
Capítulo 627
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Ponto de Vista da Morte Sem Nome (Neo Hargraves)
O sol mal tinha surgido, mas a selva do Silêncio Vermelho nunca mudava.
Sempre escura, sempre envolta em neblina cor de ferrugem e no silêncio que dava ao lugar seu nome.
Sob o dossel de árvores retorcidas e vinhas moribundas, o espaço se distorcia com o som do ar que se movimentava.
O local combinado estava quieto, pelo menos por enquanto.
A Morte Sem Nome permanecia de braços cruzados.
Zagreus aguardava ao seu lado, com os braços atrás das costas e os olhos fechados, como se estivesse ouvindo algo distante.
Do outro lado, duas figuras emergiram do limite da clareira.
"Asmodea", disse a Morte Sem Nome.
Ela assentiu, seu longo casaco arrastando-se ao caminhar. "Tarefa cumprida, príncipe."
Zagreus abriu os olhos. "Bom trabalho."
"Vamos logo ao assunto," disse a Morte Sem Nome. "Os teleportadores estão estáveis?"
"Estão funcionais. Três ao redor da borda externa, dois mais profundos, e um bem no centro, perto do Portal Sagrado", respondeu Asmodea.
A Morte Sem Nome fez um breve gesto de aprovação. "Ótimo. Assim ajuda quando tudo começar."
Zagreus tocou suavemente o pulso, uma runa tênue pulsou em resposta.
"Cadê o Barabatos?" perguntou de repente, enquanto examinava o espaço vazio ao redor. "Ele já deveria estar aqui."
"Disse que encontrou rastros de onde a formiga poderia estar escondida. Buscar aquele lugar levou mais tempo do que ele esperava, aparentemente. Mas ele deve estar de volta em breve," suspirou Zagreus.
Houve uma pausa.
Depois, Zagreus acrescentou: "Ainda assim, acho melhor lidarmos com Berserker antes que ele volte. Seria embaraçoso se os três não conseguissem derrotá-lo."
Asmodea sorriu levemente, seus olhos vagando sobre a névoa espiral que cercava as bordas da selva.
"O constrangimento é a menor das nossas preocupações. Afinal, por mais fraco que seja, Berserker ainda faz parte do Supremo do Vácuo."
O tempo passou lentamente após isso.
Dezoito horas decorreram, marcadas por silêncio e preparação.
Não falaram muito.
Cada um deles meditou, ajustou seu foco ou revisou as configurações espaciais ao redor da clareira.
A Morte Sem Nome permaneceu sentado numa raiz quebrada.
Então, a runa de contagem regressiva em sua mão chegou a zero.
A atmosfera mudou.
O céu, já em tom de ferrugem, torceu-se.
Elementais do caos começaram a surgir, dançando em linhas finas pelo espaço, fazendo a clareira tremer.
O chão gemeu. As árvores se curvaram.
Acima, a neblina vermelha girava como um tifão formando em câmera lenta.
Então, ela desapareceu.
E, no olho daquele silêncio, uma figura apareceu.
Uma forma humanóide estava no centro da clareira.
Parecia esculpida de névoa vermelha, mas, ao contrário de antes, essa tinha "peso".
Ninguém percebeu o momento exato de sua chegada. Não houve distorções espaciais.
"Ele veio com um corpo de algum lugar," murmurou Zagreus.
Ao contrário do que ocorria antes, quando os corpos usados por Berserker eram criados pela condensação de névoa ou pela retirada de um monstro, aquele corpo era diferente.
A Morte Sem Nome se levantou.
Ele encarou a figura do outro lado do espaço cheio de névoa.
Berserker sorriu. Sua face, ainda indistinta como fumaça atrás de uma vidraça, inclinou-se enquanto olhava além de Nameless Death.
Zagreus e os demais não se mexeram.
"Por que estão apenas ficando aí?" perguntou Berserker, sua voz carregando um tom baixo, quase divertido.
"Pedi para que não interferissem."
