
Capítulo 1
Flores São Iscas
“Está com prisão de ventre.”
“O quê?” O diretor abriu a boca, horrorizado. Seu rosto mostrava uma mistura de descrença e choque.
“O que você acabou de…”
“Não está defecando bem.”
O diretor pareceu ainda mais surpreso, se é que isso era possível. *Como isso é sequer possível?* Ele queria dizer isso em voz alta para essa jovem, mas seu rosto ficou vermelho enquanto ela observava as crianças do ensino fundamental vagando e correndo por aí com suas mochilas.
Lee-yeon acariciou suavemente o tronco da árvore. Ela não gostava nem um pouco dele. Ela já tinha tido muitas reações como essa antes.
“A defecação é importante. É uma coisa completamente natural e regular. O senhor sabe disso, é claro.”
O diretor tossiu como se estivesse irritado. Mas ele sorriu de canto enquanto cobria a boca, *Como esperado, ela é estúpida e louca.*
Custaria dezenas de milhares de dólares para consertar algumas árvores. Ele preferiria cortá-las a gastar tanto dinheiro nelas. Ele contatou um negócio decadente administrado por essa jovem em vez do grande hospital na cidade, por precaução.
Depois de ferir novamente a árvore tratada, ele iria culpar essa médica de árvores absurda. Pelo menos, esse era o plano dele.
“Esta árvore é uma das principais árvores da nossa escola. É o símbolo de verdor. A senhorita será capaz de consertá-la para nós?” O diretor franziu as sobrancelhas e perguntou sinceramente.
Seu plano era simples. Ele queria acusá-la e receber um reembolso pelos danos causados. Então ele cortaria a árvore de qualquer maneira. Pelo menos isso beneficiaria sua escola dessa forma.
“Considere feito”, veio a resposta honesta. “O processo de tratamento não é muito difícil. Simplificando, não conseguia defecar adequadamente depois de comer, então desenvolveu prisão de ventre. Não conseguia fincar suas raízes corretamente.” Lee-yeon olhou ao redor do campo da escola e franziu a testa. “Se as árvores não defecam bem, começam a morrer de cima para baixo. A maioria delas parece já estar nesse processo aqui.”
“Então, como será o processo de tratamento?” perguntou o diretor, relutantemente. Ele olhou para Lee-yeon da cabeça aos pés. Calças esfarrapadas, terra nas unhas e um forte cheiro de fertilizantes. Ele sentiu que ela era suja. Seu rosto claro estava manchado de terra e seu cabelo, amarrado na nuca, parecia algas marinhas caídas. *Imunda. Essa mulher não tem apelo nenhum. Tenho outra árvore morrendo bem na minha frente.* Além disso, seus olhos suaves e brilhantes pareciam opacos e secos ao encarar as pessoas. Ela parecia pálida e magra.
“Diretor.”
“Sim, sim.” O diretor respondeu educadamente demais como se tivesse sido pego.
“Todo o solo aqui precisa ser substituído por solo Masato [1].”
“Todo?”
“Sim. Essa é a causa disso. As árvores não conseguem defecar bem por causa do solo. A propósito…” Seu olhar se intensificou. “O senhor economizou seu dinheiro, não foi?”
Lee-yeon caminhou ao redor do diretor com um rosto duvidoso. “O senhor enterrou alguma coisa ali?”
“O quê?”
“Ouvi dizer que a escola foi recentemente remodelada.” “Azulejos?”
Os ombros do diretor se encolheram.
“Restos de cimento?”
“Sacos plásticos de cimento também são possíveis…”
“Ou tudo junto…”
O diretor enxugou o suor da testa e evitou o olhar dela. *'Como ela sabe disso?'* Para economizar o custo do descarte de resíduos, o lixo foi enterrado no solo. Ninguém sabia disso, mas a médica de árvores maltrapilha sabia de tudo.
“Quando esses materiais encontram água, eles se tornam duros como uma pedra. Eles contaminam o solo. As raízes não conseguem crescer e apodrecem. Assim que cavarmos o chão, encontraremos tudo de qualquer maneira. Enviarei a planilha de estimativa ainda hoje.” Lee-yeon sorriu inocentemente, enxugando o suor com o lenço estampado com flores que estava amarrado em volta do pescoço. Mas seu sorriso não alcançou seus olhos frios e afiados. “É claro, terei que relatar isso à prefeitura primeiro.”
O diretor se aproximou dela apressadamente com uma expressão carrancuda no rosto. “D-doutora, por favor, me escute…”
“O senhor estava feliz por ter economizado seu dinheiro, não estava?” Ela olhou para ele. “Agora, pague de volta o dobro ou o triplo do valor da multa. Como eu disse, defecar é muito importante tanto para plantas quanto para humanos.”
Lee-yeon se virou satisfeita. Ela suspirou. Ela sabia que sua única funcionária de volta ao hospital a importunaria por deixar essa oportunidade passar. Ela se virou para o diretor novamente. Ela odiava fazer política, mas a promoção e a atualização de seu hospital também eram importantes. Era a coisa mais importante agora.
“Eu sou uma médica que ama suas árvores”, disse ela, “Eu sou a melhor em salvar as árvores, mas também sou boa em eliminar coisas… prejudiciais.” *'Especialmente pessoas como o senhor'*, disse ela interiormente. Dezenas de árvores foram danificadas pela ganância estúpida e egoísta desse humano e, no entanto, ele fala sobre como a árvore é o símbolo desta escola. Essas eram o tipo de pessoas que destruíam florestas para usar as folhas como cinzeiros.
“Por favor, visite nosso Hospital da Árvore Spruce com mais frequência.” Ela se forçou a sorrir docemente.
Lee-yeon é uma médica de árvores que administra um pequeno hospital de árvores em uma ilha localizada em Hwaido, Geunil-myeon, cidade de Hwayang, perto de Tongyeong a oeste e Namhae ao sul. Embora pareça uma ilha subdesenvolvida, é surpreendentemente a segunda maior ilha da Coreia. É um destino turístico muito bonito e pitoresco, conhecido por seu mar, plantas e rochas.
*'O velho olhou para mim de forma muito estranha'...* O trabalho de Lee-yeon era assim. Ela tinha que carregar ferramentas como escadas, facas, serras, tesouras e assim por diante. Ela tinha que escalar árvores e inspecioná-las como parte de seu trabalho. Então, as pessoas olhavam para Lee-yeon como se ela fosse um animal selvagem.
Havia tantos clientes que chamavam uma médica 'mulher' porque cobravam menos, caso contrário, estariam fora do mercado. Os clientes se aproveitavam desse fato. Lee-yeon já tinha mais de trinta anos. Ela já estava acostumada com esse tipo de tratamento.
Ela estava dirigindo sua scooter ao longo da estrada com vista para o mar esmeralda quando seu telefone tocou. Ela conectou os fones de ouvido e atendeu a ligação. “Alô?”
“Ei, diretora”, disse uma voz do outro lado, “Se você não vier em cinco minutos, eu vou desbloquear o 2º andar.”
[1] - Tipo de solo vulcânico japonês, conhecido por sua excelente drenagem e capacidade de retenção de nutrientes, ideal para o cultivo de diversas plantas.