
Capítulo 99
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
— Ou o que mais poderíamos fazer? — Neo revirou os olhos. — Pode entrar.
Christian o seguiu até o cômodo.
— Onde está a senhorita? — perguntou.
— Ela está jogando na sala… — respondeu.
Não havia ninguém na ampla sala.
Ele viu Leonora pela porta aberta.
…Ela dormia em seu quarto.
‘Ela está fingindo estar dormindo porque Christian veio? O que ele é, o pai dela?’
Neo entrou no quarto dela.
Preto ia acordá-la quando Christian o parou.
— Tudo bem. Não estou te culpando ou algo assim. Vocês são adultos. Não é minha decisão fazer suas escolhas de vida por vocês. — disse.
— Acho que você está entendendo alguma coisa errada. Ela estava acordada até agora— — começou Neo.
— Está tudo bem. Eu entendo. — interrompeu Christian.
— Você não entende nada. — retrucou Neo.
— Eu nem mesmo a conheço há muito tempo. Por que você acha que algo aconteceu entre… — começou Neo, mas desistiu ao perceber a expressão de Christian.
Era como se Christian estivesse olhando para uma criança que foi pega enquanto roubava um biscoito e agora tentava se justificar.
‘Será que foi assim que Amelia se sentiu quando menti sobre nossa relação para o irmão?’
‘Nossa, que sensação horrível.’
Christian deu um tapinha no ombro de Neo.
— A reunião de missão começa em meia hora. Por favor, esteja lá no horário. — explicou.
Assim que saiu do quarto, Leonora ergueu um pouco a cabeça.
— Ele saiu, né? — perguntou.
— … — respondeu Neo, respirando fundo.
‘Não bate nela. Não bate nela.’
Ele abriu a boca.
— Você não podia ter feito isso? Agora ele tem uma baita mal-entendido. — reclamou.
— Tudo bem. Christian costuma ser discreto, e mesmo que espalhe a história, não me incomoda. — disse Neo.
‘Mas me incomoda!’ — pensou.
Se soubessem que ele estava em um relacionamento com Leonora, não poderia ter um relacionamento de verdade!
Droga.
Neo não queria ficar virgem novamente nesta vida.
Ele rangeu a língua.
— Enfim, preciso ir. — afirmou.
— Você vai embora…? — questionou Leonora.
— Sim, tenho que fazer uma missão de nível S. — respondeu Neo, lembrando por que foi até o quarto de Leonora ontem.
Antes que pudesse perguntar, ela falou:
— Você… vai voltar? — perguntou ela com uma voz doce.
— Hã? O quê? — respondeu Neo, surpreso.
— Você ainda não terminou o jogo, né? — ela puxou a touca com a manga e falou numa voz baixa, quase um sussurro.
— Vai voltar pra terminar junto comigo? — ela sussurrou rapidamente.
Neo piscou surpreso ao ouvir.
Leonora gaguejou, rapidamente se corrigindo.
— Eu— quero dizer, não posso deixar você morrer numa missão antes de admitir que jogo melhor que você. — disse apressadamente.
— Entendi…? — respondeu Neo, atônito.
Não era tudo tão fácil assim?
— Dá uns minutos. Vou me arrumar e já volto. — disse Neo.
— Eu também preciso. — Neo passou o dedo no próprio rosto. — Acho que vou pra minha sala.
— Isso vai levar muito tempo. — ela respondeu. — Quer tomar bronca de novo por estar atrasada? Usa um dos banheiros aqui do meu dormitório.
— Não tenho roupa— — começou Neo.
— Usa a minha. — ela cortou, sem dar espaço pra negociação.
Por mais tímida que fosse, ela mostrava uma determinação incomum em certos momentos estranhos.
Neo usou a roupa dela.
Como Leonora não gostava de mostrar muita pele, usava roupas largas e de manga comprida, tipo calças e camisetas, diferente da maioria das meninas.
Era suficiente para Neo usar.
Depois de se lavar, saiu do quarto.
— Eu cheiro como ela. — falou, fazendo uma careta e esperando Leonora.
— Você não está muito acostumado com garotas? — Paimon falou de repente.