"Ah?" Berserker riu. "Você tem certeza disso?"
"Estou no auge do Estágio 4, e você é Estágio 4, Grau 3, Nível 5. Não preciso de ajuda para derrotar você."
Houve uma pausa.
O sorriso de Berserker se alargou.
"Você realmente acha que isso importa para mim?" ele disse, uma rudeza começando a escapar de sua voz. "Sou o Supremo do Vácuo. Pular alguns Graus não é nada para mim."
A Morte Sem Nome fez um leve aceno, como se não se importasse se Berserker pudesse fazer isso ou não.
Uma veia pulsou na testa de Berserker.
Porém, ele não atacou.
Em vez disso, sorriu ainda mais amplamente.
"Você mudou," disse Berserker. "Depois de entrar no Portal Sagrado... Você não tem mais medo."
"Foi cautela, não medo. Eu nunca tive medo," respondeu Nameless. Ele olhou além de Berserker. "Cadê a formiga?"
Nenhuma resposta veio.
Berserker deu de ombros, como se a pergunta não importasse.
Seus olhos brilhavam fracamente na névoa.
A Morte Sem Nome comentou, sabendo que Berserker não responderia facilmente. "Como vamos lutar, que seja rápido."
Ele deu um passo à frente, desenhando uma linha sutil no chão com o dedão.
"Um ataque cada um," disse.
"O quê?" questionou Berserker.
"Vamos atacar um ao outro uma vez, com toda a força. Quem causar mais dano vence."
Zagreus franziu a testa levemente. Asmodea não reagiu.
Leonora ficou nervosa.
Ela conhecia a força dos Supremos e quis alertar Nameless contra essa abordagem imprudente, mas só pôde ficar quieta quando sua baleia espiritual a impediu.
Berserker riu alto. "Você fala sério?"
"Sim."
"Você não acha que estou subestimando você só por parecer assim, né?" perguntou Berserker, esticando uma mão. Elementais do caos giravam ao seu redor, linhas finas de corrupção consumindo a névoa.
"Você é mais fraco, então não quero perder tempo. É só isso."
"Tá bom. Então eu começo. Tudo bem pra você?" Berserker mostrou um sorriso selvagem.
A Morte Sem Nome não respondeu. Apenas permaneceu ereto, com as mãos ao lado do corpo, o olhar fixo.
O céu escureceu.
Berserker respirou fundo, de forma lenta e aguda.
A névoa vermelha, que tinha dissipado, começou a subir novamente, mais rápida desta vez.
Ela emergiu da selva, das árvores, do solo, do próprio ar. Movimentou-se e se comprimiu, formando uma tempestade de caos elemental condensado.
A tonalidade vermelha aprofundou-se, fios de preto e roxo se entrelaçavam, como se o espaço estivesse sangrando.
As nuvens não se abriram. Elas se curvaram em direção a ele.
Todo o entorno—acima, abaixo, ao redor—foi puxado para o punho cerrado dele.
A Morte Sem Nome permaneceu imóvel.
Porém, fios brancos tênues e quase invisíveis começaram a se materializar ao redor dele.
Então o mundo tremeu.
Berserker atacou.
Uma onda de choque gigante rugiu para fora.
A névoa vermelha explodiu.
Ela quebrou o chão da selva, virou trechos inteiros do terreno e rachou o céu acima.
Forças elementais do caos se espalharam pelo espaço como uma maré, transformando o ar em fogo e poeira.
E então tudo se acalmou.
Berserker arfava, com o braço estendido e um sorriso selvagem no rosto.
Porém, o sorriso desapareceu ao olhar para a frente.
Nameless Death ainda permanecia lá, de pé.
Sem se mover.
Nem mesmo poeira tinha se assentado em seus ombros.
Olhou para Berserker com uma expressão calma, quase entediada.
"É isso?" perguntou, rolando o pescoço com um movimento preguiçoso.
O tom de voz dele não era zombeteiro nem arrogante. Era apenas indiferença honesta.
