
Capítulo 346
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Henry não demonstrou muita reação.
Continuou de olho na tela e abriu a boca.
"É, e aí?"
"Nosso pai era Hades e nossa mãe era Perséfone."
Henry parou.
Seus dedos travaram sobre o teclado e ele levantou os olhos para olhar para Neo.
A tensão na sala ficou ainda mais pesada.
"Quem te contou isso?"
" Isso não importa. O que quero saber é se você sabe do que estou falando?"
"... Eu não sei."
"Acho que sabe sim. Dá pra perceber pela sua reação."
Neo se inclinou mais perto.
"O que quero saber é por que nossos pais – que eram deuses – viveram e morreram como mortais, e por que diabos ninguém tinha ideia de que eram deuses?"
A voz de Neo foi cortante.
"Pelo que sei, todo mundo da família de Hefesto e seus conhecidos costumavam tratá-los como demigods comuns, sem despertar."
"…."
Henry permaneceu em silêncio.
Olhou para Neo com um olhar indecifrável.
"Vai me dar respostas? Ou vou tirar tudo do meu pai pessoalmente quando o encontrar no Submundo?"
"Você consegue chegar até o Submundo tão facilmente?" questionou Henry de repente, surpreso.
"Sim, agora sou uma Semideusa da Morte. Mais ou menos," disse Neo, lembrando que o período em que ele virou um Ceifador foi apagado após várias regressões de Daniel.
"Mais ou menos?" perguntou Henry, percebendo a nuance nas palavras dele.
Sua sobrancelha se franziu ligeiramente.
"Não sei direito também. Preciso encontrar outros Ceifadores e perguntar a eles sobre minha posição."
"Mas isso não importa agora.
"Por que nossa mãe e nosso pai agiam como mortais, se eram deuses? E por que nós dois somos assim?"
O silêncio de Henry era ensurdecedor, quebrado apenas pelo sutil tique do relógio na parede.
Os olhos de Neo queimavam de frustração enquanto ele insistia.
"Tenho quase nenhum talento, e você era fisicamente fraco na infância e tinha dificuldades para despertar sua Energia Divina."
"Não deveríamos ter mais talento, se nossos pais são deuses?" questionou Neo.
Henry fechou o laptop.
O clique suave da tela se desligando ecoou na sala silenciosa.
Ele pegou outro cigarro e acendeu.
O cheiro forte de fumaça se espalhou no ar enquanto ele dava uma tragada.
A luz tênue do abajur trepidou levemente, lançando sombras longas pela sala.
"Acho que chegou a hora de te contar essas coisas."
Ele se levantou e foi até a janela.
Seus olhos estavam fixos na Janela do Vazio #8477 que se avistava ao longe, no horizonte.
"Primeiro, nossos pais nem sabiam que eram deuses. Eles nasceram humanos e viveram como humanos."
Henry deu mais uma tragada e fechou os olhos.
"Só recuperaram as memórias na hora da morte."
"Na hora da morte?"
"Sim."
O olhar de Henry se tornou distante, enquanto ele rememorava os últimos momentos de seus pais.
"Você talvez não lembre disso porque... vocês estavam… feridos naquela época."
Chamar Neo de 'ferido' era pouco.
Ele tinha estado à beira da morte, graças à corrupção do Vazio.
"Depois que a Entidade do Vazio matou todos, ela se dirigiu até nós."
"Se não fosse pelo ferimento fatal do pai, ela também teria nos assassinados," explicou Henry.
"Como eles recuperaram as memórias?" perguntou Neo.
"Não sei," respondeu Henry.
Neo franziu a testa.
Ele se lembrou do encontro entre Aides – uma reencarnação de Hades – e Zeus, que vira na terceira visão da Esfinge.
Aides tinha dito algo como 'nos encontraremos novamente' na ocasião.
Parece que Aides sabia que ele reencarnaria.
'Em ambos os casos, parece que pai sabe quem é durante os momentos de morte.'
'Será que só consegue recordar sua identidade de deus quando está prestes a morrer?'
Henry não percebeu a confusão de Neo.
Ele continuou.
"Enquanto o pai segurava a Entidade do Vazio, a mãe nos curou e nos tirou do Vazio #8477 e..."
