Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 790

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

"Um urso, é?"

Neo murmurou as palavras baixinho.

Ele soltou um pequeno suspiro e assentiu consigo mesmo.

"Tudo bem, obrigado pela ajuda," disse.

O menino respondeu com um aceno de cabeça.

Ele não pediu nada em troca por ter salvado Neo, e Neo saiu da cabana.

Fora, a vila parecia igual à cabana.

O lugar estava deteriorado.

A maioria das casas eram cabanas de barro com telhados finos e paredes rachadas.

Neo seguiu em frente e percebeu várias pessoas olhando para ele.

Algumas o encaravam diretamente.

Outras espiavam de dentro de suas casas.

Ele ouvia os sussurros mesmo de longe.

"Será que ele é um cultivador?"

"A área de onde ele foi resgatado foi completamente devastada. Se ele sobreviveu a uma batalha assim, deve ser um."

"E se for um artista marcial?"

"Silêncio! Não diga algo tão assustador."

Eles falavam como se achassem que Neo não podia ouvi-los.

Ninguém tentou detê-lo ou se aproximar.

Somente lançavam olhares furtivos enquanto ele passava.

Neo continuou caminhando em direção à saída da vila.

Quando chegou perto das últimas casas, a menininha apareceu novamente.

Ela correu até ele e parou bem na sua frente.

"Você vai embora, tio?" ela perguntou.

Neo revirou os olhos.

Ser chamado de tio feriu um pouco seu orgulho.

Sua aparência atual era jovem, ao menos na sua opinião.

Apesar disso, conteve a queixa.

"Sim," ele respondeu com tom calmo.

"O quê?! Você devia ficar!" ela exclamou. "A gente ajudou você! Então, você devia nos ajudar—"


Foi nesse momento que tudo aconteceu.

Neo piscou.

Seus olhos abriram e fecharam num ritmo natural.

Porém, o mundo mudou nesse único piscar.

A mudança foi tão repentina que ele congelou.

O céu não era mais azul.

Ele virou vermelho e rasgado, como se garras gigantes tivessem rasgado o céu.

Um cheiro forte o atingiu.

Carne podre. Sangue.

O aroma era denso e pesado.

Gritos e lamúrias ecoavam pelo ar.

Pareciam fantasmas chorando de agonia.

O corpo de Neo ficou rígido.

A confusão tomou conta dele.

A vila ao redor dele já não parecia pobre.

Parecia abandonada.

Totalmente morta.

As cabanas estavam destruídas e sombrias.

A grama crescia pelos pisos.

Parecia que ninguém morava ali há séculos.

Mas essa não era a parte mais assustadora.

Cada pessoa que ele tinha visto antes…

Agora eram apenas cascas meio apodrecidas.

Pedaços de carne pendiam de seus ossos.

Sangue escorria de seus corpos como uma corrente contínua.

Bichos rastejavam por suas peles.

Insetos os devorando vivos.

Até a menininha à sua frente havia mudado.

Ela vestia um vestido vermelho profundo.

Metade do rosto derreteu.

Coração de Neo disparou.

Ele conseguiu ver os buracos vazios onde antes tinha um olho.

Apesar de serem cadáveres evidentes, todos se movimentavam.

Seus membros arrastavam-se desajeitadamente.

Suas cabeças se contorciam.

De repente, todos pararam.

Cada cadáver virou-se para ele.

Um silêncio profundo tomou conta do ar.

Então, suas bocas se abriram bem wide.

"O Caminho está corrompido!"

Suas vozes saíram ásperas e fragmentadas.

"O Caminho está corrompido!"

Mais cadáveres se juntaram.

"O Caminho está corrompido!"

Alguns falaram suavemente.

Outros gritaram ao máximo de suas forças.

Alguns choraram enquanto repetiam a mesma frase.

Uma terrível medo tomou conta de Neo.

Ele não entendia por que esse medo era tão forte.

Mas as palavras sacudiam-no até o âmago.

Sua pele formigava.

Arrepios subiam por seus braços.

"O Caminho está corrompido!"

As palavras ressoaram novamente na sua cabeça.

Neo respirou fundo, lentamente.

Seu fôlego tropeçou.

Ele recuou um passo e perdeu o equilíbrio.

Caiu no chão, com as mãos arranhando a terra.

Depois, congelou.

Olhou para si mesmo.

A respiração ficou presa na garganta.

Ele também era um cadáver.

