
Capítulo 16
Flores São Iscas
Lee-yeon cambaleou para trás, surpresa, afastando-se da porta. Cobriu a boca e tentou não gritar.
“Aonde você vai? Chegue mais perto.”
Quando olhou para baixo, a sombra dos pés dele apareceu novamente pela fresta embaixo da porta. Talvez Kwon Chae-woo também estivesse observando a sombra dela enquanto se afastava.
Então o que foi aquele rangido que ouvi antes…? Lee-yeon tentou acalmar seu coração acelerado.
“Chegue mais perto da porta. Eu não consigo sentir seu cheiro.”
“C-cheiro?!”
“Você não sabia? Você cheira a grama molhada.”
Bam!
A porta tremeu. Lee-yeon deu um passo para trás. A lâmpada piscou com a força do impacto. Suas palmas estavam úmidas de suor.
“Eu nem sei quem eu sou sem você.” Kwon Chae-woo falou baixinho, com a testa encostada na porta. “Embora minhas pernas e braços estejam ligados ao meu corpo, eu não consigo realmente sentir se estou vivo ou não.”
Ela ouviu algo arranhando a porta e percebeu, horrorizada, que eram as unhas dele raspando na madeira. O quarto parecia uma armadilha. O homem estava constantemente tentando aterrorizá-la e enganá-la. Ela estava com medo.
“Então, diga que eu não estou sonhando…”
Ele bateu a testa na porta mais uma vez.
“Me conte sobre o meu passado. Qualquer coisa serve. Apenas me convença de que eu existi.”
Bam!
A respiração dele estava ofegante. Lee-yeon teve o pensamento momentâneo de que ele poderia facilmente arrombar a porta velha. Ela estava petrificada. Mas ele não a arrombou. Ele apenas raspou a porta e bateu nela de novo. Suor frio escorria pela sua espinha.
Gentil, amável, educado…
Ela tinha dito aquelas bobagens para Kwon Chae-woo para se salvar. A prova estava bem ali na frente dela. Ele estava longe de ser qualquer coisa parecida. Lee-yeon estava apenas grata por ter funcionado. Sua mentira tinha funcionado.
“Kwon Chae-woo.”
A maçaneta de metal tremeu novamente ao ouvir a voz dela. Ela juntou as mãos e respirou fundo.
“Eu não estou vestindo nada porque estava tomando banho”, disse ela. Ela se perguntou se ele acreditaria nela. “Meus olhos estão ardendo por causa do xampu. Podemos conversar outra hora? Essa não é uma boa hora…”
Houve um silêncio completo por um momento. Ao contrário do sacudir selvagem e violento da porta, ele tinha parado tudo naquele momento. Ele mudou num piscar de olhos.
“Okay.” Ela podia ouvir sua voz grave e baixa. “Boa noite.”
Era algo que ela tinha desejado tanto ouvir, mas ela não se sentia convencida. Lee-yeon esfregou as mãos frias, ainda tensa.
“Lembre-se de manter a porta trancada.”
As palavras dele eram o oposto exato de como ele estava agindo um momento antes. Lee-yeon coçou o antebraço reflexivamente, inquieta.
Creak.
Finalmente, Kwon Chae-woo estava indo embora! Enquanto observava a sombra se afastar de debaixo da porta, ela tentou relaxar os ombros tensos.
“Estou te dizendo por via das dúvidas, mas, por favor, não suba para o segundo andar.”
“O quê? Por que?”
“Estou pensando em depilar as partes baixas depois de um longo tempo.”
Lee-yeon piscou confusa. Ela podia perceber de alguma forma que ele estava sorrindo.
“Então, Lee-yeon, até mais.”
Ele falou como alguém que sabia que não veria Lee-yeon por um tempo. Lee-yeon não conseguiu dormir direito. Pelo contrário, Kwon Chae-woo não conseguiu acordar por mais de uma semana depois daquela noite.
* * *
Lee-yeon teve um sonho horrível. Ela acordou encharcada de suor. Seus olhos estavam fora de foco e privados de sono. Ela só se lembrou de que dia era quando se sentiu totalmente acordada.
Ah, é ‘aquele’ dia…
Ela sentiu toda a sua energia escorrer do seu corpo antes mesmo que o dia começasse.
“Diretora So!” Quando checou seu relógio, já tinha passado da hora em que ela geralmente trabalhava. Quando saiu da cama apressada, sua visão ficou turva.
“Você está com febre?” Choo-ja perguntou. Ela tinha acabado de entrar no quarto e ajudou Lee-yeon a se levantar. Ela tocou a testa dela para verificar a temperatura, com preocupação estampada na testa.
“Por que todos os dias são tão agitados para você?” disse Choo-ja. “Descanse hoje. Nem tem muito trabalho para fazer.”
Lee-yeon franziu a testa e afastou as mãos de Choo-ja, levantando-se. Ela fechou as mãos para ajudar com o formigamento. “É justamente quando eu tenho mais trabalho para fazer”, disse Lee-yeon.
“Eu te disse para não fazer isso! Por que você é tão teimosa? Tire o dia de folga!” disse Choo-ja severamente, com as mãos na cintura. “Você deveria apenas olhar para suas plantas no segundo andar hoje!”
Lee-yeon virou-se para o banheiro. Ela parou ao ver seu reflexo no espelho e abriu a torneira. A mulher no espelho parecia esguia. A criança com os cabelos emaranhados já tinha ido embora há muito tempo. Era como se ela nunca tivesse existido.
Eu nasci errada.
A garota no sonho escreveu isso repetidamente com suas pequenas mãos. Eu nasci errada. Eu nasci errada.
Ela teve que escrever isso sem parar. A pilha de papéis A4 excedia em muito a altura da jovem Lee-yeon. Era a carta de auto-reflexão que Lee-yeon tinha que escrever sempre que tinha tempo livre até sair de casa aos 17 anos.
“Mas, Diretora So, tem algo que eu esqueci de perguntar”, disse Choo-ja. “Nosso genro planta tem estado dormindo o tempo todo… como é que ele faz para urinar?”