
Capítulo 594
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Visão de Karax (O Campeão das Formigas Sanguiscreech)
Karax estava na beira do muro da câmara.
Seus olhos compostos fixavam-se na figura que se sumia nos túneis superiores. Morte Sem Nome. Ele tinha simplesmente desaparecido, assim como aquilo.
Ele não disse uma palavra, nem atacou novamente.
Karax deveria estar aliviado, e uma parte dele realmente estava. Mas a sensação que se instalava no seu peito não era paz.
Era vergonha.
A maior ameaça que a colônia já enfrentara simplesmente tinha se ido. Não porque Karax a deteve. Nem porque eles tinham vencido. Ela saiu por vontade própria.
Karax—Campeão da colônia Sanguiscreech, Garra Primeira da Corte da Rainha, defensor dos túneis—não fez quase nada.
Nada de significativo.
Suas mandíbulas cerraram-se.
Ele lembrava-se de como Morte Sem Nome tinha ficado lá. Cercado por aqueles seis orbs, seu corpo marcado por cicatrizes e uma calma furiosa.
Mesmo no Nível 2, ele emanava um perigo tão intenso que fazia o exoesqueleto de Karax tremer.
Karax já tinha enfrentado vários Deuses de Nível 5 sozinho antes, e tinha saído vitorioso nessas batalhas mortais.
Mas Morte Sem Nome não era como eles. Mesmo para Karax, que se orgulhava de sua violência, sentia medo quando ficava diante de Morte Sem Nome.
Sua presença esmagava algo dentro de Karax. Era como se seus instintos soubessem que ele não deveria sobreviver a alguém como ele.
E ainda assim… ele virou as costas.
Simplesmente saiu andando.
Karax nem tentou detê-lo. Não falou uma palavra. Simplesmente deixou-o ir.
As outras formigas ao redor dele zuniam suavemente.
Suspiros de alívio percorreram a multidão.
Vários soldados até riram. Algumas deram tapinhas nas próprias costas, convencidos de que tinham escapado de algo terrível, e de fato tinham.
Acreditavam que haviam “merecido” aquilo.
Karax lhes deu um sorriso tenso, escondendo o nojo que torcia seu estômago. Ele não queria estragar a alegria deles. Mas por dentro, aquilo queimava.
Estão comemorando a sobrevivência, pensou amargamente. Mas teríamos morrido se não fosse pela misericórdia dele.
Uma misericórdia concedida por um inimigo.
Isso dava uma pontada no estômago de Karax.
Ele deveria ser a lâmina que cortava ameaças antes que chegassem à Rainha. O martelo que destruía invasores. Mas tudo o que fizera foi ficar ali, imóvel, inerte.
Incapaz de agir.
Enquanto os outros voltavam às suas tarefas, Karax permaneceu onde estava.
Continuou em silêncio, observando os eixos verticais e o túnel horizontal.
Então veio o som de passos.
Ele se virou.
Milhares de formigas de Nível 3—cansadas, mas inteiras—surgiram do túnel distante, trazendo marcas, mas sem ferimentos graves.
Essas eram as guerreiras que haviam se adiantado até o círculo interno da selva. A força principal da colônia. Elas haviam desaparecido quando Morte Sem Nome atacou.
Na frente delas, estava o comandante Arelas. Seu corpo marcado por musgo da selva e pequenos cortes das plantas do círculo interno.
"Karax," chamou Arelas ao se aproximar. "Precisamos conversar. É urgente."
Karax endireitou-se. "O que foi?"
Arelas não perdeu tempo. "Zagerus está voltando."
O nome caiu pesado como uma pedra no peito.
Zagerus.
O monstro humanóide que vinha destruindo a Floresta do Silêncio Vermelho.
Ele foi quem atacou a colônia semanas atrás, destruindo a maior parte deles.
"Ele vai voltar?" perguntou Karax, franzindo a testa. "Por quê?"
"Não faço ideia," disse Arelas com seriedade. "Mas ele está se movendo pelos caminhos do dossel em direção ao círculo externo. Nossos exploradores o avistaram há uma hora. A direção dele é... deliberada."
As pernas de Karax ficaram rígidas.
Então o ar mudou.
Foi sutil no começo.
Tudo o que Karax sentiu foi uma sensação estranha, um formigamento rastejando sobre o casco. O mundo parecia... mais denso, mais frio, como se algo terrível estivesse pressionando por cima.
