
Capítulo 789
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo respirou com dificuldade.
"Então... basta parar de queimar a Chama da Vida... antes que ela se esgote completamente."
Era um risco grande.
Mas não tinha outra alternativa.
O Registro Celestial deu início ao processo.
A Espada Rachada—a Chama da Vida de Neo—começou a tremer.
As rachaduras se ampliaram lentamente.
Neo estremeceu e caiu ao chão.
Queimar sua Chama da Vida e sua consciência não era coisa pequena.
Parecia que toda a sua mente pegava fogo.
A dor atravessou seu corpo como uma faca afiada, quase o levando a arrancar os próprios cabelos.
Ele suportou horas de dor até desmaiar.
Tudo se escureceu.
Nessa escuridão, sentiu mãos levantando-o.
Alguém o carregava.
Vozez suaves e difusas lhe alcançaram.
"É... cultivador...?"
"Socorro... aldeia..."
"Pode... haver perigo... não deve..."
Ele não conseguiu entender o restante.
Seu corpo doía demais.
A técnica o estava curando, mas o custo era brutal.
Queimar sua Chama da Vida e sua consciência para se curar era como comer sua própria carne para sobreviver.
Mesmo que alguém aceitasse essa ideia, a eficiência era extremamente baixa.
Neo flutuava entre o sono e a vigília enquanto alguém colocava um pano úmido na sua testa.
Tudo ao seu redor parecia um borrão de sons e escuridão.
O tempo passou sem forma definida.
Segundos, minutos, horas... ele não sabia.
Mas tinha a impressão de que alguém colocava uma roupa quente sobre sua testa.
Alguém lhe alimentava com sopa morna, com mãos devagar, cuidadosas.
Alguém permanecia ao seu lado.
Enquanto isso, o Registro Celestial continuava a curar suas feridas pouco a pouco.
Horas se passaram.
Ou talvez dias.
Até semanas.
Neo não tinha ideia.
Mas lentamente, sua força começou a retornar.
Finalmente, seus olhos se abriram.
Ele encarou um teto de barro.
Seu corpo ainda se sentia fraco.
Muito fraco.
Isso lhe lembrou quando tinha um corpo no nível de Demônio Despertado.
Ele respirou fundo, lentamente.
Até esse gesto fazia sua caixa torácica doer.
Olhou ao redor.
Estava deitado dentro de uma pequena cabana de barro.
Um cobertor fino e rasgado cobria seu corpo.
O ar frio tocava sua pele.
'Frio? Consigo sentir frio?'
Este mundo era muito estranho.
Neo não conseguia distinguir se havia enfraquecido muito... ou se o próprio mundo era simplesmente mais forte de alguma forma desconhecida.
Ele olhou para a cama debaixo dele.
Não era uma cama de verdade, apenas um monte de palha no chão.
Seu "travesseiro" era outro feixe de palha amarrado.
Ele se esforçou para se levantar.
Uma dor aguda atravessou seu peito.
"O que... é isso...?" tossiu, sangue escapando de seus lábios. "A cura... ainda não terminou?"
[É isso, Mestre.]
[Se continuar, sua Chama da Vida atingirá nível crítico e você morrerá.]
Antes que Neo pudesse responder, alguém abriu a porta.
Uma menina, talvez com oito anos, espiou de dentro.
Ela entrou, olhou ao redor e seus olhos cruzaram com os de Neo.
Ela parou de repente.
Por um momento, ficaram se encarando.
Neo fez um pequeno sinal com a cabeça.
"Olá. Você foi a que me ajudou—"
"Kyaaa! Tio! O estranho tio acordou!"
Neo piscou.
"Espere, eu não sou tio," ele chamou, mas sua voz estava fraca demais para ser alta.
A garota não ouviu.
Ela saiu correndo da cabana, gritando aquelas palavras para quem estivesse por perto.
Neo suspirou.
Alguns minutos depois, um garoto de cerca de quinze anos entrou.
A menina se escondeu atrás dele, olhando de lado.
O garoto parecia nervoso.
"Como você está agora?" ele perguntou.
"Estou muito melhor. Obrigado por cuidar de mim até agora. Meu nome é Neo Hargraves," disse Neo.
"Sou Dara," respondeu o garoto.
Ele ainda parecia desconfortável.
Seus olhos estudavam Neo com uma mistura de cautela e curiosidade.
A menina puxou a manga do irmão.
