Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 711

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

O jardim tinha sido cuidadosamente cuidado, as flores desabrochando apesar da atmosfera sombria da floresta.

Uma pequena mesa foi arrumada, e Paimon mesmo despejou o chá.

Os três estavam sentados.

Por um tempo, a conversa foi tranquila.

Falaram sobre a passagem dos anos, mudanças no submundo, fragmentos de memórias compartilhadas como velhos amigos que finalmente se encontram.

Para os Ceifadores, o tempo fluía de forma diferente.

Milhares de anos de diferença não passavam de nada para eles.

Suas vozes não carregavam ressentimento pela separação, apenas uma aceitação serena.

Neo ergueu sua xícara, respirando o aroma levemente amargo, mas reconfortante, do chá, antes de beber.

Depois, colocou a xícara à mesa e voltou seu olhar para Barbatos.

"Barbatos," ele disse em voz baixa, "quero pedir desculpas pelas minhas ações durante o julgamento de sombras do meu irmão. Também gostaria de agradecer por ter ajudado ele naquela época."

Barbatos endireitou-se, balançando a cabeça. Sua voz era firme e respeitosa. "Não há necessidade de se desculpar, Príncipe."

Neo sorriu levemente. Não acrescentou mais nada.

A desculpa tinha sido dita, e isso bastava.

Paimon continuou como se fossem apenas velhos amigos se atualizando.

Ela não o pressionou com perguntas sobre onde tinha estado ou o que tinha feito durante todos esses anos.

Mesmo que Barbatos provavelmente tivesse contado tudo a ela, ela não perguntou por que Neo agira daquela forma durante o Julgamento de Sombras de Zagreus.

Ela aceitou suas escolhas sem reclamar, sem hesitar, como se fosse algo natural.

Neo permaneceu em silêncio por um tempo, bebendo o restante do chá.

Sua lealdade despertava sentimentos estranhos em seu peito.

Nas memórias que vira, Hades o tratava como se ele não existisse, ignorando-o como se fosse apenas uma sombra.

No entanto, ele não podia negar a verdade diante de si.

Os Ceifadores se importavam com ele como se fosse seu próprio filho ou irmão.

Por fim, Neo se levantou.

"Voltarei mais tarde," disse.

Paimon e Barbatos também se levantaram.

"Estaremos esperando," respondeu Paimon suavemente.

Neo acenou com a cabeça, virou-se e saiu da mansão.


Algum tempo depois, Neo chegou a uma parte isolada do submundo.

O ar quieto não carregava vozes ou presenças persistentes.

Ele olhou ao redor uma vez para se assegurar de que estava sozinho, então exalou lentamente.

"Quero conversar com Nyx sobre Zeus," murmurou para si mesmo. "Mas esse não é o momento certo. Ela está com Jack. Melhor eu conferir o Registro Akáshico. Deve ter as informações que quero."

Ele abriu a palma da mão.

Um cubo de luzes oscilantes apareceu em cima dela, cuja superfície se rearranjava constantemente, como se estivesse reescrevendo a realidade a cada segundo.

O Registro Akáshico da Terra.

Embora ainda estivesse sob proteção de Ilyana após o fiasco recente, estranhamente ela não impedia que agora ele o invocasse.

Talvez Jack tivesse dito algo a ela.

Seja qual for o motivo, o Registro pairou calmamente sobre sua mão.

"Hmm?"

Neo podia sentir a presença dela.

A consciência de Ilyana perfurou o submundo no instante em que o Registro apareceu.

Parecia que, embora ela permitisse que ele tomasse o Registro Akáshico, ela ficaria de olho para garantir que ele não o mexesse.

Naquele exato instante, outra aura surgiu.

O poder de Barbatos irrompeu de longe, varrendo a terra como uma tempestade.

Seu intuito era claro: qualquer invasão ao submundo seria considerada uma provocação.

"Ilyana, não estou fazendo nada perigoso. Não se preocupe," Neo falou, antes que a situação se agravasse.

Houve um silêncio inicialmente.

Depois, a presença dela hesitou, como se estivesse pesando as opções.

Ele quase podia imaginar ela debatendo se invadiria o submundo para observá-lo diretamente ou se ficaria afastada, confiando nele.

Finalmente, sua voz ecoou suavemente em sua mente.

"Não faça o Jack se arrepender de confiar em você."

Com isso, a presença dela se retraiu, desaparecendo de volta para o mundo dos vivos.

Quase imediatamente, o poder de Barbatos também diminuiu, recuando como uma maré após o perigo passar.

O silêncio voltou, permanecendo apenas Neo e o Registro.

Neo aproximou o cubo de seus olhos.

Ele oscilou novamente, camadas de informações se abrindo como páginas infinitas. Ele focou naquilo que desejava.

O período em que Zeus matou os deuses.

O Registro começou a piscar. Imagens surgiram, distantes e incompletas, como se algo estivesse faltando ou escondido.

Neo franziu o cenho.

"O quê...?"

Por mais que tentasse, o registro não mostrava o que ele queria.

As informações estavam... fragmentadas.

Porções inteiras estavam ausentes.

O cenho de Neo se aprofundou.

"Isso não é natural. Alguém cortou isso."

O pensamento trouxe uma lembrança.

Seu maxilar se prendeu.

"Foi o Kane que fez isso?"

Kane.

Seu amigo.

Um Guerreiro Espada.

Aquele que trabalhou ao seu lado na Era dos Deuses.

Aquele que o ajudou a lutar contra Tartarus.

Neo se lembrava muito bem de como Kane tinha supostamente cortado seus próprios registros no passado, rabiscando-os para garantir que o Registro Akáshico não pudesse prever seu futuro.

Na época, parecia uma jogada inteligente.

Agora, ao estar ali com o cubo oscilante na mão, Neo percebeu que o mesmo método tinha sido usado aqui.

Os registros da traição de Zeus não eram apenas perdidos.

Foram intencionalmente apagados.

"Parece que Kane estava ajudando Zeus a exterminar os deuses."

O gosto da frase era amargo.

Sempre soubera que Kane tinha algum papel naquela era, mas isso pesava mais do que imaginava.

Não era apenas uma ajudazinha rápida.

Esforçar-se para cortar tanta informação do registro mostrava que Kane tinha se envolvido profundamente, de forma a moldar como a própria história se lembraria — ou deixaria de lembrar — o massacre dos deuses.

Neo rangeu os dentes.

Raiva e confusão surgiram em seu peito.

"Droga, Kane. Por que você ajudou Zeus a fazer isso?"

Ele fechou os olhos, forçando uma respiração longa para se acalmar.

Suas mãos tremeram um pouco, mas ele as segurou firme.

Perder-se nas emoções não resolveria nada.

Nada mudaria se ele apenas se exaltasse com a verdade.

Neo abriu os olhos novamente.

Ele olhou para o cubo.

"Tenho que consertar esses registros. Não deve ser tão difícil."

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