
Capítulo 598
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
A fúria do Berserker aumentava cada vez mais.
Sua expressão se torcia, e seus movimentos ficavam mais precisos. A ira emanava dele como calor intenso.
Ele odiava a linhagem dos Hargraves. Cada gota dela.
Ele odiava Zagreus, não apenas por interromper a batalha, mas porque ele não era um guerreiro de verdade.
Zagreus não lutava com sua força própria.
E agora ele estava interrompendo sua luta com um guerreiro.
Mas, acima de tudo, ele odiava o que a Morte Sem Nome tinha se tornado.
Os golpes do Berserker ficavam cada vez mais rápidos e pesados.
Seus passos faziam a terra estremecer.
A Morte Sem Nome tinha potencial para se tornar um verdadeiro guerreiro supremo da morte, alguém digno de conduzir a morte, de corrigir o caminho do que está perdido.
Mas, ao invés de optar pela dominação e pela guerra, a Morte Sem Nome se retraiu dela.
Ele escolheu a paz e a convivência.
Repulsivo.
Não era mais só uma questão de luta. Berserker foi lembrado de 'ele'. Aquele que traíra o significado de ser Morte. Aquele que pregava o equilíbrio.
Esse pensamento levou a fúria de Berserker às alturas.
Zagreus, caminhando cuidadosamente pelos arredores do confronto, olhou para a Morte Sem Nome.
"Você talvez devesse recuar," ele disse. "Ele está ficando descontrolado, e tem uma razão pelas quais chamam ele de berserker."
A Morte Sem Nome não respondeu. Ficou firme no lugar.
Um segundo depois, aconteceu.
O poder do Berserker explodiu.
Força, velocidade, intensidade elemental, tudo aumentou. O ar ao redor dele rachou. Até o chão se abriu em uma cratera enquanto ele avançava.
Seu punho acertou em cheio o peito da Morte Sem Nome.
A força atravessou-o.
A Morte Sem Nome foi jogada para trás como um boneco de trapo, o corpo dobrando de forma anormal ao atravessar diversos troncos de árvores.
Ele escorregou pelo chão de floresta destruída, deixando um rastro de sangue e fumaça.
Outro golpe veio na sequência, agora reforçado com Elementais do Caos.
Rumo ao interior da essência da Morte Sem Nome.
Aquele golpe poderia destruir uma Consciência.
Zagreus se movimentou.
Uma bala verde disparou de sua arma, perfurando o ar. Acertou Berserker na lateral com precisão.
Era a primeira vez que o corpo de Berserker era realmente perfurado.
Ele soltou um grito agudo. Sua carne ondulou, pulsou, e começou a se transformar.
Seu corpo se mutou violentamente. Seu Caos e sua Morte se torciam em padrões instáveis. E então—
Ele explodiu.
Assim, simplesmente, a manifestação do Berserker desapareceu.
Um silêncio tomou conta da floresta.
Fumaça subia suavemente do crater, onde Berserker tinha estado. Fragmentos de Elementais do Caos flutuavam no ar, evaporando lentamente.
"Você matou a manifestação dele. Agora vamos perder mais tempo neste maldito Sítio Voraka." murmurou a lula flutuando ao lado de Zagreus.
"Não tentei matá-lo. Não é minha culpa que esse idiota cego quase foi deletado, e eu precisei intervir para salvar." Zagreus deu uma expressão de desdém, chutando a língua.
A lula virou-se para ele.
"Nunca vou entender você. Por um lado, você nunca tem piedade dos inimigos, mesmo que sejam inocentes. Mas, por outro lado, você faz questão de proteger os espectadores, mesmo que isso custe a luta."
Zagreus não respondeu. Caminhou até a Nameless Death caída e esperou.
Como esperado, a Nameless Death se regenerou. Sua forma se estabilizou. Seu corpo se recompôs sozinho, sem esforço.
O sangue preto parou de escorrer.
A pele voltou a selar-se.