Depois perguntou: “Tio, você é cultivador? Qual Dao você segue?”
"Gina! É assim que você fala!?" repreendeu o garoto.
A face dela se contorceu.
Seus lábios tremeram.
Então ela começou a chorar.
"Waaah! Por que você está me castigando? Eu só estava perguntando! Waaah!"
"Espera—espera, para de chorar," disse Dara desesperado. Ele só a repreendia para garantir sua segurança. Cultivadores são conhecidos por serem excêntricos e podem atacar alguém se acharem que estão sendo desrespeitados.
Dara tentou acariciar a cabeça dela.
Isso só a fez chorar ainda mais.
Ele tentou enxugar suas lágrimas.
Ela gritou ainda mais alto.
Neo assistia a toda cena do chão de palha, sem saber se ria ou se suspirava.
Depois de vários minutos longos, Dara finalmente tirou a menina do choro da cabana e a mandou embora.
Ele voltou sozinho, ficou na frente de Neo.
Neo já percebia que o garoto queria algo dele.
Havia uma razão para ele ter salvado Neo, em vez de deixá-lo morrer.
Dara hesitou.
"Uh... você é cultivador?"
Neo piscou.
"O que é um cultivador?"
A expectativa do garoto desapareceu do rosto.
Seus ombros caíram.
O que quer que ele estivesse esperando, claramente tinha desmoronado.
Mesmo assim, tentou explicar.
"Cultivadores são pessoas que respiram o Qi do Céu e da Terra. Elas cultivam um Cosmos dentro de si mesmas. É o que ouvi. Mas isso é só conhecimento comum. Não sei muito mais."
Neo o observou.
Um Cosmos dentro de si mesmo??
Isso... era familiar.
Demais.
Cultivadores aqui criavam Cosmos dentro de si.
Quebradores do Céu também faziam isso.
E, ainda assim...
Da maneira como o garoto falava, parecia que isso era normal por aqui.
Neo perguntou com cuidado: "Quantos Céu—Cultivadores há aqui?"
"Huh? Eu... não sei. Só as pessoas da Seita Celestial saberiam," respondeu Dara.
Neo sentiu uma torção no estômago.
"Seita Celestial?" ele repetiu.
"É a grande seita. A que treina cultivadores. Você não conhece nem isso?" perguntou confuso.
Os dedos de Neo ficaram cerrados ao redor do feno sob ele.
Algo parecia errado.
Muito errado.
Este mundo tinha Leis que o esmagavam.
Uma técnica que queimava sua vida mal o mantinha vivo.
As pessoas aqui falavam de cultivo de Cosmos como se fosse algo normal.
Seu coração bateu devagar e pesado.
'O que é este lugar?'
Ele deixou a questão de lado e abaixou a cabeça.
"Obrigado por me ajudar," disse novamente.
"Ah— não precisa se preocupar," respondeu o garoto.
Ele não saiu logo depois.
Ficou esperando, em silêncio, observando Neo com uma expressão incerta.
Neo percebeu isso.
Ele perguntou: "Tem algo que você queira me dizer?"
O garoto hesitou por um momento.
Então falou.
"Você deve partir."
Neo assentiu.
Empurrou-se para cima.
Suas pernas tremiam, seu corpo ainda fraco, mas conseguiu se levantar.
Era compreensível que o garoto quisesse que ele fosse embora.
As crianças pareciam ter muito pouco.
Cuidar de alguém devia ser difícil para elas.
Elas tinham investido seu tempo e recursos nele.
Neo quis retribuir de alguma forma.
Mas, neste momento, mal conseguia andar.
E tinha problemas muito maiores.
O Empréstimo tinha afetado sua Cosmos.
Seu corpo estava instável.
Não conhecia as regras deste mundo.
Mesmo assim, queria ajudar as crianças antes de partir.
"Há algum animal selvagem incomodando a sua aldeia?" Neo perguntou.
Eles viviam numa área de floresta, e, pelo que tinha visto, todos aqui eram humanos comuns.
Enfrentar feras selvagens seria perigoso para eles.
Mesmo sendo fraco, acreditava que poderia caçar pelo menos um monstro ou outro.
Seria suficiente para retribuir sua gentileza por agora.
O garoto piscou e cameçou a assentar lentamente.
"Há um urso na floresta ao norte. Mas é bastante perigoso. Então, tome cuidado para não sair por esse lado."