporas.
“Posso pegar seu telefone emprestado por um segundo? Preciso ligar para alguém.”
“Meu telefone?” perguntou a funcionária. Era um pouco incomum ver alguém sem telefone hoje em dia. Mas seus olhos, embora bonitos, pareciam muito ameaçadores, então ela concordou. Ela empurrou o telefone sobre a mesa.
Kwon Chae-woo pegou o telefone e discou lentamente um número. Sua mandíbula se contraiu quando uma voz desagradável atendeu.
“Alô, sou eu”, disse Kwon Chae-woo.
“…Chae-woo?”
Não havia nenhum traço de emoção naquela voz fria. Kwon Chae-woo tinha a mesma voz. Ele ainda não sabia por que se sentia tão hostil em relação ao irmão. Sua emoção era completamente diferente de quando soube que So Lee-yeon era sua esposa.
“Eu memorizei seu número quando estava tentando apagá-lo sem que Lee-yeon soubesse.”
Não houve resposta do outro lado. Kwon Chae-woo soltou um curto suspiro. “É difícil esquecer alguém tão irritante quanto você.”
Um silêncio pesado se seguiu. O único som que se ouvia do outro lado era o do homem batucando na mesa.
“Então, qual é o problema?”, perguntou seu irmão.
“Preciso do meu número de registro de residente.”
Uma risada curta e seca escapou da boca de Kwon Ki-seok. “Parece que sua memória ainda não voltou.”
Era difícil dizer se era alívio ou decepção que se ouvia em sua voz.
“Meu número de registro de residente”, repetiu Kwon Chae-woo, não querendo prolongar a conversa mais do que o necessário.
“Por que você não pede para So Lee-yeon?”
Ele sabia que Kwon Ki-seok estava tentando provocá-lo. “Não ouse dizer o nome dela.”
“Ela moveria céus e terras se você pedisse”, disse Kwon Ki-seok. “Ela é bem… leal.”
Kwon Chae-woo segurou o telefone um pouco longe de seus ouvidos e fechou os olhos como se estivesse tentando conter sua raiva. Com esforço, Kwon Chae-woo conteve a enxurrada de palavrões que queriam sair de sua boca.
“É melhor você não me fazer repetir”, disse Kwon Chae-woo friamente.
“Qual é o nome do documento que você precisa, Chae-woo?”, disse Kwon Ki-seok.
“Certidão de casamento.”
Kwon Ki-seok caiu na gargalhada. Os tendões saltaram na mão de Kwon Chae-woo que segurava o telefone.
“Mas levaria algum tempo para obter sua carteira de identidade”, disse seu irmão.
“Isso não é da sua conta”, retrucou Kwon Chae-woo.
“Claro. Mas já que você conseguiu me surpreender, terei prazer em lhe dar um presente.”
As sobrancelhas de Kwon Chae-woo se contraíram.
“Espere aí um pouco”, disse Kwon Ki-seok e encerrou a chamada.
Kwon Chae-woo colocou o telefone sobre a mesa com sentimentos confusos. Vários minutos se passaram e alguém saiu da porta de dentro do escritório. O homem parecia em pânico. Era o chefe do cartório. Ele correu meio que correndo para Kwon Chae-woo, parecendo muito pálido.
“Faremos o possível para emitir sua identidade ainda hoje”, gaguejou o homem. Ele entregou a Kwon Chae-woo um pedaço de papel com a mão trêmula.
Certidão de Casamento.
Kwon Chae-woo rapidamente examinou o documento.
* * *
“O que você acha que é o casamento?”
O segundo homem que Lee-yeon conheceu era um marceneiro próximo de sua idade, com braços impressionantemente grossos. Sua pele bronzeada e voz alta fizeram Lee-yeon estremecer. Mas o homem era muito amigável para conversar. O homem, que havia falado sem parar sobre seus hobbies, de repente mudou de assunto com essa pergunta.
“Uh…” Lee-yeon hesitou. *Eu acho que o casamento é um… túmulo.*
O homem encolheu os ombros e colocou suas enormes mãos sobre a mesa. “Casamento é um grande evento na minha vida.”
Lee-yeon assentiu e ouviu atentamente.