Zagreus estreitou os olhos.
"Estranho. Ele parece com ele, mas não parece que está usando a bênção para se curar. A bênção ainda está parcialmente selada? Ou ele é apenas alguém que se parece com ele?"
Zagreus guardou seus pensamentos para si.
A Nameless Death recuperou seus sentidos. Olhou para Zagreus com hostilidade silenciosa.
"O que você quer?" perguntou. "Você matou o Berserker do jeito que queria. Agora desapareça."
Zagreus se agachou na frente dele, uma mão descansando no joelho, a outra segurando a espada como uma bengala.
"Garoto," disse com tom casual. "Você percebe que ele estava prestes a matar sua consciência, né? Eu salvei sua vida."
A Nameless Death não respondeu.
"E…"
Zagreus inclinou a cabeça. "
Fazendo isso, pirei na batata. Precisava capturar aquela manifestação dele vivo para interrogar. Agora tenho que encontrar outra. Ótimo."
A expressão de Nameless Death franziu-se.
Algo nas palavras de Zagreus lhe incomodou.
Ele teve uma premonição ominosa.
"E?" perguntou.
Zagreus apontou para a parte de trás da mão de Nameless Death. Um número brilhava ali.
"Aquele número 100. É uma contagem regressiva, não é? O tempo até Berserker vir atrás de você de novo."
Nameless Death não se moveu, mas assentiu com um olhar.
"É assim que aquele cara funciona. Então, já que eu te salvei, você me deve. Sua recompensa é simples: fique comigo até ele aparecer de novo."
A Nameless Death o examinou.
"Então," ele disse, com tom seco, "você quer matar o Berserker?"
"Parece que estou tão entediado assim pra você?" Zagreus lançou um olhar sério.
Ele se levantou, esticou-se e sacudiu o casaco.
"Não estou aqui para jogar de soldado. Estou aqui para consertar este planeta. É minha Prova das Sombras, e aquele desgraçado foi quem destruiu tudo aqui no começo."
A Nameless Death não respondeu. Não lhe interessava este planeta quase morto.
Se ele ia morrer ou se curar, tanto faz pra ele. Não era problema dele.
O que realmente chamou sua atenção foi a expressão 'Prova das Sombras'.
Então, aquele cara era quem o Sistema inicialmente queria que ele trabalhasse junto?
De repente, Zagreus disse:
"Seu espírito foi danificado na luta, não foi?"
A Nameless Death parou.
"Se você trabalhar comigo," disse Zagreus, com tom finalmente sério, "vou ajudar você a recuperá-lo."
Isto fez a Nameless Death hesitar.
Ele se virou para ele.
Zagreus aguardou sua resposta.
Aquietaram-se entre eles por um momento.
Finalmente, a Nameless Death suspirou.
"Boa," Zagreus sorriu. "Você não é tão teimoso quanto achei."
Os dois deixaram para trás a área destruída, passando por árvores de galhos retorcidos e chão carbonizado.
Enquanto avançavam, os Elementais do Caos remanescentes se dispersaram como insetos fugindo do fogo.
E saíram da Floresta do Silêncio Vermelho.
O silêncio profundo do local desapareceu, sendo substituído pelo céu aberto e uma brisa morna.
Zagreus olhou de lado.
"Não se preocupe," disse, passando a poeira do ombro. "Tenho que voltar lá mais tarde. Quando você estiver recuperado, voltaremos juntos."
A Nameless Death não comentou. Apenas continuou caminhando ao lado dele.
Depois da floresta, vinha uma extensão de terra árida.
Repleta de rochas planas, platôs ocasionais e longos cânions esculpidos na pedra. Nada vivia ali. Nenhuma planta, nenhuma besta, nem insetos.
E eles se moviam por ela.
Por anos.
Usaram teleportes e técnicas como a Falsa Brecha quando podiam, mas parecia que Zagreus estava conservando energia, então precisavam caminhar devagar.
