
Capítulo 371
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo encarava as reencarnações de seus pais.
A visão congelou seu sangue.
Seu peito se apertou, e por um momento, até respirar parecia uma tarefa hercúlea.
"Mira e George. As pessoas que transmitiram minha batalha contra o Minotauro."
A compreensão despertou uma emoção nele. Medo.
"Se eu não tivesse interferido…"
Neo derrotara o Minotauro, o que fez uma Janela de Grau Tigre abrir acima do Labirinto do Minotauro.
A Janela tinha aprisionado um Necromante de Grau Mitico.
No enredo original, onde Neo não existia, a Janela de Grau Tigre abriria alguns anos depois.
O Necromante teria emergido.
Ele teria sequestrado algumas pessoas.
Mira e George, as reencarnações de seus pais, estavam entre elas.
O Necromante usaria de suas vidas para alimentar a Semente do Espírito que ele cultivava.
'O destino de George no romance era uma morte brutal nas mãos do Necromante.'
'Ele, como outras pessoas, foi torturado por meses para que a Semente do Espírito pudesse se alimentar de muitas emoções negativas.'
A experiência traumática teria despertado Mira para seu Sangue Divino.
'Seu despertar a ajudou a tomar o controle da Semente do Espírito do Necromante e matá-lo.'
A Semente do Espírito era uma de Trevas.
Ela teria corrompido sua mente após se ligar a Mira.
"A mente de Mira quebrou completamente no romance, e ela se tornou uma das futuras grandes vilãs."
As mãos de Neo se cerraram em punho.
Se…
Se Neo não tivesse interferido, as reencarnações de seus pais enfrentariam um destino mais horrendo que a própria morte.
As palavras de Bael ecoaram na mente de Neo.
Quanto mais próximas as reencarnações de seus pais estiverem uma da outra, pior será a morte que sofrerão.
Mira e George eram um casal com intenções de se casar.
Estavam bastante próximos.
A maldição teria matado seus pais após encharcá-los de desespero.
Somente a ideia de seus pais sofrerem fazia suas emoções saírem do controle.
Neo parou de usar a habilidade Invasão Mental.
O cenário ao seu redor voltou — o corredor escuro, o silêncio opressivo e o olhar zombeteiro da Esfinge.
"Como foi?" zombou a Esfinge. "Já que você parece saber uns pedaços do futuro, deve saber o que aguarda essas reencarnações."
A Esfinge inclinou a cabeça.
Um sorriso apareceu em seu rosto.
"Como é sentir que você salvou as vidas das reencarnações dos seus pais sem perceber?"
Neo permaneceu em silêncio.
Ele se sentia horrível, mas não daria satisfação à Esfinge dizendo como estava se sentindo.
Enquanto Neo ficava quieto, a voz da Esfinge ecoou novamente.
"Agora que você tem sua resposta, que tal aceitar minha missão?"
"…."
Neo queria aceitar a missão.
Mas não confiava na Esfinge, especialmente pelo motivo pelo qual ela queria aquilo.
"Ora, vamos lá, você jura que vai recusar minha proposta de verdade?"
A Esfinge teleportou-se na sua frente.
"Você precisa da minha ajuda para salvar a Rainha Tiranete. Você devia saber que não consegue salvá-la sozinho," disse, com um sorriso mais amplo.
"Eu posso—"
"Hahahahaha! Sério que está dizendo que pode salvá-la? Como? Com 'esses Conceitos'?"
A risada da Esfinge ecoou novamente.
Como administradora do Registro Akáshico, ela podia acessar a Tela de Status de Neo.
Ela tinha visto seus Conceitos anteriores de Vida e do Elemento Sagrado.
"Seu Conceito de Água é 'Água Nihil.'
"Para Vida, era 'Decadência,' e para Sagrado, 'Preservação.'"
A voz da Esfinge esbanjava desprezo.
"Todos esses Conceitos têm uma natureza destrutiva. Porque assim você é. Porque foi assim que viveu, Neo Hargraves."
"Por mais que treine, não consegue mudar sua essência," cuspiu a Esfinge. "Você não vai mágicamente adquirir um Conceito que permita curar a Tiranete."
A mente de Neo retornou ao mundo que Velkaria destruiu.
Um mundo sem esperança, cor ou vitalidade.
Não havia vegetação, nenhuma vida.
Nada restou.
A fonte da vida, a água, havia desaparecido com tudo.
A vida nunca mais retornaria ao mundo.
Neo vivenciou esse mundo desolado por séculos, caminhando por terras áridas e vendo até a menor esperança de vida ser apagada.
Essa foi a origem de seu Conceito do elemento Água.
Água Nihil.
A Nihilidade da Água.
Ela criou um domínio ao redor de Neo onde nenhuma água existia, transformando seus arredores em um deserto estéril.
Era especialmente útil contra semideuses e monstros de Afinidade Água.
"Seus Conceitos? Eles não salvam ninguém. Quer ver?"
As palavras da Esfinge cortaram fundo na mente de Neo.
"Água, posso entender que você não associa ela à cura como a maioria das pessoas faz, mas 'Decadência' para Vida?"
A Esfinge riu.
Conceito de Decadência.
Permitiria a Neo extrair a força vital de seu alvo e transformá-la em uma força de vida venenosa — a Decadência — com a qual poderia atacar outros.
Assim Neo via a vida.
Decadência.
Desde o dia em que nasceu, começaram a caminhar rumo à própria morte.
Mesmo que tivessem sucesso, mesmo que fossem felizes.
O fim nunca mudava.
Eles morreriam.
Se não hoje, amanhã; se não amanhã, anos depois.
O olhar de Neo permanecia fixo no chão enquanto a voz da Esfinge se transformava em sussurro em seu ouvido.