Berserker expirou lentamente, rindo baixinho. "Você nem bloqueou."
"Não precisei," respondeu Nameless, assentindo. Então acrescentou: "Feche os dentes."
"Achava que você diria isso," Berserker riu.
Nameless deu um passo à frente, puxando o braço de forma casual.
Não houve explosão de poder. Ele não usou técnica nem conceito. Nem se esforçou para reforçar suas habilidades físicas com Energia Mundial.
Simplesmente deu um soco.
E a metade superior do corpo de Berserker deixou de existir.
Num instante ele estava lá. No próximo, tinha desaparecido.
A força do impacto criou ondas de choque muito maiores do que o ataque de Berserker.
Nameless olhou para a mão, girando-a lentamente.
"Hm," resmungou. "Não foi tão satisfatório quanto imaginei. Talvez se eu pudesse acertar seu corpo real, ficaria melhor."
De repente, uma voz ecoou da névoa.
"Agora, agora. Isso é só ganância."
O corpo de Berserker lentamente se regenerou.
Seu torso se reconstituiu de fios vermelhos e pretos, que se entrelaçaram como músculos em tecido.
"Ainda quer continuar?" perguntou Nameless.
Sua expressão permanecia indiferente, mas a frieza em seu olhar mostrava que não estava brincando.
"Você não vai vencer. E, se tiver dificuldades em aceitar a derrota, posso provar que sou mais fraco destruindo completamente esse recipiente."
Berserker deu uma forma de despedida com a mão, preguiçoso.
"Não precisa. Você venceu essa batalha."
Uma voz veio de um lado.
"Já que a luta acabou, é hora de você me deixar fazer meu trabalho," disse Zagreus, levantando-se.
Asmodea estreitou os olhos.
Ela levantou a mão e usou [Verdade] para dizer,
"Barreira."
A palavra carregava poder.
Uma cúpula surgiu instantaneamente, transparente e sem cor, mas inconfundível na presença.
O espaço ao redor deles tremeu, e a selva além desapareceu em silêncio.
A barreira selou o espaço completamente.
Zagreus avançou.
"Tenho perguntas. E você não vai a lugar algum até respondê-las."
O olhar de Berserker se virou para ele, divertido. "Você não é muito inteligente, hein?"
Zagreus estreitou os olhos, percebendo a confiança na voz de Berserker.
"Pense bem. Se este lugar é seu Julgamento das Sombras, qual você acha que será a dificuldade? Os Julgamentos das Sombras são extremamente difíceis. Sempre há um inimigo que você não deveria conseguir derrotar. Algo impossível. Uma aberração que não se pode superar."
Zagreus franziu a testa.
Já estavam lutando contra Berserker. Ele era forte, claro. Mas longe de um inimigo impossível.
Zagreus deu mais um passo.
Seus pensamentos giraram.
…Algo não estava certo nesse julgamento.
Quem era o inimigo? O que exatamente tornava esse julgamento impossível?
Existem apenas duas entidades que poderiam transformar esse Julgamento das Sombras em uma dificuldade impossível, se fossem inimigas de Zagreus.
Barbatos ou a Morte Sem Nome.
Barbatos era subordinado de Zagreus. Ele nunca se voltaria contra Zagreus. Então, sobrava—
'Não pode ser.'
'De jeito nenhum isso aconteceria.'
Mesmo assim, uma dúvida surgiu na mente de Zagreus.
Seus pés pararam por conta própria.
Ele viu Berserker sorrindo de forma insana.
Um calafrio atravessou seu coração.
Devagar, virou-se para Nameless Death.
"Desculpe," disse a Morte Sem Nome em voz baixa.
Zagreus entendeu o que queria dizer. Mas não quis entender.
Ele não queria acreditar que aquilo estava acontecendo.
"O que você quer dizer—"
"Não posso deixar você concluir seu Julgamento das Sombras," respondeu Nameless. "Vou te pedir para liberar o Berserker."