E então ele reconheceu aquilo.
"...Elementais da Morte Berserker," murmurou Karax.
As outras formigas começaram a murmurar, confusas.
"Por que estão tão ativas?" perguntou uma.
"Será que algo morreu por perto?" disse outra. "Ou alguém forte está lutando? É o único momento em que Elementais da Morte Berserker ficam assim."
Karax não estava confuso como elas.
Ele estava horrorizado.
Essa densidade...
"Estão tentando possuir alguém," sussurrou Karax.
Então veio o grito.
Ecoou lá do fundo da câmara central. A câmara da Rainha.
Todos os formigas na área pararam em choque.
Karax não esperou.
Cuspiu para frente, deslizando pelo túnel. Cada passo seu era rápido como o trovão.
Quando chegou à câmara, o cheiro de morte se intensificou.
Não era sangue fresco, nem puro Death.
Era mais caótico. Era….
O Berserker.
A Rainha saiu de detrás das cortinas.
Não… não era a Rainha.
Era seu corpo, mas a mente não era mais dela.
Seus antenas elegantes agora tremiam de forma errática. Seus olhos azuis brilhantes tinham desaparecido, substituídos por um vermelho opaco. E sua postura tinha mudado.
Ela não se movia mais com graça e comando.
Ela se movia como se algo estivesse dentro dela. Algo furioso.
Karax encarou, o peito apertado.
"Berserker," ele sussurrou.
A Rainha possuída olhou para ele, e a voz que saiu de sua boca não era mais dela.
"Insetos fracos," rosnou Berserker. "Vocês estragaram tudo."
Ninguém se mexeu.
Karax não conseguiu falar.
"Ele tinha você," grunhiu Berserker. "Ele era perfeito. Um verdadeiro guerreiro em formação. Eu lhe dei o caminho. Ele deveria me entreter, e talvez se tornar meu sucessor."
A cabeça da Rainha tremeu, depois endireitou-se.
"Mas você o tornou fraco."
O tom de Berserker escureceu. A raiva transbordava entre cada sílaba.
"Ele viu seus rostos patéticos. Seus corpos trêmulos. E teve pena de vocês."
Ela—não, Ele— avançou.
"Deveria ter conquistado essa colônia. Matado cada um de vocês. Mas agora decidiu nunca mais invadir, a não ser que do outro lado o provoquem primeiro."
O Berserker hesitou, rosnando.
"Ele recuou. Por sua culpa."
Nenhuma formiga se moveu. Nem uma sequer.
Karax tentou dar um passo à frente.
Ele não conseguiu. As pernas se recusaram a obedecer.
Não era medo. Era algo mais profundo, algo ancestral.
Eles nasceram para proteger a Rainha.
Não foram feitos para lutá-la.
E agora… ela era inimiga.
O sorriso do Berserker distorceu-se ao longo das mandíbulas da Rainha. "Se ele não vai se tornar a arma que eu queria, farei vocês pagar o preço por isso."
Ele avançou.
A primeira formiga morreu sem nem piscar, vítima de um corte brutal no peito.
Depois a segunda.
E a terceira.
A câmara ficou vermelha.
Gritos. Estalos. Sangue.
A Rainha—possessa e implacável—moveu-se através delas como uma tempestade. Não deixou escapar nenhuma.
Karax ficou paralizado.
Ele quis se mover.
Precisava.
Mas algo dentro dele quebrou.
A Rainha era tudo. O centro da colônia. Sua mãe. Sua voz. Sua vida.
Agora ela era o braço da morte.
Formiga após formiga caiu. Guerreiros veteranos. Guardiãs de cria. Até as rainhas capturadoras. Nenhum foi poupado.
Arelas tentou pará-la. Um golpe conseguiu, antes de sua cabeça ser esmagada.
Karax deu um passo vacilante pra trás.
Seu coração acelerava.
Por que isso estava acontecendo?
Pela sua casa?
Por que agora?
Alguns momentos depois, a Rainha virou-se em direção a ele.
Ele não levantou as garras.
Não tentou desviar.
"Hah, campeão? Olha pra você, inseto. Está tremendo enquanto seus irmãos e irmãs estão sendo massacrados. Por isso é que não quis sujar minhas mãos com sangue fraco como o seu."
Mas agora o Berserker estava furioso.
Ela perfurou o abdômen de Karax com um golpe limpo, rompendo suas entranhas.