
Capítulo 599
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
A atmosfera dentro era carregada por uma pressão estranha. Sentia-se como se o lugar estivesse repleto de vida.
Quanto mais eles avançavam, mais certo ele ficava disso.
A vida pulsava sutilmente na pedra ao redor deles.
O túnel acabou se alargando e virou uma vasta caverna.
À sua frente se estendia uma cidade enterrada sob a montanha, tão grande que suas bordas desapareciam na luz tênue.
As construções abaixo eram gigantescas, com linhas duras e materiais escuros. Torres se erguiam como gigantes vigilantes, e pontes as conectavam por cima em redes suspensas.
Mas não foi a arquitetura que chamou a atenção de Morte Sem Nome.
Foram as estátuas.
Elas estavam por toda parte.
Lineavam as ruas, ficavam em forjas, empoleiradas em varandas.
Figuren enormes, todas congeladas em meio a movimentos.
Cada uma tinha ombros largos, membros grossos e torsos pesados.
Pareciam um anão humano ampliado, mas as proporções eram mantidas.
"O que são isso?" perguntou Morte Sem Nome.
"Anões," respondeu Zagreus enquanto eles caminhavam.
"Pensei que anões fossem baixos?"
"Eles tinham proporções de uma pessoa baixa."
Morte Sem Nome fez uma expressão de reprovação enquanto observava o local com seu olhar de Intenção.
O lugar parecia errado para ele.
Essas estátuas não tinham a intenção de Existência. Era algo que todos possuíam, até um cadáver, e objetos não vivos.
Normalmente, a Intenção de Existência de uma pessoa era escondida pela energia que cultivava. Quanto maior o ranking de alguém, mais difícil era vislumbrar sua intenção.
Por outro lado, era mais fácil verificar a intenção de objetos sem energia.
Quanto mais Morte Sem Nome olhava ao redor, mais sentia que havia algo errado.
As estátuas eram incrivelmente detalhadas.
Não apresentavam rachaduras ou sinais de envelhecimento. Era como se o tempo tivesse simplesmente parado ao redor delas.
Algumas estavam caminhando pelas ruas. Outras conversando ou rindo. Ou deveriam estar.
Morte Sem Nome e Zagreus atravessaram uma ponte alta que se curvava até o coração da cidade.
Abaixo deles, podia ver estátuas congeladas no meio de uma fala, outras reunidas em áreas que pareciam mercados. A cidade não havia morrido em batalha. Ela simplesmente... parou.
Morte Sem Nome parou de repente e voltou-se para olhar as estátuas dentro de uma forja.
Uma delas segurava um martelo com as duas mãos, na metade de um golpe, com a boca aberta como se estivesse gritando.
Ele a observou por um longo momento.
"Algo errado?" Zagreus virou-se para ele.
"Senti que ela me encarou."
"Tem certeza que não deu uma cheirada de coisa estranha na entrada? Aquilo ali nem se mexe há eras. Nenhuma delas se mexe."
Morte Sem Nome não respondeu.
Ele também não tinha certeza. Talvez fosse apenas a energia do lugar enganando seus sentidos. Ou não.
Continuaram em frente.
À medida que se aproximavam do centro da cidade, os prédios ficavam maiores. As ruas mais largas. A pedra dava lugar ao metal. Canos alinhavam as paredes e teto, alguns ainda quentinhos ao toque.
No coração da cidade, erguia-se uma fortaleza imponente.
Seus portões externos estavam hermeticamente fechados com camadas de metal rúnico e pedra espessa. A estrutura parecia menos uma fortaleza e mais uma máquina feita para guerra e sobrevivência.
Zagreus apontou para ela.
"Essa é a Fábrica Principal."
Morte Sem Nome estudou os portões. Pareciam antigos, mas intactos.
Quando eles se aproximaram, os portões rangeeram ao se abrir, revelando um corredor largo o suficiente para passar um exército.
As galerias eram decoradas com gravuras de forjas, algumas ainda contendo ferramentas em meio a movimento, exatamente como a cidade lá fora.
Morte Sem Nome seguiu Zagreus através do silêncio.
Conforme avançavam mais fundo, ele começou a sentir uma sensação de lembrança.
Os sentimentos não eram claros ou nítidos, mas parecia que ele deveria conhecer aquele lugar.
Sentimentos estranhos surgiram em seu coração. Não conseguia distinguir exatamente o que eram.
Era raiva? Vazio? Desespero?
Ou era solidão?
Quando chegaram a um par de portas grossas reforçadas no nível mais baixo, seus pensamentos já estavam muito complicados.
Zagreus abriu as portas com um simples toque.
Além delas, havia uma forja diferente das outras.
Era ampla e aberta, mais parecida com uma catedral do que com uma oficina.
Estátuas estavam congeladas, todas focadas em uma coisa ou outra.
Até as faíscas pareciam ter sido paralisadas no tempo.
Morte Sem Nome avançou lentamente pelo compartimento.
Passou por uma fileira de bigornas, cada uma maior do que uma cama. Mesas longas estavam espalhadas com ferramentas que enferrujaram no lugar. Na parede ao fundo, uma série de entalhes chamou sua atenção.
Ele parou.
Zagreus percebeu sua reação.
Morte Sem Nome não falou imediatamente. Caminhou até a parede, levantando uma mão em direção, mas sem tocá-la.
Era um projeto—um molde.
Um design simples, gravado na superfície da parede.
Mostrava um cubo.
A entalhe tinha inúmeros detalhes do cubo.
Mostrava várias seções internas, camadas dentro de camadas, e símbolos gravados em cada face do cubo.
As gravuras eram limpas, quase reverentes.
Zagreus aproximou-se dele.
"Sabe o que eles são?"
"Não," balançou a cabeça Morte Sem Nome. "Só tive a sensação de que esse projeto deve ser importante. Gravar assim na parede... eles deviam considerá-lo uma das maiores obras."
"Maior invenção, né? Essa é uma visão." Zagreus sorriu de lado.
Ele deu um tapa na costura do projeto.
"Chama-se Matriz do Diabo."
"Esse nome já diz tudo, hein."
Zagreus riu da própria palavra.
"E qual a função dele?" perguntou Morte Sem Nome. "Se é a maior invenção deles, deve ter alguma habilidade mítica."
"É um dispositivo para criar um Diabo."
Quem falou não foi Zagreus, mas sim um polvo eldritch flutuante que vinha silencioso nas proximidades, que avançou lentamente até parar entre eles com uma pulsação sutil.
"Um Diabo," ele disse, "é a Finalidade. O ser metamórfico que personifica o Fim Verdadeiro."
"...?" Morte Sem Nome franziu a testa.
O polvo explicou.
"Finalidade não é destruição ou morte. É o Fim. É o momento em que todos os caminhos acabam. Um Diabo é quem vai personificar esse Fim e colapsar toda a existência em nada."