
Capítulo 595
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Karax não olhou para o Berserker.
Ele não podia.
Seus olhos estavam fixos na 'Rainha' enquanto ela se afastava.
Não houve hesitação em seus passos. Ela não se virou para olhar para ele ou para seus filhos.
Então, realmente, não sobrou mais nada dela. O berserker a matou e assumiu seu corpo, exatamente como as lendas diziam que ele podia fazer.
Karax jazia coberto de sangue.
Sua corpo, alma, Núcleo, Semente da Existência e até Consciência haviam sido destruídos pelo Berserker.
Os Elementais tinham um poder aterrador que podia eliminar tudo.
Ao redor de Karax, a câmara estava cheia de corpos. Seus irmãos, irmãs, soldados, cuidadores. Toda a sua colônia. Todos mortos.
Suas mandibulas pendiam. Sua respiração era superficial, entrecortada. Ele ainda estava vivo, mas por pouco.
É aqui que eu morro?, pensou ele, com o olhar fixo na poça de sangue que se formava sob ele.
É assim que eu morro? Sem proteger ninguém?
Ele não esperava uma resposta. O Berserker já tinha partido, sem dizer mais nada. Não havia zombaria, nem discurso de vitória ou força. Apenas raiva pura, seguidas de indiferença, como se perder tempo com formigas fosse algo abaixo dele.
Como se fossem insetos destinados a serem esmagados sob os pés.
Karax permaneceu ali, imóvel.
A dor agora era difusa, quase distante.
O que mais o consumia era o peso do fracasso apertando seu peito.
A Rainha tinha desaparecido. Não morta — apenas… levada. Usada.
Não há como explicar como se sente, assistir às mãos dela devastar seus filhos, ouvir sua voz distorcida com a fúria de um monstro que não pertencia ao mundo deles.
Sua mente vagava entre memórias. Sua primeira batalha. O dia em que foi nomeado Campeão. O juramento que fez.
E então, a imagem de seus companheiros caídos ao lado dele o trouxe de volta ao presente.
Ele piscou lentamente. Sua mente começava a se desfazer nas bordas.
Mas então, algo se moveu.
Não veio de fora. Veio de dentro.
O calor, suave no começo, quase como um sopro, cresceu.
Era vida.
O calor fluía como a corrente constante de água.
Um fluxo de luz azul surgiu ao seu redor, serpentando suavemente pelo ar.
Karax não se mexeu. Simplesmente assistiu.
O fluxo — o Tesouro Sagrado dado a ele pela Rainha — envolveu-o como um abraço de mãe.
Sua Semente da Existência, fragmentada durante a carnificina, pulsou timidamente. Então, uma a uma, suas rachaduras começaram a desaparecer.
Sua consciência, quase aniquilada, começou a se refinar novamente.
Ele inspirou, lentamente. Desta vez, seu peito não doía. Seus membros não tremiam mais.
O Tesouro Sagrado tinha insuflado vida nele.
Karax se levantou. Seu corpo ainda exibia feridas da batalha, mas algo havia mudado. Ele se sentia… completo, vivo.
Sentia-se mais forte.
Como se tivesse renascido.
Ele olhou ao redor da câmara mais uma vez.
Nada havia mudado.
Os corpos ainda estavam lá. O sangue ainda estava fresco. O silêncio ainda era pesado.
Mas seu olhar já não estava mais carregado pelo choque.
Ele via cada rosto. Cada camarada. Cada vida que tinha sido ceifada.
E desta vez, ele não desviou o olhar.
Krelas. Mera. Thiln. Nomes que vinham um após o outro. Alguns com os quais lutou ao lado. Outros, que apenas viu de passagem. Mas todos faziam parte de sua colônia.
Eles eram família.
E todos morreram sem chance de se defender.
Ele se levantou lentamente, deixando seu peso repousar novamente sobre as pernas. O Tesouro Sagrado pulsou antes de retornar ao seu esconderijo dentro dele.
Suas mãos abriram e fecharam. Sua respiração agora estava firme.
Isto…
Isto era uma segunda chance.
Karax deu um passo à frente. Desta vez, suas pernas não vacilaram.
Ele atravessou a câmara, passando pelos mortos, em direção à parede onde antigas gravações estavam feitas. Eram marcas de vitórias passadas e de guerreiros honrados.
Colocou uma mão na pedra. Estava fria, áspera e familiar.
"Falhei com todos vocês", disse em voz baixa. "Não fui forte o suficiente quando importava."
As palavras pesaram no ar, mas eram sinceras.
Ele se virou para a entrada da câmara. Estava vazia e silenciosa.
E, ainda assim, naquele silêncio, seu propósito tinha retornado.
Zagreus.
Berserker.
E Morto Sem Nome.
Foram eles que responsáveis pela carnificina que acabara de acontecer.
Zagreus tinha invadido suas terras, iniciando a cadeia de conflitos.
Berserker havia possuído sua Rainha e realizado a matança.
E Morto Sem Nome, ele trouxe o Berserker aqui, mesmo que indiretamente. Sua presença, sua sede por poder, sua retirada… eram a fagulha.
Karax cerrava os punhos.
Não se importava mais com desculpas.
Se Morto Sem Nome quis ou não, ele trouxe ruína para eles.
"Todos vão pagar", sussurrou Karax.
Ele não gritou, nem brigou.
Simplesmente aceitou.
O Tesouro Sagrado — a bênção da deusa da Primavera e da Vida — o manteria vivo. Com ele, até a morte não conseguiria segurá-lo.
Então, agora, o único caminho era seguir em frente.
Se tornar mais forte. Encontrá-los. E acabar com eles. Um por um.
Karax não sabia quanto tempo ia levar. Não sabia no que teria que se transformar. Mas a decisão estava tomada.
Ele lançou um último olhar para a câmara atrás de si.
Depois, virou-se e partiu.
…
Visão de Zagreus
Zagreus corria pela floresta.
Ao contrário do que Karex disse, ele não era uma criatura humanóide monstruosa.
Ele era um humano de verdade.
As árvores passavam por ele embaçadas. Seu terno preto ajustado ao corpo, e o brilho vermelho em seus olhos nunca se apagava.
Um polvo eldritch flutuava ao seu lado, acompanhando seu ritmo sem esforço.
"Você tem correr sem parar", dizia. "Qual o motivo dessa pressa?"
"A presença que surgiu e desapareceu no círculo externo ontem… voltou", disse ele.
O polvo inclinou levemente a cabeça. "Quer dizer o Berserker?"
"Sim, essa é minha chance. Ele finalmente apareceu."
Não disse mais nada.
O vento passou por seu rosto enquanto continuava em movimento.
Ele não ligava para o barulho nem para o rastro que deixava para trás.
O que importava agora era chegar até a fonte dessa presença antes que ela sumisse de novo.