Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 804

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

"Sim," disse Elizabeth. "Por isso, as Supremes ainda podem agir, mesmo que de forma limitada."

"E quanto às Singularidades?" perguntou Neo.

"Isso depende," ela respondeu. "Singularidades existem porque uma pessoa não está vinculada a uma Lei Cósmica. As Leis Cósmicas variam entre os Céus, então uma Singularidade pode funcionar ou não."

Neo assentiu lentamente.

"Então muitos Demônios ficam sem poderes aqui."

"Exatamente."

Havia muito mais.

Quando Elizabeth terminou de explicar, Neo percebeu que as mudanças eram mais profundas do que imaginava.

Mais tarde, quando perguntou o que ela estava fazendo no momento, Elizabeth deu uma resposta simples.

"Criei uma seita em um local escondido. Trouxe comigo as famílias da vila que você morreu protegendo. Eles também estão na seita."

Os passos de Neo vacilaram por um instante.

"Sai da minha antiga seita porque eles se recusaram a dar refúgio àquelas pessoas," continuou Elizabeth. "Essa decisão me salvou a vida. Apollyon veio atrás de mim lá pouco tempo depois."

A expressão de Neo escureceu.

"Depois, conheci Paul, que me contou o que estava acontecendo," disse Elizabeth.

"Paul?" Neo inclinou a cabeça.

"Sim," ela respondeu. "Ele é—era um cúmplice do Ultris e da Julie. Mora na mansão do Apollyon como um espião."

Neo ficou paralisado por um instante.

As palavras de Julie ecoaram em sua cabeça.

Não lute contra nossos integrantes nas Terras do Verdadeiro Bem.

'Será que foi por eu odiar o grupo deles?'

'Ou havia outro motivo?'

Algo naquele Paul parecia errado. Ele sentia como se já tivesse encontrado aquela pessoa antes.

Antes que pudesse perguntar mais, Elizabeth parou.

"Chegamos," ela disse.

Eles apareceram em frente ao portão de uma seita.

Ele estava escondido entre formações sobrepostas, a entrada se integrando naturalmente ao terreno ao redor. O portão era simples, mas resistente, entalhado com símbolos antigos que exalavam uma presença discreta e sutil.

Neo examinou o entorno com atenção.

"Vivi está aqui," ele falou.

"Sim," respondeu Elizabeth. "Ela também mora aqui. E, aliás, ainda não me contou quem ela é—"

"Papai!"

Uma mancha azul acertou Neo com força.

Ele foi escorregando para trás, quase sem ar, como se uma martelada tivesse sido dada em seu peito.

"Papai! Você finalmente chegou!"

Vivi o abraçou com força, seu sorriso era radiante e sincero.

Neo tossiu, lutando para manter-se ereto.

Mas enquanto ela o abraçava, a temperatura ao redor começou a cair.

Ele percebeu imediatamente.

De canto de olho, viu Elizabeth.

A expressão dela estava vazia.

Um calafrio percorreu sua espinha.

"Cough—Eliza—"

"Papai, cadê a mamãe?" Vivi perguntou animada. "Ela veio com você, né?"

Ela apertou o abraço, a voz cheia de expectativa.

Parecia uma filha recebendo o pai após uma longa viagem.

Mas sua força era esmagadora.

Neo não conseguia respirar.

Nem mesmo falar.

'Esse—essa garotinha. Está fazendo isso de propósito.'

Neo percebeu um segundo tarde demais.

Os braços de Vivi estavam presos a ele, muito mais apertados do que o necessário, o rosto colado ao seu peito, a voz alta e clara enquanto fazia perguntas que ele já sabia as respostas.

Ela não lhe dava nem um suspiro para se explicar.

E, pior.

Ela fazia isso na presença de Elizabeth.

Neo sentia.

A temperatura ao redor deles caía lentamente, de forma constante, como a calmaria antes de algo muito desagradável. Nem precisou olhar para saber que a expressão de Elizabeth tinha congelado.

Seu antigo eu, aquele que evitava o tema repetidas vezes, amaldiçoava-se mentalmente.

Quando Vivi finalmente relaxou e deixou Neo respirar direito, já era tarde.

Elizabeth havia desaparecido.

Neo tragou um ar agudo e virou a cabeça rapidamente, escaneando o ambiente.

Nada.

Sem presença.

Sem rastro.

Ela tinha desaparecido completamente.

"…Droga," murmurou.

"Por que você fez isso?" Neo perguntou irritado, virando-se para Vivi e segurando suas bochechas com as mãos.