“Você disse que tem trinta e dois anos, certo?”, perguntou ele.
“Sim.”
“Então você provavelmente vai se identificar com o que estou dizendo.”
“Se identificar com o que exatamente?”, perguntou Lee-yeon em genuína confusão.
“Mostrar aos nossos pais que estamos vivendo uma vida feliz!”, disse o homem, animadamente.
Lee-yeon não sabia o que dizer.
“As coisas mudaram, e eu não esperaria sacrifícios da minha esposa, é claro”, disse ele. “Eu quero acampar ou viajar para o exterior por um mês com minha sogra e meu sogro.” Seus olhos brilhavam. “O que você acha disso, Srta. Lee-yeon?”
“Ah…” Lee-yeon de repente achou muito difícil respirar. Ela sabia que suas intenções eram boas. Mas no momento em que ele disse ‘casamento’, o rosto de Kwon Chae-woo havia surgido em sua mente. Ela balançou a cabeça para afastar o pensamento. “Parece que você tem ótimos planos, mas…”
Lee-yeon respirou fundo e sorriu. “Eu realmente não amo minha família.”
“O quê?” Os olhos do homem se arregalaram. Lee-yeon não perdeu a carranca que apareceu em seu rosto por um momento fugaz. Lee-yeon teve um mau pressentimento no estômago. A percepção de que ela realmente não conseguiria conhecer alguém comum para aproveitar seu tempo a atingiu como um golpe.
Lee-yeon sentiu vergonha de si mesma. Ela havia sido rejeitada e envergonhada tantas vezes e, no entanto, nunca aprendeu. Ela sempre tentava ser alguém que não era para poder viver uma vida que não podia ter.
Lee-yeon não conseguia se conectar com nenhum dos homens que conheceu. Um não conseguia esquecer seu primeiro amor, e o outro era um filho devoto. Ambos eram pessoas maravilhosas que estavam prontas para viver juntas com outra pessoa. Mas no mundo de Lee-yeon, não havia ninguém lá. Ela só tinha aquelas árvores que havia plantado. Ela percebeu que o mundo deles não era feito para ela. Ela pode nem ser capaz de viver nele, afinal.
*“Você é tudo que eu tenho e tudo que eu preciso. E eu pensei que isso era o mesmo para você também.”*
*Se ao menos eu pudesse ouvir isso de novo,* lamentou Lee-yeon. Fora da janela, nuvens cinzentas cobriam o céu escurecendo lentamente a cidade. Lee-yeon queria sair deste lugar e correr para casa.
Os cinco homens que ela conheceu hoje tinham histórias. Histórias sobre seus dias de escola ou suas famílias ou sua vida amorosa. Lee-yeon se sentiu cada vez mais chateada ao perceber o quão desconectada se sentia deles. Ela não tinha nenhuma história interessante e típica para compartilhar sobre sua vida do passado ou do presente.
“Srta. Lee-yeon, no que você está pensando?”
Lee-yeon ergueu a cabeça surpresa. “Ah… não é nada.”
Ela tinha que admitir para si mesma que não conseguia esquecer os momentos que havia passado com Kwon Chae-woo nestes últimos meses.
*O que há de errado comigo?!*
O homem à sua frente tomou um gole de seu café. “Srta. Lee-yeon, qual é o seu tipo ideal?”
“Eu… não acho que tenho um.”
“Sério?”
O rosto de Lee-yeon escureceu. Havia algo que Hwang Jo-yoon havia dito que ela não conseguia negar ou esquecer.
*“Você não é o tipo de mulher que pode namorar um homem! Você odeia estar com pessoas!”*
*‘Quem no mundo entenderia uma mulher que vai ver árvores todas as noites e faz fertilizante em casa até nos fins de semana?”*
Ela se virou para a janela para observar a chuva torrencial. Seu coração batia forte. Seu rosto ficou vermelho. *Estou enlouquecendo?* Lee-yeon esfregou os olhos como se não pudesse acreditar no que via. Do lado de fora da janela, ela viu um homem parado sozinho na chuva forte.
Todos na rua estavam correndo para evitar a chuva e se abrigar, mas Kwon Chae-woo estava parado lá congelado como uma estátua, de frente para o café onde ela estava.