
Capítulo 683
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Lágrimas encheram seus olhos, escorrendo e deixando trilhas em suas bochechas.
Seu peito subia e descia de forma irregular enquanto ela lutava para respirar.
O peso no estômago dava-lhe vontade de vomitar.
Ela se agachou, segurando os joelhos, e os soluços ficaram mais intensos.
Seus sentimentos se agitavam sem direção, como uma maré feia e implacável.
Ela chorou por horas.
Quando as lágrimas finalmente cessaram, não houve alívio, apenas um silêncio vazio.
Seu olhar caiu sobre Vornaz.
Ela estendeu a mão, segurando a empunhadura da espada e levantando a lâmina em direção ao próprio pescoço.
"O que você está fazendo?" perguntou o panda do canto.
"Vou me matar. Se continuar assim, minha imortalidade tem que chegar ao fim em algum momento. Não faz sentido as Bruxas serem totalmente imortais."
Seus olhos estavam opacos e vazios.
Vornaz brilhou, assumindo a forma de uma coruja, e pulou para fora de seu alcance.
"Vornaz."
Ela o encarou.
"Vem aqui. Preciso tirar a minha vida."
Ele não respondeu.
Quando ela avançou na direção dele, Vornaz bateu as asas e se afastou voando mais longe.
O braço de Moraine tremeu, e ela virou-se em direção à mesa em seu quarto.
Uma pequena faca estava sobre a mesa, ao lado de uma cesta de frutas.
Ela caminhou até ela.
O panda apareceu na frente, bloqueando seu caminho.
"Bruxas não podem morrer."
Ela não respondeu.
Quando tentou contorná-lo, o panda voltou a se mover.
Por fim, ele suspirou.
"Ele fez um pacto comigo."
Isso a deteve.
Sua cabeça virou lentamente.
"…O quê?"
"Sou Severant. Um demônio. Minha Autoridade me permite desligar qualquer coisa."
Ela falou baixinho: "Qual foi o pacto dele com você?"
"Disse que, se ele não conseguisse reencarnar, eu deveria apagar suas memórias dele."
"…O quê?"
"Ele queria que você esquecesse dele."
As palavras caíram como uma lâmina em seu peito.
"…Ele queria que eu esquecesse dele?"
Sua voz tremia.
O choque em seu rosto se transformou em raiva.
"Então ele não deveria ter amado comigo! Sabia que ia morrer e escondeu isso! Ele já me contou algo? Demônio da Tirania? Quem é esse? O que diabos ele esteve fazendo tanto tempo?!"
Sua culpa saiu nos gritos, rasgados de si mesma.
"Eu… idiota… odeio ele…"
"Morais—"
"Não se aproxime!"
Mesmo enfurecida, ela olhou com fúria para Severant ao invés de recuar.
Ela não queria esquecê-lo.
Por mais que odiasse as mentiras, o amor permanecia ali, firme e inabalável.
"Eu… idiota… odeio ele…"
Ela se desmanchou com as costas encostadas na estrutura da cama.
Recostou-se, puxando os joelhos contra o peito e pressionando a testa contra eles.
"Morais, apagar suas memórias poderia—"
"Não vai adiantar nada", interrompeu.
Ela precisava dizer aquilo, caso o demônio tentasse fazer mesmo assim.
Na sua condição atual, ela não podia pará-lo à força.
"Se borrar memórias fosse suficiente, as Bruxas não sentiriam dor."
Severant não respondeu.
Após um longo silêncio, ele falou baixinho: "Tem outro jeito. Se eu apagar suas memórias, você não se lembrará dele, mas vai sentir que algo falta. Então podemos criar um clone. Como você não se lembraria dele, não perceberia que o clone não é real—"
Ele parou quando ela ergueu a cabeça.
A fúria nos olhos dela fez o demônio recuar instintivamente.
"Nunca sugira isso de novo."
