Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 138

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Dois meses depois

— É hora — murmurou Charlotte.

Enquanto estava em seu escritório, seu olhar fixava-se em Neo, que estava com a Esfinge.

Neo morreria de desidratação terminal hoje.

Isso encerraria de forma forçada a quarta visão.

— Se íamos fazer isso, não teria sido melhor matá-lo antes, para que pudesse sair da quarta visão? — perguntou a Esfinge.

Ela estava em sua alcova, ao lado de Neo.

— Não, não podemos matá-lo.

— Se o Registro Akáshico está mostrando a ele uma prova que precisa cumprir em uma única tentativa, matá-lo mais cedo atrapalharia — respondeu ela.

Claro que o oposto também poderia ser verdade.

Neo talvez estivesse apenas preso na quarta visão.

Após cuidadosa consideração, decidiram não matar Neo nem curá-lo, para garantir que ele vivesse mais tempo.

Esperariam até que morresse de morte natural.

— Ainda acho que não devemos deixá-lo reviver.

— O Registro Akáshico deve ter um motivo para matá-lo — afirmou Charlotte.

— Não faz diferença — suspirou Charlotte. — Não podemos arcar com as consequências se ele morrer.

— A Tirana?

— Sim, ela mesma.

— Já é uma dor de cabeça vê-la acordar à meia-noite toda noite, pensando se deve te atacar ou não — comentou a Esfinge, com um sorriso nervoso.

A Esfinge deu um sorriso nervoso.

Ela não deveria ter perguntado.

Agora podia imaginar Elizabeth vindo atrás dela.

…!

Neo se mexeu.

Charlotte e a Esfinge rapidamente direcionaram seu foco para Neo.

Seu pulso começou a parar lentamente.

Ele estava morto.

A Esfinge fechou os olhos e os reabriu alguns momentos depois.

— A quarta visão acabou. Confirmo isso — declarou.

Charlotte soltou um suspiro de alívio.

Ela tinha medo de que o Registro Akáshico mantivesse a mente de Neo presa mesmo após sua morte.

— Agora só nos resta esperar que ele reviva — afirmou.

Neo apareceu no Submundo.

Seus olhos estavam vazios.

O tempo que passou na quarta visão, preso no corpo do homem, incapaz de fazer qualquer coisa, quebrou seu senso de identidade.

Ele não era mais do que uma casca vazia agora.

Seu senso de si mesmo morreu há eras.

A alma de Neo começou a desmoronar.

Quando ele estava prestes a desaparecer, tornando-se parte do Submundo para sempre, um poder desconhecido o segurou.

Diferente do poder que reprimia seu ego nas visões, esse era reconfortante e gentil.

Ele puxou Neo para um vazio escuro e vazio.

Neo…

Mestre…

Acorde….

Obitus tentou falar com Neo.

Ele não entendia o que estava acontecendo.

Sempre retornava da visão, mesmo se o mago lhe causasse sofrimento, mas desta vez não.

A espada — cuja alma se fundiu com a de Neo — tentou estimular a consciência dele antes que ele se desfizesse em nada.

Ele estava preocupado.

Neo morreria imediatamente novamente, mesmo se fosse revivido por Imortal, se seu senso de self desaparecesse completamente.

De repente, o poder desconhecido voltou a surgir.

Obitus percebeu alguém se aproximando.

Ele emitiu um rugido de auras para avisar a mulher.

Ela sorriu.

Seus passos eram leves.

Flores floresciam onde ela passava.

Era como se fosse a mensageira da vida.

A Aura de Obitus não teve efeito algum sobre ela.

Ela ficou diante de Neo.

— Ainda bem que consegui te trazer aqui antes que enfrentasse a morte do vazio — disse ela.

Neo reagiu à aparição da mulher.

— Melinoë? — perguntou ele.

Ele ainda não estava curado.

Seu corpo apenas se movia como um robô ao receber estímulos externos.

— É mãe, para você — respondeu ela.

A mulher segurou o rosto de Neo com as mãos.

Ela o puxou mais perto e deu um beijo na testa dele.

Uma energia revigorante fluiu para seu corpo.

Ela atingiu o canto mais profundo de sua alma.

Neo foi despertado com um sobressalto.

Ele respirou fundo, piscou e olhou ao redor.

De repente, estava sentado ao lado de um lago em uma floresta.

O ar era revigorante, as árvores verdesjantes e a água límpida.

— É a estação da primavera — disse ela, com a voz suave de Melinoë.

Ela se sentou ao seu lado.

O olhar de Neo nunca saiu dela.

— Quem é você? Não pode ser Melinoë — afirmou ele, desconfiado.

Ela torceu a orelha dele.

Neo franziu a testa.

Porém, não gritou ou reclamou da dor.

— Tsk, que sem graça — comentou ela.

— Pode soltar minha orelha agora? — pediu ele.

— Essa não é maneira de falar com sua mãe — retrucou ela.

— Que diabo você quer dizer com mãe? Melinoë morreu há eras — respondeu Neo, irritado.

Ela torceu novamente sua orelha e deixou o rapaz ir embora.

Neo massageou a orelha.

A mulher era forte.

De outra forma, não conseguiria fazer um simples torcicolo na orelha causar dor assim.

'Ela também me salvou do vazio da morte.'

'Ela não é uma pessoa comum.'

Neo não ficou muito alarmado.

Era evidente que ela não tinha intenções malévolas.

Ele agradecia por ela ter o salvado.

O nível de Imortal dele era muito baixo para ressuscitá-lo de uma morte no vazio.

Embora seu corpo físico tivesse sido revivido, seu senso de identidade permaneceria morto.

— Quem é você? — perguntou Neo.

— Ah, meu filho, nem reconhece a própria mãe — ironizou Melinoë, com uma expressão dramática de tristeza.

Ela fez um gesto exagerado de segurar o rosto dele, como se estivesse triste.

Esperou sua reação.

— …

— …

— Não é graça — reclamou Neo.

O rosto de Melinoë ficou vermelho como beterraba.

— V-você!

— Tá bom, vamos ver se consegue fingir que não me reconhece — desafiou ela, com um sorriso frio.

A aparência dela mudou.

Transformou-se na mãe de Neo Hargraves.

— Quer dizer, sua mãe — corrigiu ela, com um sorriso malicioso.

…!

— Ela leu meus pensamentos! — pensou Neo.

Seu cérebro entrou em sobrecarga.

Ele estava quase se preparando para lutar quando o poder desconhecido o empurrou para baixo.

Não conseguiu puxar Obitus nem ficar de pé.

— Enfim, como você reconheceu Melinoë? — perguntou Neo, tentando controlar as emoções.

Não conseguiu impedir que as memórias surgissem novamente.

O que quer que ela tivesse feito, ela selou suas memórias para a eternidade.

Ele ainda se lembrava delas.

Porém, agora, parecia que assistia a um filme de um homem flutuando no vazio por toda a eternidade, em vez de vivenciar a experiência.

A quarta visão tinha sido interminável.

Mas agora, era o momento dele.

— Entendi. Foram as visões — concluiu ele.

'Ela leu meus pensamentos de novo.'

'Essa cabra atrevida—'

— Neo, talvez você devesse moderar nos palavrões se não quer levar uma surra — disse ela, com um sorriso frio.

Neo baixou o olhar involuntariamente.

Seu corpo tinha medo daquele sorriso.

Seu corpo se lembrava das agressões que levava quando criança, mesmo não lembrando conscientemente.

'Ela também refez todas as minhas memórias?'

'Só assim posso entender por que meu corpo está agindo assim.'

— Vamos jantar — propôs ela, abrindo a caixa que carregava.

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