Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 691

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Ponto de vista de Neo

Neo estava sentado na cadeira do piloto da nave que Kevin lhe tinha dado.

As estrelas se estendiam infinitamente além do painel de visualização, mas nenhuma delas chamava sua atenção.

Sua mente estava demais dispersa.

Pensamentos iam e vinham sem padrão, e o silêncio da nave só tornava o peso deles mais intenso.

No seu cinturão, a espada tremia suavemente.

Um momento depois, luz saía dela, formando-se na silhueta de uma mulher.

Ela era alta, impressionante, com cabelo preto longo e olhos vermelhos que suavizavam ao repousar sobre ele.

Ela estava atrás dele.

"Neo," disse Obitus.

Ela deu um passo à frente e o puxou para seus braços, segurando-o firmemente, como se pudesse absorver a dor dele.

"Vai ficar tudo bem."

Ela não precisava que ele explicasse nada.

Ela podia sentir suas emoções, seu tumulto.

Esse era o laço entre eles.

E o que ela sentia agora a assustava.

Neo estava definhando.

Pedaço por pedaço.

Sua vontade de continuar avançando estava se erosionando.

Se ela não encontrasse uma maneira de apoiá-lo, temia que ele logo desmoronasse e nunca mais se levantasse.

"Neo," ela sussurrou, quase implorando. "Você deveria encontrar os outros. Firmamento Tirano, Firmamento Espada da Morte… todos querem te ver. Você precisa conversar com eles."

Sua voz tremia, mas ela insistiu.

Ela esperava—não, precisava—de algo que o fizesse feliz novamente.

"Neo—"

"Não agora."

Sua voz cortou de forma seca.

Ele não elevou o tom, mas as palavras foram definitivas.

"Não quero conhecer ninguém. Me dê... um tempo."

Obitus congelou, com os braços ainda ao redor dele.

Ela ficou assim por alguns segundos antes de lentamente soltar-se.

Seus dedos ficaram por um momento, depois ela recuou, limpando os cantos dos olhos. Quando falou novamente, seu tom havia mudado.

"Tudo bem. Se você precisa de um tempo, eu dou. Mas, em troca, você vai me contar tudo que aconteceu enquanto você esteve longe. Você sabe o quanto senti a sua falta?"

Ela se posicionou à sua frente.

Com as mãos nos quadris, ela o encarou com uma expressão que era metade raiva, metade teimosia.

Os lábios de Neo se curvaram em um sorriso.

Ele tentou sorrir normalmente.

Para Obitus, aquele sorriso vazio doía mais do que lágrimas.

"Não aconteceu muita coisa," ele disse.

"Neo…"

Ele estendeu a mão e deu uma tapinha na espada na cintura, como se a estivesse acalmando.

"Sei o que você está pensando," ele disse. "Que passei por algo ruim. Mas, honestamente, nada do tipo aconteceu."

O sorriso dele permaneceu fixo enquanto continuava.

"Depois que apaguei minha memória, a Aliança me enviou para um lugar chamado Voraka Site."

"O plano deles era me transformar num berserker."

"Mas eu tive sorte."

"Encontrei uma das reencarnações do meu irmão lá."

"Ele me ajudou. Depois, encontramos o Supremo do Vazio, que me treinou. Graças a eles, concluí meu Caminho, alcanei o Nível 5 e recuperei minhas memórias."

"Eu—é isso mesmo?"

Antes que ela pudesse impedir, as lágrimas desceram silenciosas pelas suas bochechas.

Ela se forçou a sorrir.

Porque sabia que ele estava mentindo.

Porque ele fazia isso por ela.

Pedir a verdade significaria ir contra aquilo.

Seu peito doía de raiva contra a Aliança, de tristeza pelo sofrimento que ela sabia que ele não admitiria.

Mas, ao invés de dizer alguma coisa, ela se inclinou para a frente e novamente o envolveu em seus braços, enterrando o rosto contra seu peito.

Lágrimas silenciosas escorreram fechando os olhos dela.

Ela segurou firme e recusou-se a soltar, mesmo quando os segundos pareceram virar minutos.

