
Capítulo 673
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Moraine deu um passo à frente.
Seu rosto estava rígido de incredulidade.
O jeito como seus olhos se moviam traía suas emoções.
Surpresa, medo e raiva, tudo tentando ocupar o mesmo rosto ao mesmo tempo.
"Você provavelmente foi descoberta como uma Bruxa uma vez e fugiu. Se tivesse acabado com todo mundo na primeira vez, não precisaria ter escapado de novo. Mas não se preocupe, agora que estou aqui—"
Suas palavras foram abruptamente interrompidas.
A bofetada soou mais forte do que deveria no ar quieto da manhã.
Ele ficou ali, atônito.
A face ardeu, mas ele se sentia mais confuso do que machucado.
Seus pensamentos tropeçavam, tentando entender o que acabara de acontecer.
"Você matou gente inocente por causa disso?! A gente poderia simplesmente ter se mudado! Não teria sido tão difícil!" gritou Moraine, a voz embargada de tanta raiva.
Ele abriu a boca, tentou explicar.
"Mas—"
"Vá embora."
"…O quê?"
"Vá embora! Nunca volte! Não quero mais te ver! Foi meu erro achar que o filho de Hades podia ser diferente. Você é igualzinho a ele."
Ela se virou sem dizer mais nada e entrou na taverna em fúria.
Ele ficou lá, encarando a porta fechada, ainda tentando juntar as peças do que tinha dado errado.
Quando finalmente entendeu, o mundo pareceu desacelerar.
…
"Droga, droga, droga!"
Moraine bateu a tranca da porta dos fundos e começou a enfiar seus pertences numa bolsa.
Suas mãos tremiam ao tocar nas roupas e utensílios, mas ela continuou se movendo.
Ela iria enterrar os mortos após arrumar tudo, e partir da cidade antes do anoitecer.
Os corpos… ela ainda não conseguia tirá-los da cabeça.
Expressões de choque nos rostos das pessoas. O sangue.
Ninguém foi poupado.
Ela alcançou uma camisa dobrada na mesinha lateral e falou distraidamente:
"Você viu as roupas que comprei ontem? Não consigo encontrar—"
O silêncio respondeu.
Ela congelou.
Ao perceber o que acabara de fazer, mordeu o lábio e fechou os olhos por um segundo.
Ele não estava ali.
E mesmo assim, sua mente não parava de voltar a ele, como uma ferida que ela não conseguia deixar de tocar.
'Por que ele fez isso?'
A resposta veio rapidamente, rápida demais.
'Hades não teria lhe ensinado compaixão. Ele só deu a ele potencial, talento, conhecimento de morte e guerra, e o enviou ao mundo.'
Talvez… talvez ele achasse que matar era a única forma de protegê-la.
'Não,' ela disse a si mesma, sacudindo o pensamento. 'Por que estou me preocupando com ele agora?'
Ela jogou outra camisa na bolsa.
"Ele já tem idade suficiente para saber o que é certo ou errado. Deveria saber melhor."
No entanto, suas mãos agora se moviam mais lentamente.
Ele tinha comido?
Estava dormindo em algum lugar seguro?
Ele era inteligente, mas ingênuo em alguns aspectos.
E se alguém tivesse enganado ele?
E se alguém machucou ele enquanto estava sozinho?
"Droga," ela sussurrou. "Deveria pelo menos verificar se ele está bem."
Assim que pensou nisso, a preocupação cresceu, tornando-se mais alta e mais frenética.
Ela nem se incomodou em se arrumar direito.
Simplesmente puxou um casaco e saiu pela porta dos fundos, a mesma que a equipe geralmente usava para entrar e sair da taverna.
Mal deu um passo quando seus olhos pararam em algo próximo à parede.
Sua respiração travou novamente.
Ele estava lá, sentado encolhido ao lado da parede da taverna, com os joelhos puxados ao peito.
Suas costas estavam pressionadas contra a pedra fria, e seu capa estava envolta firmemente ao redor do corpo.
A cabeça apoiada nos braços.