— …? — perguntou Neo, confuso.
— A professora, a garota do raio, e agora ela. Você parece bem experiente, mesmo sendo tão jovem. — comentou Paimon.
— Deve ser sua imaginação. — respondeu Neo, revirando os olhos.
Uma era uma tirana, outra uma louca que o esfaqueou com uma espada, e a última morava na lixeira.
Que ‘meninice’ tinha nelas?
Felix tinha mais atributos femininos do que elas juntas.
— Não vá tão fundo na negação, ou vai acabar se afogando. — riu Paimon.
Neo ficou exasperado com a brincadeira dela.
Leonora voltou em poucos minutos, vestindo novamente a hoodie e calças que escondiam toda a pele.
— Vamos… — chamou ela, com a voz desconfiada.
Ela caminhou atrás dele.
Enquanto desciam o corredor, Neo lembrou de algo.
Ele parou.
— Espera um pouquinho. — pediu.
Neo se aproximou da porta ao lado das escadas.
Ele tocou a campainha.
A porta se abriu e Morrigan apareceu do outro lado.
— O que foi? — ela perguntou.
— Queria saber se você gostaria de participar— — começou Neo.
Antes que terminasse, Morrigan bateu a porta na cara dele e voltou para o quarto.
Neo ficou na porta, sem saber o que fazer.
Ele olhou para Leonora com expressão constrangida.
— Vamos… — falou ela.
— Y-yes. — respondeu ele rapidamente.
Felizmente, ela não riu do seu fracasso.
Chegaram ao local da reunião.
Era uma sala de aula vazia.
Estudantes estavam dispersos em grupos, enquanto Charlotte e Elizabeth estavam no pódio.
O projetor passava atrás delas.
— Um minuto antes do horário agendado. Devo chamá-los de pontuais ou preguiçosos? — perguntou Charlotte.
— Pontuais, por favor. — respondeu Neo.
— … — Charlotte suspirou de cansaço com a atitude descarada dele.
— Sentem-se. Vamos começar a reunião de missão now. — ela disse.
Ela bateu a língua no céu da boca.
Ele foi até os assentos onde estavam sua equipe e a equipe do Arthur.
Leonora caminhou alguns passos atrás, com os ombros curvados.
— … — notou Christian ao ver Neo usando roupas de Leonora, mas deixou passar.
Felix, por sua vez, olhava para as roupas dele com um olhar boquiaberto.
— Aquilo… aquilo não é dele? — perguntou Felix, silenciando logo em seguida.
Ele não queria criar boatos.
De repente, sentiu um frio na coluna.
Percebeu Elizabeth encarando Neo e Leonora.
— Neo… Neo… — sussurrou. — Foge…
— Você disse alguma coisa? — perguntou Neo.
Neo sentou ao lado de Felix e Leonora se acomodou na cadeira vazia ao lado dele.
‘Esse idiota.’
Felix cobriu o rosto com as mãos.
O grupo estava prestes a conversar quando Charlotte bateu no pódio.
— Silêncio. — ela pediu.
— Concentrem-se na missão. — ela mandou.
Duas bonecas apareceram na sala.
Pareciam estar sempre lá.
Distribuíram papéis entre os estudantes.
O slide no projetor mudou.
Mostrava um céu rasgado.
Chovia uma chuva escura, saindo da rachadura do céu.
Além da rachadura, havia inúmeras ruínas e monstros sombrios.
— Janela #12862. — falou Charlotte.
— Essa janela conecta nosso mundo ao Mundo das Sombras.
— Ela abriu acima das Colinas de Shiria há cinco dias.
— Segundo o ritmo de crescimento atual, seu potencial foi classificado como de Categoria Calamidade. — afirmou.
Um silêncio pesado caiu na sala.
Charlotte prosseguiu.
— Sim, categoria Calamidade.
— Nos últimos dez anos, apareceram três janelas de calamidade conectando ao Mundo das Sombras.
— Hoje, os três países onde essas janelas surgiram se tornaram um Cemitério.
Neo apertou os lábios.
‘Começa então.’
‘A missão na qual todos, exceto cinco, estão destinados a morrer.’