Seus braços estavam apodrecidos.

A pele se descascava como casca de árvore seca.

A perna direita havia sumido.

O ferimento parecia que uma fera tinha arrancado fora.

A boca dele se moveu sozinha.

"O Caminho está corrompido!"

Neo tentou fechar a boca.

Fez força para lutar contra isso.

Mas as palavras continuaram saindo.

"O Caminho está corrompido!"

"O Caminho está corrompido!"

A voz dele se misturava às vozes dos moradores.

O medo apertou seu coração com mais força.

Ele tentou se afastar do chão.

Mas seu sangue ao redor se espalhava.

O líquido vermelho ficava mais profundo e começava a engolir tudo ao redor.

Ele foi puxado para baixo.

Sentia como se estivesse se afogando naquilo.

Os moradores se cerraram ao redor. Cercaram-no.

A menina avançou, com o rosto podre, sem expressão.

"O Caminho está corrompido!"

"O Caminho está corrompido!"

"O Caminho está corrompido!"

"O Caminho está corrompido!"

O canto ficou mais alto.

Ele pressionava aos ouvidos de Neo.

Engoliu cada pensamento.

Sentia seu corpo afundar mais fundo.

Mal conseguia respirar.

Então—

Tudo mudou novamente.

Neo piscou mais uma vez.

Dessa vez, o mundo voltou ao normal.

O céu voltou a estar claro e azul.

O ar frio tocou sua pele.

As cabanas pareciam pobres, mas não abandonadas.

Ele estava deitado no chão, na beira da vila.

A menininha ajoelhou ao seu lado, com expressão preocupada.

Os moradores permaneciam onde estavam anteriormente.

Pareciam confusos, mas preocupados.

"O que aconteceu, tio? Você caiu do nada," ela disse.

"Caiu do nada?" Neo repetiu.

"Sim," ela confirmou com a cabeça. "Você simplesmente desabou."

Neo esfregou a testa.

"Foi… não foi nada," disse.

Levantar-se lentamente.

Ele ajustou as roupas, removendo a poeira.

Depois virou-se na direção da floresta ao norte.

Os moradores não tentaram impedi-lo.

Simplesmente o assistiram caminhar para longe.

Neo entrou na floresta tentando acalmar seus pensamentos.

Seus passos eram firmes, mas sua mente, nada, nada tranquila.

Procura pelo urso.

Ao mesmo tempo, seu pensamento voltava ao que tinha visto.

"Parece que fui a única pessoa que viu aquilo."

"Mas o que foi aquilo?"

Ele tentou pensar de forma lógica.

"Uma alucinação?"

Isso não fazia sentido.

Sua força de vontade era forte demais.

Mesmo em um mundo com leis estranhas, não era possível simplesmente criar alucinações e ilusões.

Nenhuma ilusão comum conseguiria afetá-lo daquele jeito.

Mesmo que funcionasse, ele deveria conseguir perceber que era falso.

"Então, o que vi era real?" ele sussurrou.

Isso parecia ainda mais estranho.

Real?

Como algo assim poderia ser real?

"O que significava 'O Caminho está corrompido'?"

Até pensar na frase fez com que ele tremaasse.

Um calafrio profundo, frio, que ia da espinha ao peito.

Parecia que alguém tinha lhe contado uma verdade que nunca deveria ouvir.

Uma verdade que quebrou algo fundamental.

Neo balançou a cabeça.

"Este lugar é estranho demais," disse.

Ele passou por cima de uma raiz de árvore.

A floresta ao redor estava silenciosa, exceto pelo canto dos pássaros.

Mas ele não conseguia relaxar.

"A alucinação já é estranha", continuou. "Mas o menino falar que há vários cultivadores aqui é ainda mais bizarro."

Neo abaixou a mão ao chão, verificando se havia vestígios do urso.

Continuou andando.

Seus sentidos se abriam em busca de perigo.

Ele forçou a si mesmo a focar.

"Este é o Mundo Elemental da esperança. Chamado de Terras Bênçãs Verdadeiras," disse baixinho.

Pensou no Ser Celestial que criou esse Cosmos.

Se aquela pessoa existisse, certamente seria um Destruidor de Céus, assim como Neo.

Então, por que essa pessoa não fazia nada?

Neo, Apollyon, Hades, Daniel, Príncipe do Mal, Mãe das Horrors, Eternos…

Todos eles tinham causado destruição.

E ainda assim, ninguém tinha intervindo.

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