Ela deu um passo adiante e, percebendo sua presença, ele olhou para cima.
"Ah—"
Ele se assustou, levantando-se de repente, claramente não esperando por ela.
"Eu… sinto muito," disse, com os olhos arregalados, as mãos inquietas.
Ela não falou nada.
"Eu não devia ter matado eles. Sinto muito."
A voz dele era baixa e insegura.
Ele olhava para os próprios pés.
Ver ele aqui, perto de casa, trouxe uma mistura estranha de raiva e alívio que se torcia no peito dela.
Mas ele não percebeu isso.
Ele só via o silêncio dela, e isso o obrigou a falar de novo.
"Deveria ter perguntado antes. Achei que era o melhor, mas… não vou fazer mais isso, prometo. Por favor… não me mande embora. Por favor."
Ele fez força com as mãos ao falar, a voz tremendo.
Vê-lo assim trouxe à tona a lembrança da criança que ela tinha trazido para perto dela anos atrás.
"Moraine, eu não quero mais ser descartado. Por favor…"
Antes que pudesse terminar, ela deu um passo à frente e o abraçou.
"Seu idiota!" ela gemeu, com a voz embargada. "Como assim eu iria te jogar fora?! Nunca faria isso!"
Os olhos dele se arregalaram ao sentir suas lágrimas contra seu ombro.
Ele não esperava por isso.
"Moraine?"
"Para de dizer que é sua culpa. Foi meu erro. Eu devia ter te ensinado melhor," ela soluçou. "Não se culpe, ok? Nunca mais vou mandar você embora. Só… não diga coisas assim novamente, tá?"
Ela segurou nele como se fosse a última coisa que a mantinha de pé.
Levaram horas para acalmá-la.
Quando finalmente conseguiu, suas bochechas estavam vermelhas e cheias de marcas de lágrima.
O nariz escorria.
Ela parecia completamente fora de controle.
"Eu… eu não estava chorando."
"Tá bom."
"Eu disse que não estava chorando!"
"Eu nunca disse que você estava."
"Mas seus olhos estão dizendo o contrário!"
Ele ficou confuso.
O humor dela tinha mudado de novo. Primeiro raiva de manhã, depois tristeza à noite, e agora isso.
Ele a olhava, com a cabeça cheia de dúvidas.
"O que há de errado com você hoje?"
Ela cerrrou o maxilar e percebeu o quão ridícula parecia.
Ela se endireitou, sacudiu o casaco e tossiu disfarçadamente.
"Vou terminar de arrumar as coisas… então…"
Sua expressão voltou a ficar séria.
"Você—vá lá e dê a eles um funeral digno."
O rosto dele ficou tenso ao ouvir as palavras.
Isso o lembrou do motivo pelo qual ela quase o descartou como o Soberano.
"Você não deveria matar pessoas inocentes," ela falou suavemente, colocando a mão na cabeça dele. "Não é assim que se protege algo. Isso é destruição. Valorize a vida."
Ele assentiu.
Levou um dia inteiro para enterrar todos.
Ele não usou magia.
Fez tudo com as mãos.
Um por um.
No dia seguinte, partiram da cidade.
Depois disso, o tempo passou.
Anos se passaram.
Depois décadas.
Nunca ficavam muito tempo em um lugar só.
Viajavam de cidade em cidade.
Abriam uma taverna, fechavam, começavam de novo em outro lugar.
Ele nunca matou outro inocente.
Com o passar do tempo, Moraine envelheceu.
Linhas apareceram no rosto dela. Seus passos ficaram mais lentos.
Ela nunca mais pediu que ele a deixasse sozinha.
Diferente dela, a aparência dele não mudou.
Ainda parecia um jovem à beira da idade adulta, parado no tempo pelo sangue que corria em suas veias.
Mas o tempo não se importava com isso.
Finalmente, ela não conseguiu mais sair da cama.
No episódio daquela noite, quando ele entrou, a taverna estava silenciosa.
A respiração dela era superficial.
Sorria de forma fraca.
Ambos entenderam instintivamente: era o último dia dela.