Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 723

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

O sonho de Leonora terminou, mas, ao invés de despertar com controle de seu próprio corpo, ela sentiu-se sendo colocada de lado.

Ela ainda conseguia ver, ouvir e até sentir tudo ao seu redor, mas sua vontade não movia seus membros.

Quem controlava seus gestos era o Supremo da Água.

“_Lembre-se da sua promessa_”, ecoou firmemente a voz de Leonora na sua cabeça.

“Eu sei”, respondeu o Supremo da Água em voz alta, mesmo sem mais ninguém presente.

Um sorriso se formou nos seus lábios.

Sua figura tornou-se difusa e, em poucos segundos, atravessou o Submundo, rasgando a distância com velocidade impressionante.

Ela parou apenas ao chegar aos imensos portões do palácio que guardavam o caminho até a Porta do Submundo.

E lá estavam, esperando, Agares.

A estrutura do ceifador de terceiro nível era imponente, ombros largos e uma juba de cabelos dourados que emoldurava seu rosto afiado, como o de um leão.

Seus olhos azuis penetrantes fixaram-se nela instantaneamente, e a firmeza daquele olhar não tinha nada de amistosa.

Agares agora comandava os Ceifadores.

Desde o desaparecimento de Bael e a realocação de Barbatos para garantir a própria segurança do Submundo, todos os comandos diretos vinham através dele.

Aquela autoridade tinha uma presença tão pesada quanto uma corrente, e agora recaiu sobre ela.

“_Para onde vai?_”, perguntou ele, com uma voz tranquila, mas carregada de acusação.

O Supremo da Água parou alguns passos antes.

Seu rosto manteve-se descontraído, e o tom era leve. “Para o mundo da superfície. Alguém deve estar me procurando em breve.”

“Minhas ordens foram claras.” O olhar de Agares afinou, e a pressão dele começou a crescer, espalhando-se pelo pátio em ondas que tornaram o ar pesado. “Todos os Ceifadores e discípulos devem permanecer aqui.

“Proibido contato com a princesa. Essa regra também vale para você, mesmo que esteja controlando o corpo dela, Supremo.”

“Você sempre foi muito sério demais, Agares”, respondeu ela sem perder o sorriso. “Deveria aprender a relaxar. Não é saudável carregar tanta tensão.”

O ceifador de juba dourada nem tremulou, mantendo-se firme diante dos portões.

Seus olhos nunca se desviaram dela.

Seu sorriso se aprofundou, mas a pressão própria começou a subir também.

Não de forma explosiva, mas constante, crescendo como água enchendo uma bacia, sutil mas inevitável.

Um leve ondular de tensão se espalhou entre eles, e por um momento parecia que uma batalha era inevitável.

Então ela falou outra vez, como se alguém em sua mente a impedisse de usar a violência. “Fiz isso para ajudar o pirralho, Neo.”

Os olhos de Agares se estreitaram.

“Agora”, acrescentou ela, com um sorriso que nunca se apagava, “deixe-me sair. Ou você acha que estou mentindo para você?”

O silêncio se estendeu entre eles.

O ar ficava tão denso que Leonora, assistindo de dentro de seu próprio corpo, sentiu o peito apertar.

Por fim, Agares expirou pelo nariz.

Sua postura não relaxou, mas ele deu um passo ao lado, abrindo caminho.

Sua voz acompanhou ela enquanto passava.

“Espero que evite interferir demais nos assuntos do Submundo. O equilíbrio precisa ser mantido. Para o bem de todos.”

“Se você diz”, respondeu ela de forma despreocupada, acenando com a mão sem sequer olhar para trás.

Ela entrou no palácio e caminhou pelos longos corredores ecoantes até chegar à câmara da própria Porta.

Gremory já estava lá, de pé, elegantemente ao lado. Ela fez uma reverência graciosa. “Seja bem-vinda, Senhora Suprema.”

O Supremo da Água fez uma leve cabeça em sinal de reconhecimento.

Seu olhar se moveu em direção ao gigante guardião de três cabeças que se aproximou ansiosamente.

“Cérbero”, ela disse com afeto enquanto o cão gigante balançava a cauda como um filhote descontrolado.

Ela se agachou um pouco e fez carinho em suas cabeças com carinho.

“Sentiu minha falta? Eu também senti a sua.”

