Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 677

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Às vezes, os pensamentos eram demais para suportar.

Ela tentava se convencer de que estava tudo bem—tentava calar as dúvidas que giravam na cabeça—mas as lágrimas ainda vinham.

Frequentemente, ela se entregava a soluços altos tarde da noite, quando ninguém podia ouvir.

A ausência dele começou a fazer efeito na sua saúde física.

Seu corpo ficava mais pesado a cada dia.

Levantar da cama virou uma batalha.

Ela ficava deitada encarando o teto, sabendo que tinha tarefas a cumprir, clientes a atender, massa para sovar… mas seus membros não obedeciam.

Somente semanas depois ela percebeu isso.

Ele tinha se tornado uma droga para ela.

Ela dependia daquela sensação mais do que tinha percebido.

A voz dele. A presença. As suas piadinhas tolas e provocantes. Tudo aquilo tinha se tornado parte da sua vida.

E agora ele tinha desaparecido.

A cada momento livre, seus pensamentos voltavam a ele. E, com esses pensamentos, vinha a dor.

Para fugir dela, ela se entregava ao trabalho.

Gerenciar a padaria virou seu único porto seguro. Ela abria mais cedo do que nunca e fechava tarde à noite. Quando voltava pra casa, já estava exausta demais para pensar ou chorar.

Isso ajudava. Um pouco.

O movimento aumentou. Clientes elogiavam sua dedicação, seus doces, sua constância. Mas os elogios já não tinham mais efeito algum nela.

Eles só a deixavam pior.

Ela aprendeu a cozinhar com ele.

Ela se esforçava para fazer algo bom para ele, para impressioná-lo.

Mas agora, ela não tinha certeza se esse momento ainda chegaria.

Havia dias em que se pegava encarando distraidamente a faca de pão.

Outros, passava horas no estoque, silenciosamente pensando se seria mais fácil acabar com tudo e rezar para que—quem sabe—ela reencarnasse em um futuro onde ele pudesse encontrá-la de novo.

Mas ela sempre se detinha.

"Não. Eu não vou me suicidar," sussurrou Moraine, repetindo essas palavras como uma oração toda manhã, toda noite, toda vez que sua determinação ameaçava vacilar.

Ela não se entregaria.

Era uma decisão que tomava. E ela ia mantê-la.

Porém, ela sabia.

Sabia que, eventualmente, até essas palavras poderiam não ser suficientes.


E então chegou aquele dia.

Ela olhava novamente para a faca, perdida no puxar de seus pensamentos.

A força de vontade havia se esgotado.

O som suave da porta da padaria se abrindo ecoou, mas ela não percebeu.

Um homem entrou.

"Desculpe, estou atrasado?"

Ela começou a responder por impulso. "Depende do que você quer. Ainda temos—"

Suas palavras pararam no meio.

Aquela voz.

Seus olhos lentamente se moveram em direção à entrada.

Cabelos negros.

Olhos vermelhos.

Aquele sorriso ligeiramente irritante, que parecia saber demais.

Seus lábios tremeram.

"É… é mesmo você?"

"Da última vez que olhei, só eu estava tão bem assim, então sim. Sou eu."

Ele sorriu, aquele sorriso atrevido que ela já tinha visto centenas de vezes.

Ela não pensou mais.

Seu corpo se moveu sozinho.

Ela correu e jogou-se em seus braços.

Lágrimas começaram a rolar.

Sua voz quebrou.

"Bem-vindo… hic… de volta…"

"Estou de volta," ele disse baixinho, apertando-a mais forte.

A mão dele acariciou suavemente as costas dela.

Aquele pequeno gesto foi suficiente para ela entender tudo o que precisava saber: ele não tinha estado com mais ninguém.

Devia haver uma outra razão para ele ter atrasado.

Mesmo assim, a raiva começou a ferver agora que a esperança de alívio tinha passado.

"Por que… hic… por que você se atrasou tanto? Você… hic… sabe o quanto eu fiquei preocupada?"

As mãos dela batiam contra seu peito, mas sem força alguma.

Ele riu, achando a raiva dela até encantadora.

"Não… hic… ria! Eu estou brava!"

Ela chorou por horas.