A voz de Henry vacilou um pouco.
Ele deu mais uma tragada.
Suas mãos tremeram um pouco.
"Ela morreu assim que nos colocou em segurança."
"E o pai?"
A voz de Neo saiu quase sussurrada.
Henry balançou a cabeça.
As palavras que não conseguiu dizer ficaram no ar, como um espectro.
Ele também não sobreviveu.
Voltando-se para a janela.
"A razão de acharmos que temos pouco talento é que nossos pais eram mortais, pelo menos até recuperarem suas memórias," disse Henry.
O silêncio tomou conta da sala.
Neo repassou as palavras de Henry.
Seu cérebro fervilhava.
'Tem algo errado aqui.'
Quando Neo estava no Mundo das Sombras, os Ceifadores do Submundo disseram a Daniel que Hades sempre ficava dentro do castelo para proteger.
Se o pai de Neo estava no palácio no Submundo, como ele estava reencarnando no mundo dos vivos?
'Será que o pai tem uma forma de estar em dois lugares ao mesmo tempo?'
Neo guardou esses pensamentos para si.
"É só isso que você sabe?"
"Sim."
"Obrigado por responder às minhas perguntas."
Neo se levantou para sair.
O ranger da cadeira soou mais alto do que o normal na sala silenciosa.
Ele esperava que Henry dissesse algo como 'olha só essa criança, saindo logo depois de conseguir o que queria, mesmo falando que veio aqui porque sente minha falta.'
Contrariando as expectativas, Henry permaneceu em silêncio.
Seus olhos seguiram Neo enquanto ele se dirigia à porta.
Depois que Neo saiu, Henry deu uma longa respiração.
"Droga," murmurou baixinho.
Ele massageou a cicatriz que atravessava seu rosto.
O silêncio foi rompido quando Henry de repente fez uma expressão de reprovação.
"Cale a boca. Não preciso de suas lições morais. Eu menti pra ele, mas foi pro próprio bem dele."
Sua voz carregava irritação, direcionada ao ar vazio.
"Droga, você fala tanto que dá dor de cabeça."
O ambiente parecia ficar mais frio.
"Por que você está até conversando?"
Ele fez uma pausa.
Sua expressão se fechou, como se estivesse ouvindo uma voz que só ele podia ouvir.
"O quê…?"
"Como assim, você sentiu uma presença parecida nele?"
A voz de Henry ficou mais afiada.
Seus olhos foram em direção à porta por onde Neo saíra momentos antes.
"Tem certeza que era algo parecido com você?"
Ele não espreitou o Espaço Sombrio de Neo, pois respeitava sua privacidade.
Depois de ouvir 'isso', parecia acreditar que Neo estava escondendo algo em seu Espaço Sombrio.
"Tudo bem. Se ele estiver escondendo algo, não vou me importar. Ele já é grande o suficiente pra decidir por si mesmo," disse para o ar vazio.
…
Neo caminhou pelo corredor longo.
Sua mente não parava de voltar ao que tinha ouvido de Henry.
Ele concluiu duas coisas:
'Parece que nossos pais só recuperam as memórias na hora da morte.'
'Eles não recuperam toda a força. Se pudessem, duvido que não teriam conseguido matar a Entidade do Vazio que destruiu a família Hefesto.'
Os pais de Neo foram derrotados pela Janela do Vazio.
Janela do Vazio #8477.
Visível de qualquer ponto do continente.
Muitos semideuses entraram nela, prometendo vingar a família Hefesto.
Ninguém voltou.
A Janela do Vazio permanecia impenetrável até hoje.
Porém, diferente das janelas comuns, que crescem com o tempo, seu tamanho nunca aumentou.
Os pensamentos de Neo pararam ao entrar no quintal da mansão.
O som suave da pedrinha sob seus pés se misturou ao aroma terroso da floresta ao redor.
Árvores imponentes circundavam a área.
Seus amigos estavam numa clareira à frente.
Os rostos deles estavam tensos.
Carregavam armas e usavam equipamentos de combate sofisticados.
O olhar de Neo se fijou em Felix, que segurava uma arma firmemente nas mãos.
"Você já está de posse da Arma da Alma Verdadeira?" perguntou.