"E aí, o que mais?" Severant retrucou, tentando esconder o medo que acabara de sentir. "Vai continuar chorando sem parar? O que isso vai conquistar—"
"Eu não sei!"
A voz de Moraine quebrou-se enquanto ela gritava.
Ela não sabia o que fazer em seguida, mas tinha certeza que nunca aceitaria apagar a memória dele.
Aqueles anos foram os mais felizes de sua vida.
Para alguém que viveu sozinha por oito longos Éons, foram os únicos momentos em que teve companhia.
Os dois riram juntos, viajaram para lugares que queriam ver, compartilharam momentos de calor e afeto.
Ela se negava a perder essas lembranças preciosas.
O silêncio se estendeu entre Severant e Moraine.
"Ele nunca matou inocentes."
Vornaz voltou, pousando suavemente sobre o seu ombro.
"Ele só descobriu muito depois que não conseguiria sobreviver ao fim do Éon."
Moraine não respondeu, mas seus ombros tremiam.
"Até então, vocês não estavam juntos. Mas era evidente que você o amava. Não ter ido embora não teria mudado nada. Então, ele decidiu ficar e te fazer feliz pelo maior tempo possível. Queria te deixar lembranças felizes."
Ela permaneceu em silêncio.
"Mas ele nunca deixou de procurar uma forma de sobreviver. Invadiu cofres de reinos, conheceu grandes sábios, desafiou outras Bruxas. Exigia conhecimento de todos que pudesse."
Severant soltou uma risada seca.
"Mesmo que não fosse seu jeito, ele agia com arrogância na frente de todos eles. Se recusassem a falar, ele derrotava e ameaçava suas vidas até cederem. Foi assim que virou o 'Demônio da Tirania'."
"…Só por isso?" Sua voz era débil, mas tinha uma leve curiosidade.
"Não diria 'só' por isso", respondeu Severant. "Pense pelo lado deles. Acreditavam que seu rei era invencível.
"Até que um dia, alguém surge do nada, destrói as defesas do reino, derrota seus exércitos, força seu governante a se render e exige que entreguem seu conhecimento."
"Se recusassem, ele os espancava de novo. Para eles, era um tirano," explicou Vornaz.
"…Ele parece mais um bandido do que um Tirano."
Vornaz soltou uma risada.
"Disse que você chamaria ele assim se soubesse o que ele realmente fez."
Moraine ergueu a cabeça, observando-o. Era o sinal suficiente para Vornaz começar a falar novamente.
Ele contou histórias do que "ele" havia feito enquanto esperava pela sua reencarnação.
Moraine não sorriu, mas as lágrimas tinham parado.
Ela ouviu atentamente.
"Ele ficou feliz da vida quando você aceitou o pedido dele. Até foi visitar Hades."
"…O quê?"
"Ele queria um nome, para que, ao te pedir em casamento, pudesse te dar um."
Isso fez ela congelar.
Sempre recusara dar um nome a ele.
Ela se lembrava da conversa deles.
'Me chame apenas de Morte Sem Nome, se quiser me dar um nome.'
'Por quê?'
'Meu pai é Hades. Ele não me deu um nome. Então… Morte Sem Nome.'
'…'
'Vamos lá, não me olhe assim. É só temporário. Eu vou fazer ele aceitar que sou filho dele, aí exijo um nome.'
'Você não odeia Hades?'
'Olha, pergunta difícil essa. Eu odeio sim, bastante, na verdade. Mas ainda assim tenho respeito por ele. Sei que ele está lutando pelo próprio objetivo. Apesar de não gostar de ter sido descartada, entendo o porquê dele fazer isso.'
'Você…!'
'Espera, por que está chorando?'
'Cale a boca! Odeio Hades! E odeio você por não odiar aquela porcaria que te abandonou!'
'Hahaha!'
Foi uma discussão.
Mas, ao lembrar dela agora, era uma lembrança calorosa.