
Capítulo 808
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Elizabeth olhou para ele por um momento antes de balançar a cabeça.
"Os ciclos terminaram há muito tempo. Você também deveria saber disso," ela disse.
Neo permaneceu em silêncio.
Ela tinha razão.
Os ciclos haviam começado logo após o fim da Primeira Guerra Divina. Ou talvez perto do seu final. O tempo sempre ficava confuso naquela época.
O Cosmo tinha sido reiniciado várias vezes. Centenas de anos, repetindo-se. Então, um dia, simplesmente parou.
Sem aviso.
Sem explicação.
Por que tinha acabado?
O que aconteceu naquela época?
Neo queria saber. Ao mesmo tempo, não queria.
Agora, sua vida era... pacífica. Tão pacífica quanto podia ser, considerando tudo.
Se fosse possível, ele evitava descobrir verdades que só lhe deixariam arrependimento ou tristeza.
"OK," finalmente falou Elizabeth. "Você deveria ir embora agora. As cidades e mercados próximos ficam longe. Se quiser voltar até a noite, precisará partir logo."
Neo assentiu.
Ele colocou o token de madeira na roupa e saiu da residência.
Os guardas próximos, ao vê-lo, ficaram rígidos e imediatamente o cumprimentaram com uma saudação.
Outros membros da seita também perceberam sua presença. Um a um, fizeram reverências.
Neo sorriu de lado.
Ele não disse nada a eles.
Não tinha certeza do que deveria dizer, e não queria chamar mais atenção do que já tinha.
Continuou andando, observando a área até finalmente avistar Vivi perto da extremidade oeste da seita.
Ela estava sentada em uma pequena barraca de comida, bebendo algo de uma xícara.
No momento em que viu Neo, ela cospe tudo o que acabara de beber.
"Cough—!"
Ela apressadamente limpou a boca, esfregou os olhos e olhou para Neo como se ele fosse uma ilusão.
"Pai–pai? Como você está fora de casa?"
Os lábios de Neo se contorceram.
Ele podia adivinhar exatamente o que Vivi tinha planejado e por que ela parecia tão chocada.
Certamente, ela devia estar convencida de que ele já tinha acabado preso em algum lugar.
Infelizmente para ela, Neo tinha milhares de anos de experiência lidando com bruxas necessitadas.
Ele não respondeu diretamente.
Em vez disso, olhou para a área aberta fora da barraca e fez um gesto com os olhos.
"Venha cá fora," disse simplesmente, antes de virar-se e andar para longe.
Vivi se apressou para se arrumar, pagou pela comida e correu atrás dele.
"Pai!" ela exclamou ao alcançá-lo. "Como você está? Tudo bem com— ui!"
Ela gritou ao Neo lhe bater na testa com o dedo.
Ela se segurou na cabeça e o encarou com os olhos marejando de lágrimas.
"Por que você me bateu?" reclamou.
"Você sabe exatamente por quê," respondeu Neo calmamente.
Vivi resmungou baixinho, mas não discutiu mais.
Após uma breve pausa, Neo explicou seu plano.
"Quero dar uma volta numa cidade ou mercado próximo, pegar um ar."
"Do nada?" Vivi questionou, levantando uma sobrancelha.
"Sim," confirmou Neo.
"Isso não é típico de você. Você já ficou anos no mesmo lugar sem enjoar."
Neo deu de ombros.
"As pessoas mudam."
Vivi o olhou por um segundo, depois suspirou.
"Tudo bem. Vou providenciar as coisas. Primeiro, preciso pegar a lista de materiais na hall de administração. Se vamos ao mercado, é melhor comprar o que a seita precisa."
"Combinado," Neo concordou, assentindo.
Vivi saiu apressada em direção à hall de administração.
Neo ficou esperando, encostado numa coluna próxima. Como havia prometido, ela voltou em menos de meia hora.
Mas ela não estava sozinha.
Ela segurava a mão de uma criança pequena.
Neo piscou e olhou entre eles.
"Quem é…?" ele perguntou.
"Esta é Qiuyue. É filha de uma amiga minha. A mãe dela está numa missão longa, então estou cuidando dela por enquanto."
Neo olhou para a criança. Qiuyue parecia ter uns três anos. Ela o encarava com curiosidade, apertando forte a mão de Vivi.
Neo franziu levemente o cenho.
"Não podia deixar ela com alguém? Levar pra rua assim vai dificultar ainda mais pra você."
Claro que Qiuyue não entendia nada daquilo.
Vivi rolou os olhos.
"Exatamente o que você diria," ela retrucou.
"E o que você quer dizer com isso?" Neo perguntou.
"Pra você, cuidar de crianças é só passar pra uma pessoa 'responsável'. Problema resolvido."
Neo tossiu e virou o rosto sem responder.
Ela não estava errada.
Era exatamente isso que ele sempre fazia.
Firmamentos. O Firmamento da Escuridão. Obitus. Vivi mesma.
Olhando para trás, percebeu que raramente ficara ao lado delas. Sempre confiava em alguém para criar, ensinar.
'Sou como Hades,' pensou.
A descoberta pesou mais do que esperava no seu humor.
Os três saíram da seita e entraram pelos caminhos da floresta que levavam para fora.
Passaram por várias barreiras e formações ocultas ao longo do percurso.
A jornada foi longa, e quando chegaram ao mercado, já tinham se passado quatro horas.
Até então, algo inesperado aconteceu.
Qiuyue já não segurava a mão de Vivi.
Em vez disso, agarrava-se a Neo.
Ela ria feliz enquanto ele a carregava, suas pequenas mãos segurando suas roupas. Vivi caminhava ao lado, com uma expressão cada vez mais carrancuda.
"Essa garotinha... Como ela se apegou tão rápido a você?"
Neo sorriu de lado, zombando.
A expressão dele claramente dizia: Você disse que era melhor para cuidar de crianças? Parece que ela prefere eu.
Vivi resmungou baixinho.
"Pai," ela disse, entregando-lhe uma bolsinha e uma lista. "Pega esse dinheiro e compra esses materiais."
Ela se abaixou, pegou Qiuyue nos braços de Neo e virou-se para longe.
"Vou levá-la para passear. Não se afaste muito."
Com isso, ela foi embora, visivelmente irritada.
Neo a observou sumir na multidão, depois soltou uma risadinha suave.
Porém, à medida que Vivi desaparecia, o sorriso dele lentamente desapareceu também.
Ele conseguiu ver claramente agora. Vivi tinha mudado.
Ela não era mais a criança que ele lembrava. Estava mais esperta, mais cautelosa e mais independente. Alguém que cresceu sem a presença dele.
O pensamento trouxe um desconfortável aperto no peito.
Ele tinha reído de sua acusação de ser um pai irresponsável, mas a verdade é que doía, pois era verdade.