
Capítulo 137
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo acordou no corredor com um sobro.
Os anos que passou na visão foram apenas um instante na realidade.
Ele apertou o peito.
"O que… o que foi aquilo?"
"O início da Era dos Deuses."
"Foi a primeira batalha entre o Todo-Poderoso Rei dos Deuses, Zeus, e o Pai do Tempo, Cronos."
Neo ficou profundamente abalado.
A terceira visão mostrou-lhe coisas além da sua imaginação mais selvagem.
Ele não estava em um mundo diferente.
Este era o seu mundo, apenas muito no futuro após a chegada do Apocalipse.
"Agora, a pergunta."
"Cronos fez a coisa certa ao matar Melinoë?"
"Antes de decidir, deixe-me te contar: Cronos perdeu sua família — seus amigos, que eram como irmãos para ele — no Apocalipse causado por Melinoë."
"Pode parecer clichê, mas Cronos não a matou por um senso de justiça."
"Ele buscava vingança pelos irmãos."
Neo mordeu os lábios.
Cronos — Francis — fez isso por Neo e Klein.
Ele queria dizer que Cronos estava certo.
No entanto, as emoções de Deus não permitiriam isso.
A Esfinge riu baixinho.
"Parece que você não fica chocado pelo fato de que os Deuses foram mortais um dia, mas sim pela própria visão."
"Foi a dor do Grande Deus Zeus que te incomodou?"
Ela continuou falando.
"Então, você acha que Zeus tomou a decisão certa ao proteger sua irmã mesmo sabendo que ela causou a morte de bilhões?"
"Não esqueça que Zeus matou uma cidade inteira, numa raiva insana."
A Esfinge observava com curiosidade enquanto Neo lutava entre as opções.
Razão ou emoções.
Cronos ou Zeus.
Neo tremia.
Quando a Esfinge achou que Neo ia desabar, ele levantou a cabeça.
"Ei, sua vadia."
Ele olhou fixamente para a Esfinge.
"Comece a quarta visão."
"Tem certeza disso?"
A Esfinge percebia facilmente a bravata falsa de Neo.
"Nem eu sei o que há na quarta visão, nem posso saber."
"Os Registros Akáshicos vão te mostrar o seu desespero pessoal."
A Esfinge continuou, divertida.
"Quase ninguém sai ileso da quarta visão."
"Você realmente quer entrar nela?"
"Pode acabar perdendo a sua essência." explicou a Esfinge.
"Sim, quero entrar na quarta visão."
"Se é isso que deseja."
A Esfinge sabia que Neo toparia.
Eles sempre concordavam.
Sempre.
…
Neo folheava as páginas do diário.
[Dia 1: Eu… o último… de Hades. Mais… pessoas estão… Eu… quero falar…]
[Dia 2:… perdendo… os Clãs… já não…]
Muito conteúdo do diário estava rabiscado com uma raiva que parecia descontrole.
Apenas algumas palavras permaneciam inteligíveis.
As páginas estavam amassadas e um pouco úmidas.
[Dia 48:… minha culpa… derrotamos… Eu não consegui…]
Ele continuou folheando.
O número de páginas vazias aumentava conforme ele ia mais fundo.
[Dia 72:… forte… esmagadoramente… todos… caindo…]
[Dia 125: Perderam.]
[Dia 498: Não… vivo… só… eu… alongo…]
[Dia 1013: Quero morrer.]
[Dia 1014: Quero morrer. Quero morrer.]
[Dia 1015: Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer.]
[Dia 1016: Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer. Quero morrer.]
As entradas do diário de repente pararam.
Não havia nada, por mais que o homem virasse as páginas.
Justo quando parecia que não havia mais registros, ele chegou a páginas escritas.
[Dia 3679:… tentei de tudo… Imortal… não posso…]
[Dia 3680: Por favor, deixe-me morrer.]
[Dia 4115:… filho do raio… decapitado… seu… ainda luta… eu… último… vivo.]
O homem parou de folhear o diário.
Como se soubesse que era a última entrada.
Ele abriu a última página e escreveu uma nova linha.
[Dia 123.526: Essa é minha última inscrição. Gostaria de ter feito melhor.]
O homem se levantou.
Fechou o diário.
Seu rosto refletido no espelho mostrava seus olhos vermelhos como sangue, cabelo preto e a cabeça enfaixada.
Ele removeu as bandagens.
Cicatrizes feias e marcas de queimadura se revelaram.
O rosto original do homem era irreconhecível.
Ele se aproximou da porta e a abriu.
Maggots (larvas) por toda parte.
Eles tinham devorado tudo.
O mundo inteiro era seu banquete.
O homem olhou para o leste.
As nuvens de trovão que cobriam o céu já não estavam mais visíveis.
"Parece que o corpo da criança do raio também foi comida."
As larvas rastejavam em direção ao homem.
Ele não tentou detê-las nem fugir.
Não tinha mais para onde escapar.
As larvas o devoraram.
Sua carne se regenerou.
Elas o comeram.
Sua carne regenerou.
O ciclo se repetia.
O mundo foi destruído.
O homem flutuava no vazio, no meio do mar de larvas que o devorava vivo.
Ele continuava vivo.
Era imortal.
O tempo seguia passando.
Anos…
Décadas…
Séculos…
Milênios…
Éons…
Épocas…
Idades…
Éons…
Até a eternidade sem fim.
O homem não morreria.
Ele não poderia morrer.
Continuava vivendo, sozinho com seus regretos.
Se ao menos não tivesse falhado.
Se ao menos tivesse feito melhor.
…
"O que está acontecendo com ele?"
A Esfinge murmurou enquanto observava Neo.
"Por que ele não está acordando?"
Normalmente, levava alguns momentos para uma visão terminar.
No entanto, Neo passou um mês inteiro na quarta visão.
Ele não mostrava sinais de que ia terminar tão cedo.
A Esfinge segurou o queixo.
"Que tipo de visão precisa que ele passe tanto tempo nela?"
Diferente das outras, a Esfinge não tinha ideia do que iria acontecer na quarta visão.
Ela deixou Neo entrar porque queria saber qual decisão o Registro Akáshico tomaria.
Se Neo fosse perigoso, o Registro o mataria na quarta visão.
Se Neo fosse inofensivo, o Registro não faria nada que lhe prejudicasse.
"Parece que o Registro Akáshico decidiu eliminá-lo."
A Esfinge saiu do salão e desapareceu.
Decidiu deixar seu relatório final com o diretor.