Quando não conseguiu mais chorar, deixou-se desabafar contra ele, completamente exausta.

Ele a pegou gentilmente, sem dizer uma palavra, e a levou ao quarto.

"Durma," sussurrou, virando-se para sair.

A mão dela se estendeu e agarrou a manga dele.

"Fica aqui… Fica comigo… estou com saudades."

Ele olhou para ela antes de escanear a pequena sala com o olhar.

Só havia uma cama.

Ela apontou o espaço vazio ao lado dela, percebendo o olhar dele.

Ele hesitou por um instante, mas aceitou o convite.

Ninguém falou nada.

Havia uma tensão estranha no ambiente.

Foi a primeira vez que ela deixou ele dormir no mesmo quarto, quem dirá na mesma cama.

Enquanto estavam ali, ele olhava para o teto, incapaz de dormir. Lentamente, quase nervoso, sua mão deslizou pela cama e envolveu suavemente sua cintura.

"Moraine?" ele sussurrou.

Ela estava de costas. Ele não podia ver seu rosto.

Ele não sabia se ela estava dormindo ou apenas ignorando.

"Moraine, você está acordada?"

Ele a puxou para perto.

O fato de ela ter permitido que dormissem juntos significava que ela tinha dado permissão, certo?

"Moraine?"

Depois de alguns segundos, ele se apoiou cuidadosamente e olhou por trás do ombro dela.

"...Ela está dormindo."

Seu rosto, antes tenso de estresse e cansaço, agora parecia tranquilo.

Ele suspirou, uma respiração carregada de amargura e afeto.

"Você realmente faz tudo do seu jeito, não é?"

E ela dormiu bem naquela noite. Ele, porém, não conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, pequenas mudanças começaram a acontecer com Moraine.

Seus dedos passavam delicadamente por sua mão.

Ela apoiava a cabeça no ombro dele.

Ele a pegava observando-o quando achava que ele não via. E, quando sorria, ela não desviava o olhar.

Isso lhe dava esperança.

Talvez essa vida fosse diferente desta vez.

Talvez ela o aceitasse de uma vez por todas.

Mas…

'E se ela me rejeitar de novo?'

As ações dela sempre foram confusas.

Embora tentasse parecer brincalhona, ela nunca tinha realmente o aceitado.

Ele frequentemente se perguntava se ela agia de forma sedutora de maneira inconsciente ou se estava brincando com seu coração.

'Suspiro, vou só perguntar na próxima vida se ela rejeitar de novo.'

Foi assim que decidiu agir. Se ela dissesse não, esperaria pela próxima vida.

Ele não queria pressioná-la a aceitá-lo.

Desta vez, tinha esperança de que as coisas finalmente mudariam para sempre.

Ele se pegou procurando o momento certo.

Uma semana depois, encontrou.

Foram até uma colina tranquila, perto da cidade.

O céu estava limpo. Uma brisa brincava na relva, e flores silvestres lindas cresciam pelo caminho.

No topo, à sombra de uma árvore gigante, ele ficou atrás dela.

"Você gosta deste lugar?"

"É lindo."

Moraine não conseguia desviar os olhos do horizonte deslumbrante.

Ele envolveu sua cintura por trás.

Ela parou de repente.

"Moraine?"

Ambos entenderam o significado de suas palavras.

Ele estava pedindo permissão, perguntando se poderia segurá-la assim, se podia cruzar os limites que haviam estabelecido entre eles.

Ela apontou para sua mão, sinalizando para que ele a soltasse.

Ele rapidamente recuou.

"Ah— desculpe, não quis assustar—"

Mas antes que pudesse terminar, ela virou-se.

Ela pegou as mãos dele, que recuavam, e as guiou de volta para sua cintura. Então, envolveu os braços ao redor do pescoço dele.

Ele piscou, completamente surpreendido.

Moraine não teve tempo de analisar sua expressão.

Seu coração batia acelerado.

De tão forte, ela achava que ele poderia ouvir seus batimentos.

Mas ela não conseguiu resistir.

Nunca tinha feito algo tão ousado.

Estava usando toda a sua força de vontade para não se ajoelhar e esconder o rosto de vergonha.

Ela reuniu coragem e olhou para cima.

'Ah.'

Ela viu o rosto dele.

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