Neo deu uma risadinha suave e levantou a mão para acariciar seus cabelos.

"Você ficou bem mais grudenta, hein?"

"Estou só recuperando tudo que senti sua falta enquanto você esteve fora," ela murmurou, teimando em não soltar.

Neo sorriu novamente, mas desta vez ele não resistiu à sua pegada.

Permaneceu quieto, deixando que ela se segurasse nele pelo tempo que precisasse.

Seus olhos voltaram ao painel da nave à sua frente.

Após um momento, ele falou.

"Quanto tempo até chegarmos na Terra?"

"Tempo estimado: uma semana e três dias," respondeu a IA da nave.

"Isso é bem rápido," murmurou Neo. "Enfim, pode me responder umas perguntas?"

"Desde que eu saiba as respostas," respondeu a IA em tom neutro.

"Kevin disse que a Terra está sob o domínio dos Sóis Esquecidos. Quando isso aconteceu e por quê?"

"Foi há aproximadamente doze mil anos. Ilyana Veycoris-Drasthel, uma das nove líderes dos Sóis Esquecidos, decidiu acolher a Terra sob sua proteção."

"Ela sabia que a Aliança procurava por Neo Hargraves e ocultou o planeta deles," explicou a IA detalhadamente.

"Kevin sabia disso?" perguntou Neo.

"Sim. O Mestre Kevin estava ciente, mas optou por não reportar à Aliança."

"Por que Ilyana acolheu a Terra? Foi uma conquista?"

"Não. Foi por meio de negociação. Ela conversou com Jack Hanma, um Deus da Terra no Nível 4, e ofereceu sua proteção em troca."

Neo ergueu as sobrancelhas ao ouvir isso.

'Jack já é um Nível 4? Impressionante.'

Uma ideia surgiu imediatamente, apertando sua mandíbula.

Ele se lembrou que Jack ia se casar com sua irmã mais nova, Layla.

'Vou acabar com aquele desgraçado até ele estar a meio centímetro da morte,' pensou Neo, cerrando os dentes.

Aquele ódio contra sua linhagem incendiava seu interior.

Ele tentou sufocar.

Layla não tinha feito nada, repetia mentalmente, abafando qualquer outro pensamento.

Se deixasse qualquer pensamento inútil se espalhar, perderia seu foco.

Ele descontaria sua fúria.

E perderia sua razão—sua desculpa para voltar à Terra.

'Preciso encontrá-la,' pensou.

Seu peito pesava.

Ainda que não o merecesse mais.

Ainda que o encontro pudesse destruí-lo.

Ele ainda queria encontrá-la.

Usaria sua linhagem odiada como desculpa, se precisasse, mas não iria abrir mão de vê-la novamente.

"Ah." Obitus ganiu.

Neo piscou e se virou ao ver Obitus mudar de posição repentinamente, recuando um pouco para poder olhá-lo nos olhos.

Seu rosto estava próximo, a poucos centímetros do dele.

"Me entrega," ela disse.

"O quê?"

"Seu Caminho."

"Você já devia ter acesso a ele."

"Eu tenho," ela admitiu.

"Então, por que está perguntando?"

"Quero mais. Seu Caminho oferece habilidades baseadas na classe, traços e linhagem, certo? Quero mais delas. Existem várias que quero experimentar."

Neo olhou-a longamente.

"Você quer habilidades fora da sua classe?"

"Sim."

Ela sorriu com um pequeno brilho de travessura, apesar das lágrimas ainda grudadas aos cílios.

Neo soltou um suspiro que foi meio risada.

Ele entendeu que ela tentava aliviar o clima.

"Posso te dar..." disse lentamente, alongando as palavras. "Mas..."

O rosto dela imediatamente se contorceu.

"Mas? Por que tem um 'mas'? Por quê!?"

Ela parecia traída.

Neo explodiu em risadas e voltou a fazer carinho na cabeça dela.

"Tudo bem, tudo bem. Era só brincadeira. Não precisa ficar tão nervosa."

"Hmph. Eu não estava nervosa," ela disse, cruzando os braços e virando a cabeça de lado.

Neo recostou na cadeira, ainda rindo baixinho.

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