Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 634

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Leonora o seguiu até a forja.

As paredes estavam escuras e ásperas, cobertas apenas pelo esqueleto de equipamentos espalhados pelo espaço amplo.

"Então... como você vai começar?"

O Mistério da Morte não se virou. Caminhou até o centro da forja e parou. "Primeiro, vou adquirir o conhecimento de todos os Caminhos que posso usar atualmente."

Leonora inclinou a cabeça, confusa.

"O que quer dizer com isso? Você já não sabe como funcionam os Caminhos?"

"Sei como funciona o Caminho do Desperto," ele disse. "Sei como funciona o Caminho dos Elementais. Mas ainda não entendo o Caminho das Conquistas."

Ela franziu a testa. "Huh?"

"Vou devorá-lo," ele afirmou simplesmente, como se fosse óbvio. "É a única maneira de aprender como ele funciona."

Leonora piscou uma vez. Depois outra.

Não podia acreditar no que tinha ouvido.

Faz poucos minutos que ele tinha dito algo que já parecia absurdo e, agora, tinha superado com algo ainda mais insano.

"Você vai devorar o Caminho? Como—como planeja fazer isso?"

"O Sistema do Código Universal está conectado a mim," ele disse. "É assim que o Caminho das Conquistas se manifesta. Eu vou devorar essa conexão."

"Você sabe como ele está conectado a você?"

"Não," ele admitiu. "Mas tenho uma ideia."

O Mistério da Morte sentou-se no canto mais afastado da forja, encostado na parede. "Não me incomode até eu terminar."

Leonora observou-o por um instante, sem dizer uma palavra. Caminhou até um lado da forja e sentou-se silenciosamente, o olhar ocasionalmente voltado para ele.

O Mistério da Morte fechou os olhos.

Imergiu para dentro de si mesmo.

Por corpo, por alma. Pelo Núcleo e até pelo Semente de Existência.

Nada.

Não havia sinal de conexão do Código Universal em nenhum desses lugares. Mas isso só confirmou sua suspeita.

"Está conectado a um lugar que ainda não verifiquei."

Ele aprofundou seu olhar. Além das camadas do Semente de Existência.

Dentro dela jazia a Intenção de Existência—a fonte de seu ser, sua base, o conceito que o definia no cerne.

A única coisa que ainda não tinha devorado.

Ele hesitou.

"Posso morrer permanentemente se tentar devorá-la," murmurou para si mesmo.

Até ele não tinha ideia do que aconteceria se sua Intenção de Existência fosse destruída.

Era uma coragem sem medida.

Mas ele sempre pisou na beira do abismo, onde a morte era uma visitante frequente.

Não tinha tempo para ser cauteloso.

"Nada se ganha, nada se arrisca."

Inspirou fundo e abriu a Semente de Existência.

Uma dor intensa surgiu em seu corpo assim que começou.

A pele rasgou-se. Seu sangue aqueceu, escorrendo por cada poro.

Mas ele permaneceu vivo, forçando seu elemento de Morte a estabilizá-lo, mantendo-o consciente mesmo enquanto sua vida escapava por seus dedos.

Ele estendeu a mão para sua Intenção de Existência e começou a devorá-la, fração por fração.

A intenção não ficou passiva.

Ela lutou.

Tremer, tentou recuar, fugir. Isso o surpreendeu.

Parecia que a Intenção de Existência tinha a mente própria.

Mas o Mistério da Morte não soltou. Cerrando os dentes, agarrou e rasgou um décimo dela.

Dor atravessou seu corpo como espinhos de magma cravados nos ossos. Sua mandíbula se apertou. Unhas cravaram suas palmas.

Ele suportou.

Quando terminou de devorar o primeiro décimo, parou.

Esperou a regeneração da Intenção de Existência.

Depois repetiu o processo.

Repetiu várias vezes.

Criara um método para devorá-la sem se matar: devorar, esperar, recuperar, repetir.

Era doloroso e arriscado.

Mesmo para ele, acostumado à dor, trouxe uma agonia inimaginável.

Mas funcionou.

E então—quando devorou metade de sua própria Intenção de Existência—algo diferente ocorreu.

Algo novo.

Era diferente de tudo que tinha sentido antes. Uma presença distinta e estrangeira enterrada no núcleo de seu ser.

Ele estendeu a mão.

E então, de repente—

"O que você está tentando fazer com isso?"

Uma voz ecoou dentro de sua mente.

Sua consciência se apagou.

Quando voltou a si, estava de pé em um lugar bem diferente da forja onde meditava.

Um apartamento moderno.

Piso limpo. Uma sala de estar ampla. Uma grande janela que deixava entrar uma luz suave.

O Mistério da Morte piscou.

Observou as mãos.

Seus poderes haviam desaparecido.

Sentiu… humano.

Frustrado, virou-se em direção à janela.

Viu fora uma vizinhança.

Casas simples. Crianças brincando na rua. O som distante de carros.