Cérbero roncou feliz, com cada cabeça apoiada nas mãos dela como se estivesse faminto por atenção.

Ela brincou com ele por um momento.

Sua expressão suavizou, mas seu olhar se fixou na Porta ao sentir as ondulações de energia que agitavam sua superfície antiga.

As ondas de poder se espalharam.

A Porta do Submundo estava sendo ativada.

Layla tinha usado sua insígnia de Ceifadora do outro lado.

O Supremo da Água se endireitou, deu um último afago em Cérbero e declarou: “Voltarei em breve.”

Ela entrou na Porta.

A luz a engoliu, e no instante seguinte ela apareceu no mundo da superfície.

Ao seu redor se estendia a trama sobreposta do Mundo da Morte de Layla.

Layla tinha fundido seu Mundo ao mundo verdadeiro, em vez de criar uma subdimensão separada.

Dessa forma, Leonora podia permanecer no mundo da morte enquanto navega pelo mundo real.

Layla aguardava, impaciente.

O Supremo da Água caminhou em direção a ela e, com um gesto quase maternal, fez um cafuné na cabeça dela. “Onde está a criança?”

“No quarto dela”, respondeu Layla.

“Bom. Mantenha seu Mundo ativo para que eu possa ficar aqui sem perturbações.”

Layla assentiu silenciosamente.

O Supremo da Água percorreu os corredores até chegar à câmara que buscava.

Ela levantou a mão e bateu à porta.

“Pode entrar”, veio a voz de dentro.

Ela entrou, com seu sorriso habitual.

Amélia estava lá dentro.

A postura dela era ereta, mas seus olhos já se estreitavam ao ver o rosto de Leonora.

Reconhecimento surgiu em seu olhar após alguns segundos.

“Leonora—” começou, mas se deteve, e seu olhar se tornou mais afiado. “Não. Você não é ela. Quem é você?”

O Mar Sangrento dentro dela pulsava violentamente, alertando-a do poder avassalador que se apresentava diante dela.

O Supremo da Água não demonstrou ofensa.

Simplesmente entrou, puxou uma cadeira, e se assentou com elegância.

“Sou o Supremo da Água, mãe de Leonora von Villiers, e a Divina que matou um Supremo.”

“Quer que eu acredite—”

“Seu sangue já deveria estar gritando por você”, interrompeu o Supremo suavemente. “Ele diz que sou forte o suficiente para te esmagar aqui e agora. Isso já deveria ser prova suficiente do que eu sou.”

Amélia fechou a boca, mas seus olhos continuaram afiados.

“Não vim aqui para briga”, prosseguiu o Supremo. “Estou aqui só porque minha filha me pediu. Ela quer que eu te ajude.”

Amélia hesitou.

A vontade de questionar e exigir respostas estava ali, mas a presença de Layla do lado de fora mantinha-a de mãos dadas com a hostilidade.

“Minha filha é amiga de Neo Hargraves”, disse o Supremo, com as mãos cuidadosamente unidas. “Por isso ela insiste tanto nisso.

“Ela quer que você o compreenda e apague as mágoas entre vocês, mostrando o que ele suportou por quinze mil anos, e por que não pôde voltar.”

Os olhos de Amélia se arregalaram um pouco. Depois, a desconfiança aumentou. “O que você quer dizer com isso?”

“Você já deve ter suspeitado que ele não pôde voltar por uma razão”, respondeu o Supremo.

Amélia fechou os punhos, mas permaneceu em silêncio.

Ela se recostou um pouco.

“Mas não acho que mostrar o passado vá mudar alguma coisa. Ódio não desaparece só com contexto. Você teria odiado ele de qualquer forma. Você já odeia demais — a si mesma, o mundo, sua fraqueza. O ódio virou sua casa onde vive.”

Amélia ficou rígida.

Palavras assim cortaram mais que uma lâmina.

O olhar do Supremo suavizou-se só um pouco.

“Por isso, não ajudarei com memórias. Vou ajudar apagando a raiz das suas mágoas, ao invés disso.”

Uma aura divina emergiu dela.

Era pesada e pura, enchendo a câmara com uma pressão que distorcia o ar ao redor.

Sua voz carregava a autoridade ao estender a mão em direção a Amélia.

“Filha”, disse suavemente, quase com ternura, “seja minha Amada.”

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