
Capítulo 704
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Por quê? Por que ele tinha feito aquilo? Será que era realmente a única saída? Ou será que era só egoísmo, disfarçado de necessidade?
O cenho de Neo se franziu.
Seus pensamentos ficaram mais pesados.
"Neo?"
A voz o puxou de volta à realidade.
Ele virou-se. Moraine tinha acordado. Sentou-se lentamente na cama, esfregando os olhos. Seu cabelo estava desarrumado, e a voz saiu suave do sono.
"Bom dia," disse Neo.
"Bom dia," ela respondeu.
Seu tom carregava um estado de tostado, como se fosse inacreditável que ele estivesse ali na frente dela.
Neo levantou-se, passando as mãos pelas roupas.
"Deveria se cuidar. Vou preparar algo para o café da manhã."
Ele fez uma pausa, então lembrou de algo.
"Na verdade... vou convidar o Percival também."
Moraine piscou, surpresa. "Percival?"
"Sim. Acha que é melhor termos café da manhã todos juntos."
Ontem, ele percebeu a maneira como Percival falou sobre a mansão, e sobre morar lá.
Ele soava... solitário.
Por mais que não dissesse explicitamente, fica claro para Neo.
Ele era forte o suficiente para se destacar na maioria, mas essa força tinha afastado as pessoas.
Uma escolha simples teria sido sair da Terra e morar em um lugar onde pessoas com seu nível habitavam — como as Luzes Esquecidas — mas ele permaneceu na Terra para protegê-la.
Moraine abaixou o olhar. Ela não discordou.
"Mhm." Moraine assentiu com a cabeça.
Ele voltou para a pequena cozinha, já planejando o que preparar.
Suas mãos se moviam automaticamente enquanto preparava o café da manhã.
O lugar estava quieto, exceto pelos leves sons de corte e o chiado da comida cozinhando.
Quando terminou, passou as mãos no avental e chamou: "Venham tomar café."
As palavras chegaram direto aos ouvidos de Percival.
Percival estava regando as plantas no jardim.
Ele ficou surpreso com as palavras de Neo. Sua primeira reação foi recusar.
Mas então ele parou, franzindo levemente o rosto como se estivesse ouvindo uma voz que só ele podia ouvir. Talvez o Sol.
Após um momento de hesitação, Percival finalmente se aproximou da sala.
Neo abriu a porta mais ao lado e indicou que ele entrasse.
Percival parou no lugar.
Seus olhos arregalaram de incredulidade.
Neo estava ali de avental, olhando com calma para um homem comum, em uma casa comum.
"O que é isso..."
Para alguém que tinha visto Neo ensopado de sangue e emanando uma presença esmagadora no dia anterior, essa cena era... absurda.
Neo percebeu a expressão dele e não conseguiu segurar o sorriso que se espalhou por seu rosto.
Ele gostou mais da reação do que esperava.
"Agora, por quanto tempo você vai ficar aí parado, com cara de espanto?" Neo perguntou casualmente.
Percival piscou, ainda surpreso, antes de forçar uma risada.
Ele deu um passo mais para dentro, olhando para Moraine, que já estava sentada quieta à mesa.
Os três se acomodaram na sala de estar.
A mesa de jantar era simples, colocada de modo a permitir que vissem a cozinha aberta.
Neo se ocupou em terminar de preparar os últimos pratos, arrumando as porções com movimentos firmes.
Em pouco tempo, foi colocando os pratos na mesa, um a um.
Moraine deu-lhe um leve sorriso, que dizia mais do que palavras.
Percival, no entanto, ficou encarando Neo, tentando entender exatamente com o que estava lidando.
Ele lutava para manter seu sorriso.
Começaram a comer.
A comida não era sofisticada, mas era quente e reconfortante. Por um instante, só se ouviu o tilintar dos talheres.
Neo quebrou o silêncio.
"Entendo que você não consegue manter pessoas por perto, mas por que não pelo menos robots cuidarem das tarefas domésticas?"
"...Hã?" Percival parou no meio de uma mordida.
"Robôs para coisas como cozinhar e limpar," Neo explicou como se fosse óbvio. "Percebi ontem que vocês usaram um feitiço para limpar. E parecia que nem vocês dois comiam algo decente."
Percival colocou o talher devagar, ainda surpreso com a atitude de Neo.
No dia anterior, o homem tinha parecido à beira do colapso.
Agora, após apenas uma noite, agia como se nada estivesse errado.
Percival o estudou por um momento, pensando: Será que essa é a força de vontade de um Quebrador do Céu?
A recuperação de Neo não era normal.
A presença de Moraine, um singelo conforto, tinha estabilizado ele de formas que Percival não esperava testemunhar.
Neo inclinou a cabeça.
"Então?" ele insistiu novamente, sem deixar a pergunta morrer no ar.
Percival suspirou e respondeu. "Raramente estamos na Terra. Por isso, não nos importávamos muito em manter a mansão. Simplesmente... não parecia importante."
Os olhos de Neo encolheram levemente. "Nós?"
"Não é bem como você imagina," Percival disse, soltando uma pequena risada ao ver o olhar frio de Neo. "De qualquer forma, a razão é simples. Estávamos procurando pela Julie."
"...O quê?"
"Julie de Beaufort," explicou Percival, observando cuidadosamente sua reação. "Acho que você a conhece."
"...Conheço," Neo admitiu. "Por que vocês estavam procurando por ela?"
Percival olhou para Moraine, como se perguntando se devia dizer mais.
Ela não deu nenhuma pista. Seu rosto estava calmo e inexpressivo. Para ele, já era suficiente.
Ele recostou-se um pouco na cadeira e continuou.
"Ela pode ter um jeito de sair do Domínio Dourado. Queríamos usar isso para sair do Domínio Dourado."
Neo franziu o cenho. "Por quê?"
Percival juntou as mãos em comunhão.
"Você sabia que o Domínio Dourado e o mundo lá fora são... desconectados? É como se existissem universos diferentes. Até o fluxo do tempo e o comportamento dos elementos são diferentes em cada lugar. Manter uma conexão entre eles é quase impossível."
Os olhos de Neo se aguçaram.
"O que você está querendo dizer?"
"Se Elizabeth reencarnou fora do Domínio Dourado, faz sentido por que você não consegue senti-la."
Neo parou. Sua mão tremeu um pouco.
Percival continuou com uma voz firme. "Morrigan queria encontrar Elizabeth. Não preciso explicar o porquê, certo? Por isso procurávamos pela Julie. Achávamos que ela poderia ter uma forma de nos deixar sair do Domínio Dourado."
Silêncio pairou sobre a mesa.
Os pensamentos de Neo giravam, um após o outro, mas nenhum encontrava um lugar para se acomodar. Ele olhou para Moraine.