Um mundo humano.

Ele virou-se para a porta e abriu. Antes de sair, ouviu uma voz vindo de dentro do apartamento.

Parou.

Ao fechar a porta, voltou-se e entrou mais fundo, seguindo a origem da voz.

Foi até o quarto principal.

Dentro, um jovem sentado no chão, encostado na cama. Carregava um controle e jogava um jogo que parecia de Mario Kart em uma tela gigante.

O rapaz olhou para o Mistério da Morte uma única vez, depois voltou a focar na tela.

"Só me deixe terminar essa corrida antes de conversar," disse casualmente. "Se quiser, pode sair lá fora e explorar até então."

O Mistério da Morte o encarou.

"…Cole Calloway?"

Ele não sabia exatamente por que, mas tinha certeza de quem era o rapaz diante dele.

O jovem nem olhou diretamente para ele.

"É. Eu revi suas memórias e vi o que você tentava fazer. Vamos conversar daqui a pouco. Este é um nível difícil."

O Mistério da Morte estreitou os olhos.

A atmosfera estava… estranha.

Apesar da atitude idiota do garoto, os instintos do Mistério da Morte gritavam uma única palavra:

Perigoso.

Ele não sentia o fundo da força de Cole. Era como olhar para um vazio sem forma, sem fim, sem limite.

O Mistério da Morte não saiu lá fora.

Pelo contrário, foi até a pequena sacada e ficou lá, observando a rua.

Crianças riam. Pássaros cantavam. Um eventual jingle do caminhão de sorvete ao longe ecoava ao vento.

Era um mundo tranquilo.

Eventualmente, as vozes da vitória pixelada começaram a soar na TV dentro de casa.

Cole se levantou, alongou os braços e soltou um suspiro satisfeito.

Seus chinelos arranharam suavemente o piso de madeira polida ao caminhar até a cozinha.

Seguiu-se o som suave de uma cafeteira e o tilintar de canecas.

Um instante depois, Cole saiu para a sacada com duas xícaras quentinhas nas mãos.

"Toma," disse, oferecendo uma para o Mistério da Morte sem olhar para ele. "Essa é amarga. Não coloquei açúcar porque parece que você não gosta de doce."

O Mistério da Morte hesitou, depois pegou a xícara.

Aroma desconhecido, mas agradável.

Cole encostou-se na grade da sacada, tomando um gole descontraído enquanto olhava a rua.

"Este é o meu mundo," disse ele. "Nascí aqui. Não é o mesmo universo que o seu."

O Mistério da Morte deu um gole também. Não respondeu.

"Também chamavam de Terra,” continuou Cole com uma risada silenciosa. “Embora nós não tivéssemos dragões, nem mana. Só humanos. Vivíamos, trabalhávamos, lutávamos. Então veio o apocalipse."

O olhar de Mistério da Morte mudou para ele.

"As pessoas começaram a morrer. Estruturas caíram. O governo desmoronou. As cidades viraram ruínas. Tivemos que lutar."

Um silêncio longo seguiu-se.

As ruas pacíficas lá embaixo nem de longe refletiam as imagens que começavam a surgir na mente de Mistério da Morte.

"Talvez você não lembre, mas seu mundo também foi destruído por um apocalipse."

"O quê?"

"Não é coincidência," disse Cole lentamente. "O destino tem um jeito estranho de ligar as coisas. Quando atravessei para o seu universo, não trouxe apenas a mim mesmo. Trouxe o destino do meu mundo comigo. Ele me seguiu. E, eventualmente… alcançou a sua Terra também."

O Mistério da Morte permaneceu silencioso.

Não havia sentido discutir algo que não podia verificar.

"Você não vai me culpar?" perguntou Cole de repente, de lado.

"Isso mudaria alguma coisa?" respondeu Mistério da Morte.

Isso fez Cole rir.

"Boa resposta. Na verdade, mudaria. Minhas habilidades são... digamos que estão além de tudo que você possa imaginar. Posso impedir o apocalipse que destruiu seu planeta."

"Você está falando do Caminho das Conquistas?"

"Ah, não," disse Cole com um gesto casual com a mão. "Isso é algo que criei depois que cheguei ao seu universo. Os Eternos estavam me enchendo o saco por usar poderes de outro mundo."

"Então, usei algumas ferramentas do meu mundo, dei uma ajeitada nelas e chamei de Caminho das Conquistas. O sistema foi só para fazer os Eternos pararem de ficar me importunando."

Isso realmente chocou Mistério da Morte.

"Você criou o Caminho das Conquistas só para isso?"

"Sim."

O Mistério da Morte virou-se completamente para ele. Ficou em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:

"Você conheceu os Eternos?"

"Sim."

"Quão forte você é?" finalmente perguntou Mistério da Morte.

Cole continuou olhando para o horizonte.

"Eu?" ele riu, e olhou de volta para Mistério da Morte. "Sou o mais forte que existe."

Comentários