"Vida—viver—é apenas uma decadência que termina em morte. Isso não é como você encara o mundo?"
Neo apertou a mandíbula.
Ele sabia que seus Conceitos eram distorcidos.
Viver não era decadência.
Só porque alguém iria morrer, não tornava a vida sem sentido.
A vida era uma jornada.
Era algo para ser aproveitado.
Neo conhecia isso.
Mas não podia evitar.
A vida que viveu não era algo que pudesse mudar.
"Além disso, 'Preservação' para Sagrado? Parece bom, mas sabendo como você usaria isso…"
A Esfinge fez uma pausa, deixando a zombaria entrar antes de continuar.
"É nojento."
Os punhos de Neo se cerraram ainda mais.
As palavras da Esfinge penetraram nele como lâminas.
Preservação permitia Neo manter o estado de qualquer ser.
Resumidamente, suas feridas não piorariam.
O Conceito de Preservação o 'preservaria'.
Normalmente, tal Conceito seria útil para salvar alguém com ferimentos fatais até que fosse curado por alguém.
Porém, o Conceito de Neo tinha um uso diferente.
Preservação e Morte Eterna.
O Sono Eterno, a Morte de Neo, colocaria qualquer um em Sono Eterno.
Porém, essa pessoa morreria fisicamente após algum tempo.
Afinal, dormir não impediria seu envelhecimento.
Seus corpos envelheceriam.
Dormir eternamente evitaria que consumissem comida e os enfraqueceria.
Levando-os à 'morte' por inanicação ou envelhecimento — uma morte natural, que não era de Neo.
Essa 'morte' era uma fuga da Morte Eterna de Neo.
"Sua Preservação era uma prisão, não era?"
"Ela impediria que alguém morresse e escapasse da sua Morte, Neo Hargraves."
"Preservação obrigaria seus prisioneiros a 'viver' eternamente sob sua Morte," zombou a Esfinge, ironizando seus Conceitos.
Logicamente, seus Conceitos tinham uma sinergia muito elevada.
Porém….
"Seus Conceitos não salvam ninguém, Neo Hargraves. Se você não aceitar minha ajuda, não conseguirá salvar o Tirano."
A voz da Esfinge era sedosa.
Mas cada palavra trazia uma ponta de malícia.
Parece que ela gostava de ver Neo preso nesse conflito interno.
"Ah, esqueci de uma coisa," disse a Esfinge. "Alguém como você não deveria dar valor à vida."
"É isso que seus Conceitos dizem."
"Mas é estranho. Você quer salvar o Tirano. Por quê?"
"Você—" Neo abriu a boca, mas a Esfinge o interrompeu.
"Espere, espere, deixa eu adivinhar. Não estrague a surpresa."
A Esfinge cruzou os braços.
Inclinou a cabeça como se refletisse profundamente.
"Ah, agora entendi!"
Olhou para ele com um sorriso tão amplo que quase parecia sinistro.
"Você tem medo de ficar sozinho! Por isso quer salvar a Rainha e os outros."
"Deixe você falar, só pra ouvir o que tem a dizer, mas sério mesmo?"
Neo finalmente falou.
"Medo de ficar sozinho? Que tipo de besteira é essa? Por que eu teria medo de ficar sozinho?"
Ele não pôde deixar de balançar a cabeça internamente.
'De jeito nenhum vou cair nessa isca.'
As palavras da Esfinge, como sempre, tinham um propósito.
Era descobrir se Neo era a pessoa que Daniel queria salvar.
Ao contrário do que ela tinha dito a Neo, a Esfinge havia na verdade encontrado algumas pistas sobre quem Daniel tentava salvar.
As pistas não vinham dos Registros Akáshicos.
Eram das anotações de Daniel.
Ele esteve sozinho por séculos, lutando.
Quanto sofrimento e solidão ele deve ter suportado?
Tudo pelo mundo.
Por que alguém que sacrificou tudo para proteger o mundo deveria morrer em troca?
Tenho que salvá-lo. Preciso fazer isso.
Se Neo fosse a pessoa de quem Daniel falava em suas anotações, significava que ele vinha lutando sozinho há séculos.
Justamente agora, a Esfinge provocava Neo.
Ela dizia que ele tentava salvar seus amigos porque não queria ficar sozinho. Que ele buscava companhia.
'Se eu tivesse reagido, teria revelado sem querer que fui eu quem salvou o mundo, e aquele que Daniel tentava salvar,' pensou Neo.
Todos os versos da Esfinge eram uma armadilha para tirar uma resposta de Neo.
"Por que você está em silêncio?" Neo de repente perguntou à Esfinge, quebrando o silêncio.
"Só estou pensando nas coisas," respondeu a Esfinge por fim, questionando se Neo sabia do que ela falava, ou se ele não era a pessoa que ela procurava. "Bem—"
"Aceitarei sua proposta," interrompeu Neo, cortando a fala da Esfinge no meio.
A Esfinge levantou uma sobrancelha.
"Pensei que você estivesse desconfiado de mim?"
"Ainda estou. Mas isso não muda o fato de que cumprir sua missão também me ajuda."
O lar dos monstros era um verdadeiro tesouro para Neo, e ele não ia deixar essa oportunidade escapar.
"Que bom," respondeu a Esfinge com um sorriso. "Você pode ir encontrar seus pais e arrumar suas coisas. Volte me procurar após estar preparado."
"E as outras duas respostas?"
"Não se preocupe, querido." A Esfinge acenou com a mão, com um sorriso normal — pela primeira vez. "Não vou voltar atrás nas minhas palavras."
"Vou te contar o que você quer saber quando você voltar a me procurar."