Flores São Iscas

Capítulo 43

Flores São Iscas

O homem que estava sentado ereto cobriu o rosto com as mãos e se curvou como se estivesse sofrendo. Ele se inclinou para frente, segurando os dois lados da mesa estreita. Seus nós dos dedos estavam brancos.

“Sempre que penso no seu ex-marido, sinto náuseas.” Kwon Chae-woo traçou uma linha clara entre ele e o Kwon Chae-woo antes de perder a memória, como se fossem dois seres diferentes.

Lee-yeon se lembrou dele chorando durante o sono. Suas mangas nunca estavam secas. "Ainda assim... você não sente nem um pouco de curiosidade sobre o seu passado? Sobre o que pode ter acontecido com você..."

Mas Kwon Chae-woo balançou a cabeça. Seu rosto estava rígido. Ele não queria falar sobre o casamento infeliz deles nem queria que Lee-yeon trouxesse à tona memórias desagradáveis. Ele largou os hashis e baixou os olhos.

“Eu sei que não posso fugir do meu eu do passado. Quer dizer, o passado e o presente têm que viver no mesmo corpo, mas eu sei que ele iria se arrepender", disse ele. "Eu não sei muito sobre o meu passado, mas o eu do passado era um idiota estúpido que só conseguia tirar as piores conclusões."

Lee-yeon coçou a nuca e tentou afogar suas emoções complicadas.

"Aquele idiota ganhava bem?", ele perguntou de repente, levantando a cabeça para olhá-la.

"Hum... não muito." Lee-yeon evitou o olhar dele.

Kwon Chae-woo bufou. "Eu sabia."

"Você sabe que está falando de você mesmo?", disse Lee-yeon lentamente.


"Você tem um forte senso de responsabilidade, e isso às vezes se torna um problema para você", disse ele. "Você não parece saber quando assumir a responsabilidade e quando traçar seus limites para manter as pessoas afastadas. Por que você está vivendo assim?"

Lee-yeon abaixou lentamente a colher, sentindo as palavras dele cutucando sua consciência.

"Chega de sacrifícios", disse Kwon Chae-woo tristemente. "Se você deixar entrar um homem com um cérebro vazio e um passado problemático, você deve tirar total proveito dele."

Kwon Chae-woo sorriu para ela. Seus olhos pareciam tão tristes e inocentes. Lee-yeon esqueceu o que ia dizer e ficou olhando para ele.

"Sinto muito por qualquer coisa que eu possa ter feito no passado", disse ele. "Eu não tenho nenhuma lembrança disso. Você é a única pessoa no mundo que me torna humano. Eu nem consigo acordar sem você ao meu lado."

Lee-yeon mordeu os lábios. "Mas as pessoas não mudam tão facilmente", disse ela.

"Eu entendo que você não pode confiar em mim completamente. Mas eu não tenho nenhuma lembrança", disse ele. "Com quem você está me comparando? Você acha que eu não sou diferente de como eu era no passado?"

"Hum... eu não sei."

"Se você acabar não conseguindo apagar aquele lixo da sua memória, eu me livro do meu pau."

Lee-yeon pegou uma colherada de arroz e colocou na boca. Ela não sabia o que fazer. Ela estava aliviada por enquanto por não precisar falar com comida na boca. Ela não sabia se se sentia feliz com a obediência dele ou com sua fé inabalável nela.

"Eu posso ser quem você quiser, Lee-yeon", disse ele gentilmente.

Vendo Kwon Chae-woo se esforçando tanto para convencê-la, Lee-yeon conteve o sorriso.

* * *

"Eu acho que não fomos devidamente apresentados antes." Uma criança apareceu na frente de Kwon Chae-woo, que estava no chão fazendo suas flexões.

Kwon Chae-woo parou e se levantou. O menino era tão pequeno que só alcançava a cintura de Kwon Chae-woo.

"Quem é esse garotinho?"

"Eu sou Lee Gyu-baek. Aluno da primeira série da Escola Primária Willow Tree." A criança esticou o pescoço para olhar para Kwon Chae-woo. Gyu-baek admirava o abdômen do homem.

Naquele instante, Gyu-baek viu Lee-yeon pela janela. Ele olhou para Kwon Chae-woo e depois para Lee-yeon do lado de fora da janela. Ele bateu palmas com suas pequenas mãos. "Eu consigo sentir o cheiro!", disse ele.

"O quê?"

A criança sentou-se no chão e tirou um livro da bolsa. Ele folheou as páginas apressadamente. Kwon Chae-woo cruzou os braços e olhou para a criança.

"Lêmures de cauda anelada machos secretam aromas florais para atrair as fêmeas. Eles flertam e tentam conquistar seus corações pelo cheiro", disse ele depois de um tempo. "É assim que o macho cheira, agora." Seus olhos brilhavam com confiança.

*Lêmures – um tipo de animal selvagem

Kwon Chae-woo coçou a ponta da sobrancelha com o dedo indicador. "Eu não sei quem você é, criança", disse ele, "mas isso é só suor que você está cheirando."

"O macho deve ser mais jovem que a diretora."

"Não, ela disse que temos quase a mesma idade."

"Não pode ser. Você está em apuros. Então você vai cheirar mal."

"O quê?"

"É uma desvantagem. Lêmures mais jovens emitem substâncias de feromônio mais fortes e por mais tempo que os mais velhos. As fêmeas mais velhas não gostam do cheiro."

Kwon Chae-woo olhou para a criança, sem palavras. "O macho está em apuros agora", disse a criança.

Ele sorriu para o garoto e limpou o suor escorrendo da ponta do queixo com as costas da mão. Ele só queria rir, mas se conteve.


"Nossa diretora é muito popular", disse a criança.

"Quão popular?"

"Carpinteiro de serraria, revendedor de viveiro e um repórter do Ministério do Meio Ambiente aparecem de vez em quando. Todos eles cheiram como você." A criança olhou para ele. "O macho precisa se esforçar mais."

A criança se distraiu com a fila de formigas perto de seus pés. Kwon Chae-woo percebeu quem era essa criança. *Ele é o médico de insetos que Lee-yeon me falou? Algo sobre uma escola primária...*

Kwon Chae-woo sentou-se sobre os calcanhares e estendeu a mão para a criança para cumprimentá-la. "Sim, lêmure macho", disse a criança. "De agora em diante, você será meu assistente."

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