Durante a jornada, Nameless Death aprendeu algumas coisas.
Primeiro—Zagreus era um palavreiro. Muita palavrinha feia.
Ele tinha um vocabulário capaz de fazer bandido corar, e usava com a mesma naturalidade com que respirava.
Nem sempre dirigia as palavras às pessoas.
Às vezes era às rochas. Às vezes era ao clima. Às vezes era só ao estado geral do universo.
Segundo—ele era um mestre em irritar as pessoas.
Zagreus falava com sarcasmo, zombava, e vivia provocando os outros.
Ele cutucava fraquezas e explorava inseguranças com precisão cirúrgica, depois ria como se tudo fosse uma brincadeira.
A maior parte do tempo, a Nameless Death só o ignorava.
Terceiro—o "100" na parte de trás da mão de Nameless Death significava anos.
"Cem anos," disse Zagreus durante o segundo ano de viagem. "É quanto tempo você tem."
A Nameless Death olhou para ele.
"E então aquele monstro volta pra terceira rodada. Berserker não dá segundas chances de brincadeira. Ele te dá tempo pra que a luta seja mais satisfatória. Então, prepare-se o máximo que puder."
A Nameless Death não respondeu. Apenas aceitou e seguiu em frente.
Caminharam por vales de pedra rachada, escalaram platôs decadentes e cruzaram lagos secos cheios de ossos.
O tempo passou lentamente, depois acelerou à medida que os dias se misturaram em meses e anos.
De vez em quando, paravam para descansar, embora Zagreus nunca explicasse como escolhia os lugares. Simplesmente fazia.
Seis anos e sete meses após o início, o terreno mudou.
Diante deles levantou-se uma montanha gigante.
Ao contrário do restante da região árida, ela não era só pedra. Pulsava levemente, como se algo estivesse vivo lá dentro.
Não havia caminhos ou entradas. Nenhuma escada, nenhuma constrição.
Somente pedra.
Zagreus parou na base, estalou as costas com um estalo alto, depois deu um tapinha na superfície da montanha, como quem cumprimenta um velho amigo.
"Acorda," disse. "Chegamos."
A superfície deu uma leve cintilada, mas não se abriu.
Alguns segundos depois, uma voz profunda roncou de dentro da pedra.
Quem é que está aí com você?
A Nameless Death levantou uma sobrancelha, mas permaneceu em silêncio.
Zagreus avançou, casualmente removendo a sujeira das mangas.
"Ele é meu companheiro," declarou. "Trouxe ele aqui para se recuperar."
Silêncio.
A montanha não respondeu imediatamente.
O ar ao redor deles esfriou.
A Nameless Death permaneceu imóvel, mas seu olhar fixava na parede de pedra.
O fato de ela estar falando não o surpreendia.
"Vamos lá. Não seja tímido. Ele não vai queimar seus túneis internos." Zagreus cruzou os braços.
Outro longo silêncio se instaurou, e a montanha continuou imóvel.
A Nameless Death olhou de lado.
"O que é esse lugar?"
"Você verá quando entrarmos," Zagreus comentou com algum sorriso malicioso. "Acredite, vai te deixar de queixo caído."
"Tanto quanto parece divertido, acho que esse cara não vai abrir um caminho pra mim." respondeu o outro.
"Ah, vai. Ou eu mesmo abro."
A montanha roncou novamente, desta vez com um som que quase parecia uma respiração.
Se ele machucar o santuário interno, é com seu nome.
"Pois é," zagreu murmurou, cansado. "Marca na lista, caramba."
A parede voltou a cintilar. Desta vez, uma parte dela se dissolveu em névoa, revelando um túnel que se curvava para baixo. Uma luz vermelha suave brilhava de suas profundezas. O ar lá dentro era mais frio e mais fresco.
Zagreus fez um gesto.
"Depois de você."
A Nameless Death não hesitou. Entrou.
Ao atravessar a entrada, ele percebeu algo diferente neste lugar.