Visão de NeoAs memórias pararam.Os olhos de Neo se abriram lentamente, como se estivesse acordando de um sonho que não pediu para ver.Sua cabeça estava pesada, sua mente ainda mais.À sua frente, sentada, estava a Feiticeira do Tempo.Ela tentou manter a compostura, mas o sobe e desce desigual do peito, o leve tremor nas mãos e a linha fina de suor escorrendo pelas têmporas o traíam, evidenciando sua exaustão."Isso foi o fim," ela disse, com a voz firme, mas carregada de cansaço. "Mostrei bastante coisa a você, mesmo após sua morte, então não reclame que paramos."Neo permaneceu em silêncio.Seus pensamentos estavam embaraçados e desfiando, como se alguém tivesse rasgado a base de sua vida e espalhado os pedaços no escuro.'Foi assim que o pai me tratou?'A ideia ficava como uma pedra em seu peito.
A vida inteira, suportou traição atrás de traição de diferentes famílias.
Sobreviveu porque acreditava em uma verdade.
De que sua verdadeira família, aquela que o trouxe ao mundo, tinha amado ele.
Que eles eram diferentes dos demais.
Mas agora—
'Família de verdade?'
'Me deu à luz?'
'Me amou?'
Tudo estava desmoronando.
Neo sentia como se estivesse murchando por dentro.
As memórias que ela mostrou contavam algo completamente diferente do que ele queria acreditar.
Do que ele tinha acreditado.
Neo não viu uma única sombra de sua mãe.
Não, será que faz sentido chamá-la de mãe?
E Hades….
Hades o tratou pior do que qualquer conhecido, com um distanciamento frio, como se não dissesse nem a um estranho na rua.
Como se aquelas revelações não fossem suficientes, tinha Moraine.
Sua Moraine.
A imagem dela surgiu involuntariamente, junto à lembrança da dor dela.
Ele a deixou para trás.
Deixou que ela sofresse sozinha.
Se lembrava dela destruindo seus próprios valores, se matando várias vezes, mesmo a vida tendo sido sempre sagrada para ela.
O conhecimento do que ela suportou por causa dele era como uma lâmina presa em suas costelas.
Sua família.
Moraine.
Ambas eram tempestades lutando contra ele de lados opostos.
"Isso foi uma mentira."
Neo cerrava a mandíbula e encarava a Feiticeira do Tempo.
"Aquelas memórias eram mentira."
"Por que você acha isso?"
"Minha mãe nunca apareceu. E se eu não era nada para Fa—"
Ele se reteve.
"Hades. Se eu fosse nada para ele, os Ceifadores não teriam me tratado assim. E a maior parte dessas memórias foi do ponto de vista da Moraine. Elas não são minhas. Não faz sentido que tenham sido reais."
Vivienne não vacilou com o ataque dele.
Ela simplesmente levantou um dedo.
"Você não tem uma mãe."
Neo ficou tenso.
Ela levantou um segundo dedo.
"A guerra do Ouroboros terminou a favor deles. Mas eles pagaram um preço alto.
"Houveram danos severos às forças deles, e o próprio Cosmos acabou sendo partido.
"Os Nono e Décimo Éons se fundiram."
"Muitas coisas do Nono Éon foram herdadas pelo Décimo Éon."
"O Nono Éon ainda estava morto, mas tinha se unido ao Décimo Éon."
"As leis do Cosmos foram completamente quebradas várias vezes durante a guerra."
"Depois, eles retrocederam o tempo até o começo do Décimo Éon."
"Quando o tempo é forçadamente distorcido assim…" ela olhou fixamente para ele.
"As memórias das pessoas são modificadas para encaixar na narrativa coerente." Ele completou por ela.
Ele se lembrou quando os Eternos apagaram pessoas da existência.
As memórias de todos foram alteradas.
Ficou como se aquelas pessoas apagadas nunca tivessem existido.
…Se isso fosse verdade, então explicava a bondade dos Ceifadores.
Ou pelo menos se encaixava com o que Vivienne dizia.
Ela levantou o terceiro dedo.
"Mostrei a você o ponto de vista da Moraine intencionalmente."
"…Por quê?"
"Para fazer você perceber o quanto ela te amava."
O rosto de Neo se fechou.
Ele não sabia explicar o porquê, mas tinha certeza de que isso remetia à tal 'vingança' dela, a razão pela qual ela tinha levado ele a essas memórias desde o começo.
"Durante a guerra, Moraine sacrificou mais do que você imagina. Ela quebrou suas próprias regras várias vezes, só para te ver mais uma vez."
"Mas quando a guerra acabou, e você foi reencarnado… ela ficou tão forte que não conseguiu mais entrar neste universo."
"No momento em que tenta, tudo aqui—este mundo, você, tudo que vive—seria devorado."
O olhar dela não vacilou.
"Como você se sente, Nameless," ela perguntou baixinho, "de saber que a mulher que chorou por você, que esperou por você por inúmeros anos, que lutou contra todos por você…"
O estômago de Neo afundou.Ele entendeu aonde ela queria chegar.
"Tudo o que ela consegue agora é assistir você estar com outra mulher. Mesmo agora, ela está te observando. Mesmo agora, ela deve sentir como se sua alma estivesse se despedaçando ao te ver fazendo amor com outra pessoa. Que as palavras de amor que você diz não são ela."
"…Cale a boca."
Ele não queria ouvir aquilo.
Mas ela não parou.
"Mesmo com toda a raiva que ela sente, suficiente para queimar as estrelas, ela não destrói este universo. Sabe por quê?"
"Cale a boca."
"Porque isso mataria você." A voz dela ficou mais firme. "Neo, quem você escolheria? A Feiticeira da Ganância, ou sua atual amada—"
"Cale a boca!"
Ele teria atacado se Kevin não tivesse se movido.
A lâmina deslizou entre eles, bloqueando seu caminho.
A voz de Vivienne ficou fria.
"Ela pode ter segurado esperança até agora. De que se você recuperasse as memórias de sua primeira vida, você a amaria apenas a ela. Que você voltaria para ela."
"Como acha que ela se sente agora, vendo que, mesmo com essas memórias, você não consegue escolhê-la em vez da mulher que tem hoje?"
Neo mordeu forte o lábio, sentindo o gosto de sangue.
Suas unhas cravaram nas palmas das mãos até a dor subir pelos braços.
O ar parecia rarefeito.
Cada respiração era uma batalha.
Sentia-se sufocado.
Porque era a verdade.
Ele tinha sentimentos pela Moraine. Nada poderia apagá-los.
Mas Elizabeth… ela era o seu mundo agora.