Flores São Iscas

Capítulo 59

Flores São Iscas

Os olhos de Kwon Chae-woo brilhavam e iluminavam a noite. Ela o encarou fixamente por um tempo e então corou. Mordeu o lábio, nervosa.

“Eu não sou interesseira…” ela murmurou.

“Que pena”, ele disse. “Eu não me importaria se você fosse e viesse atrás de mim.”

“Você está falido”, disse Lee-yeon, divertida.

“Você não disse que minha família era rica?”

“Eles são muito assustadores.”

Lee-yeon suspirou. “Minha família era uma bagunça completa.” Era melhor não se aproximar demais das pessoas. Ela se sentia dividida. Queria contar a ele sobre sua família, ao mesmo tempo em que queria construir um muro ao seu redor.

“Éramos relacionados por sangue”, ela disse. “Mas não conseguíamos nos considerar uma família de verdade.”

Kwon Chae-woo ouviu pacientemente. “Eu era chamada de Song-yeon em casa”, ela disse.

“Song-yeon?”

Ela assentiu. “Era como um apelido.” Quando o nome So Lee-yeon é escrito verticalmente, lê-se Song-yeon. Então esse nome ficou comigo. “Song-yeon é a fuligem de pinheiros queimados.” Lee-yeon fez uma pausa. “Eu era considerada uma mancha suja na imagem da minha família.”

Naquele instante, houve uma erupção de barulho e fogos de artifício iluminaram o céu. Ela podia ouvir vagamente as pessoas gritando e aplaudindo. Lee-yeon não conseguia tirar os olhos do deslumbrante e colorido show de luzes no céu.

Se ao menos eles pudessem preencher meu coração vazio com calor, pensou Lee-yeon. Eu faria qualquer coisa para não sentir falta da minha família.

“É assim que você tem se visto até agora?” Seus olhos calmos a encaravam. “Como uma mancha ou fuligem? É assim que você se vê?”

Seus olhos gentis faziam seu coração doer. Seus olhos pareciam implorar por uma resposta. Seus olhos eram como espelhos. E ela não se via refletida como uma mancha ou fuligem em seus olhos. Isso a fez se ver, pela primeira vez, como uma mulher independente e resiliente que havia sobrevivido apesar de todas as adversidades. Uma Doutora de Árvores, uma cuidadora. Ela havia superado o bullying de seus colegas de trabalho e primos. Ela havia prosperado apesar das condições difíceis.

“Você sabe que depois de um incêndio florestal, a árvore ainda vive e faz uma nova floresta?”

“Hm… e?” ele perguntou.

“Eu posso ter sido Song-yeon, mas agora sou uma Doutora de Árvores.”

Ele sorriu para ela. “Eu me reconstruí”, ela disse, sua voz embargando. Ela conseguiu sorrir e não se importou com as lágrimas que brotavam em seus olhos.

Uma infância árida a impediu de criar raízes. Em uma época em que ela deveria estar descobrindo o mundo e crescendo forte, ela apodreceu e secou. Com espinhos em sua vida, ela só aprendeu a se distanciar dos outros. Ela tinha memórias dolorosas, mas havia se esforçado ao máximo. Talvez uma flor não floresça em um lugar como este, mas… talvez alguém…

Ela esperava que alguém pudesse lhe dizer que ela havia feito o seu melhor e que era o suficiente. Que ela era boa o suficiente.

“Pode não ser bonito, mas sou eu.”

Os fogos de artifício explodiram novamente. Kwon Chae-woo sorriu brilhantemente para ela. Seu sorriso era tão caloroso que derreteu seu coração. Ele envolveu seus braços em volta dela e a puxou para perto.

“Eu sabia!” ele disse.

“O quê?”

“Eu não achava que uma pessoa que até pega pétalas caídas do chão com tanto cuidado jamais pensaria em si mesma como uma mancha suja.”

Os fogos de artifício explodiam um após o outro simultaneamente. As pessoas gritavam. Mas Lee-yeon não conseguia ouvir mais nada. Era como se ela estivesse removida do resto do mundo. Ela estava apenas ciente de sua proximidade com Kwon Chae-woo e seu coração acelerado. Era diferente de como ela o havia conhecido nas montanhas meses antes.

Lee-yeon apertou suas mãos suadas. Naquele momento, ela pensou em fugir. Mas ela permaneceu firme. “Eu queria viver uma vida tranquila longe das pessoas. Eu tinha medo delas. Eu tinha medo de como elas me viam. Eu escolhi árvores em vez de pessoas”, ela deixou escapar. “Elas me aceitaram. As árvores não têm preconceitos. A floresta era o único lugar onde eu me sentia segura, mas…”

Ele ainda a olhava pacientemente. “Mas você…”

Ela olhou para ele. “Você constantemente…” Ela parou.

“Continue”, ele insistiu.

“Você é venenoso”, ela deixou escapar. “Eu acho que sim. Eu acho que você é venenoso.” Ela repentinamente pulou o que queria dizer. Ela entrou em pânico.

Ele foi paciente. Ele esperou. Ele sabia que ela estava dançando em torno das palavras que realmente queria proferir. Ele a deixaria.

“E daí?” ele perguntou.

Sua voz calma e constante a ajudou a se recompor. “Então… eu…”

Outro lote de fogos de artifício iluminou o céu.

“Eu acho que realmente tenho um segundo marido. Um novo homem.”

“O quê?” ele perguntou, agora completamente confuso.

“Eu não vejo mais o velho Kwon Chae-woo. Você é um homem mudado”, Lee-yeon declarou. Ela parecia envergonhada com o que disse. Ela não sabia se ria ou chorava de si mesma.

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