Ele as esticou sem misericórdia.

"Daaaaad," Vivi protestou, com a fala meio embolada. "Dói. Não faz isso."

Os lábios de Neo contorceram ao ver sua reação completamente sem vergonha.

Ela não parecia culpada nem um pouco.

"Por que você falou aquelas coisas na frente da Elizabeth?" ele perguntou, puxando as bochechas dela.

"O que que eu quis meaaaannn?" Vivi respondeu, a voz alongando junto com o rosto dela.

Neo a olhou por alguns segundos.

Queria repreendê-la.

De verdade, queria.

Mas, no final, soltou e suspirou, passando a mão cansada pelo rosto.

"Esquece," disse. "Só… esquece."

Embora estivesse irritado, forçou-se a se acalmar.

Se fosse para ter razão, Vivi tinha mais motivo para estarbrava com ele do que o contrário. Ele e Leonora a tinham mandado embora sem despedidas sinceras, sem explicações adequadas.

Mas, mesmo assim, ela estava lá, sorrindo brilhante, agitando-se como se nada tivesse acontecido.

Isso, por si só, dificultava manter a raiva.

"Leonora está no meu Céu Particular," Neo falou após um instante. "Quer que eu a apresente?"

Os olhos de Vivi brilharam imediatamente.

"Sim!"

"Então—"

"Mas depois!" ela cortou rápido. "Quero passar o tempo com você primeiro!"

Antes que pudesse responder, ela segurou sua mão e começou a puxar.

"Vamos, papai! Vou te mostrar tudo!"

Neo cambaleou um pouco enquanto ela o arrastava, com firmeza na pegada e passos leves.

Eles seguiram juntos pela seita.

Vivi apresentou-o às pessoas, uma a uma, às vezes corretamente, às vezes nem tanto. Alguns eram antigos vilarejos que ele reconhecia vagueando, outros eram discípulos que Elizabeth tinha reunido ao longo do tempo.

Todos tratavam Vivi com uma mistura estranha de respeito e familiaridade.

Alguns fizeram reverências.

Outros sorriram sem jeito.

Alguns olhavam para Neo com curiosidade quando perceberam quem ele era.

À medida que o dia passava, Neo se sentiu mais relaxado.

Apesar da tensão residual de antes, da desaparecimento de Elizabeth, o clima da seita era… acolhedor.

Em determinado momento, ele percebeu que também estava sorrindo.

Depois, vou esclarecer tudo com Elizabeth. Não preciso me apressar.

Ou assim achava.

Antes que percebesse, a noite caiu.

Vivi finalmente foi embora, dizendo que tinha alguns afazeres. Ela acenou alegremente antes de desaparecer por uma das passagens internas.

Deixado sozinho, Neo perguntou pelas coordenadas da residência de Elizabeth.

Quando recebeu as indicações, foi direto lá.

Mas nem chegou na porta.

Dois guardas avançaram e bloquearam o caminho.

"O Mestre da Seita ordenou que ninguém a incomode," disse um deles respeitosamente.

"Tenho um compromisso oficial com ela," respondeu Neo.

O guarda balançou a cabeça.

"Especificamente, ela nos mandou impedir que você a incomodasse."

Os lábios de Neo se contraíram.

"…Entendi."

Ele olhou para a porta por alguns segundos antes de se virar.

Certo.

Ele podia esperar.

Retornou às acomodações que Vivi tinha providenciado e descansou à noite.

No dia seguinte, tentou novamente.

E foi mais uma vez recusado.

No dia seguinte, aconteceu a mesma coisa.

Depois, outra vez.

E mais uma.

Passaram dias.

Seb revis semanas.

Por um mês inteiro, Neo não conseguiu ver Elizabeth nem uma única vez.

No começo, tentou ser paciente.

Treinou, ajudou na seita quando foi preciso, e esperou.

Mas um mês foi seu limite.

Fez tudo de forma razoável.

Esperou.

Pediu educadamente.

E ela recusou todas as vezes.

Então, Neo decidiu agir por conta própria.

Você não vai me deixar te encontrar? pensou. Então, vem até mim você mesmo.

Sentou-se bem na frente da residência de Elizabeth.

Os guardas franziram a testa ao vê-lo.

Antes que pudessem falar, Neo respirou fundo e gritou.

"Como você pode fazer isso comigo, Mestre da Seita?" ele berrou alto. "Você tirou minha inocência, e agora nem quer me encontrar?"

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