Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 20

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

— …O quê?

Neo estava boquiaberto.

Elizabeth explicou a ele.

Sua irmã vivia em segredo.

Ninguém sabia sequer que ela existia.

Seu único propósito era substituir Elizabeth caso ela fosse assassinada.

Os herdeiros do País Sereia foram assassinados inúmeras vezes quando o país se recusou a ceder às exigências de outras nações no passado.

A prática de ter um herdeiro oculto surgiu por causa disso.

— Minha irmã não queria uma vida assim e fugiu. Depois do desaparecimento dela, meus pais ficaram, bem, digamos que minha vida não ficou tão boa assim.

— Fui casada com um príncipe de outro país e tive que morar com ele.

— Ele nunca me amou.

Ela riu sem humor.

— Acontece que ele gostava de homens. Para esconder o segredo, tive que passar por inseminação artificial.

— Dei à luz Clara e Paul.

Enquanto a ouvia, sua mente entrou em caos.

Amelia era filha da irmã dela?

Clara e Paul eram filhos dela?

Aquilo parecia um absurdo.

No entanto, muitas coisas faziam sentido.

Isso explicava por que ela cuidava tanto de dois órfãos e por que ficou tão magoada quando Clara e Paul tentaram matá-la.

Eles eram seus filhos de verdade, não apenas adotados.

Pensando logicamente, já que Amelia se parecia com ela, e ninguém sabia da existência da irmã de Elizabeth, ela não teve escolha a não ser agir como se Amelia fosse sua filha.

— Quando os piratas atacaram o navio, minha irmã voltou com Amelia.

— Ela derrotou os piratas e me deu a Magia de nível Tremor e Amelia, dizendo que estava fugindo e tinha que partir, pois sua vida estava em perigo.

— Ela me pediu para proteger Amelia antes de ir.

Depois de explicar tudo, ela olhou para Neo para saber o que ele achava da vida dela.

Essa foi a primeira vez que ela contou isso a alguém.

Havia um único pensamento em sua mente.

Que porra de abracadabra era essa?

Por que algo tão importante nunca foi explicado no romance?!

‘…Talvez o autor planejou revelar isso durante o arco final’.

Neo se acalmou depois de chegar a uma conclusão.

— Por que você está me contando tudo isso? Eu não me importo com o seu passado.

Suas palavras fizeram Elizabeth congelar.

Uma expressão abatida apareceu em seu rosto.

— Certo, por que alguém se importaria comigo?

Ela voltou à sua postura de Rainha Tirana.

— Eu não quero viver. Vá embora. Eu não tenho intenção de te dar minha maldição—

— Não, eu não vou te deixar. — Ele olhou para ela com um olhar determinado. — Você não vai morrer enquanto eu estiver aqui.

Se ela morresse, Neo estaria em apuros.

E ela tinha que dar a ele a Magia de nível Tremor e a réplica do Tridente de Poseidon.

— O quê…? Você acabou de dizer que não se importa comigo e agora não quer que eu morra? Você está zombando de mim?

Uma pressão terrível desceu.

— Não ultrapasse seus limites, parente da Morte.

Sua voz arrepiante fez um arrepio percorrer sua espinha.

No entanto, ele manteve sua postura.

— Eu não estou zombando de você.

— É você quem está fazendo pouco de si mesma.

— O que você está tentando alcançar me contando sobre seu passado?

— Você só quer que alguém a reconheça.

Elizabeth estremeceu como se ele tivesse acertado em cheio.

Ele continuou.

— Sua vida só tem sentido se os outros disserem que você é importante?

— Não.

— Pare de tentar procurar apoio nos outros.

— Você e somente você pode determinar o valor da sua vida.

Ele ficou diante dela e olhou para ela de cima.

— Não eu, não meu reconhecimento e… não seus filhos.

— É fácil para você dizer!

Elizabeth cerrou o punho e deixou sua máscara de Tirana cair.

Ela gritou do fundo de seu coração.

— Ninguém quer que eu viva! Eles me amaldiçoam todos os dias como se eu fosse uma desgraça em suas vidas! Até meus filhos acham que é melhor se eu morrer!

— Nem todo mundo.

Neo respondeu com um tom calmo.

— Eu, por exemplo, quero que você viva… e Amelia também.

Ele acrescentou,

— Você sabia que, depois que Amelia me conheceu, ela pensou que eu a mataria?

— Mas quando a menor chance apareceu, ela tentou pegar o lago de Água Divina para salvá-la, mesmo que isso colocasse sua vida em perigo.

Elizabeth abaixou o rosto.

Seus ombros tremiam.

— Ela te ama.

— Mas eu sou uma Tirana.

— Ela sabe disso e eu sei disso também.

O silêncio desceu entre os dois.

Apenas o barulho do mar e os soluços de Elizabeth continuaram.

Lágrimas pingavam na praia de areia.

— Eu… eu não estou chorando.

— Eu não vejo nenhuma lágrima.

— Uma Tirana nunca chora.

— É mesmo?

— Se você contar a alguém o que aconteceu aqui, eu vou te aprisionar e torturar.

— Parece doloroso.

Ele sorriu.

— Isso significa que você está pronta para ir comigo?

Ela enxugou as lágrimas, mas não olhou para cima.

— …Segure minha mão se quiser ir embora comigo — ela disse.

Ele seguiu suas palavras.

— Eu não me importo com o que acontece com você depois que você pegar minha maldição.

— …

— Mesmo que você morra, a culpa é sua.

— …

Assim que estavam prestes a desaparecer, ele ouviu um pequeno sussurro.

— Obrigada…

Ela levantou a cabeça e sorriu para ele.

Não era assustador como seus sorrisos habituais.

Seu sorriso era encantador.


Neo acordou com um gemido.

Não havia passado muito tempo desde que ele perdeu a consciência.

As horas que ele passou com Elizabeth no mundo dos sonhos foram meros momentos na realidade.

— O que está acontecendo com você?

— Pare de gritar — ele ordenou, irritado.

— A-ah, eu pensei que você estava prestes a perder a consciência.

— Você não precisa pensar. Apenas faça o que te mandam.

Clara cerrou os punhos.

Suas unhas se cravaram em suas palmas, mas ela não respondeu.

De repente, as veias roxas no corpo de Elizabeth se contorceram.

Elas se moveram em direção ao braço dela e se infiltraram no braço de Neo enquanto ele segurava sua mão.

— A maldição está sendo transferida! Ela a largou! — Clara exclamou.

Neo grunhiu.

A dor estava além de tudo que ele imaginava.

Ele sentiu como se estivesse sendo esfolado vivo e mergulhado em água salgada.

Ela estava suportando isso há dias?

Ele estremeceu.

Sua pele rachou, revelando veias roxas, e seu corpo se deteriorou rapidamente.

Ele sentiu alguém segurando sua mão.

Erguendo os olhos, ele notou Elizabeth olhando para ele com um olhar frio como pedra.

Ela parecia calma, mas o calor de sua mão revelava suas preocupações.

Elizabeth tentou se sentar, mas Neo a impediu.

— D-descanse. Não se preocupe, esses dois não vão f-fazer nada com você.

Seus lábios ficaram pretos e suas unhas começaram a cair.

Não demorou muito para que ele perdesse a visão e a audição.

— Eu… eu vou voltar.

Neo tentou sorrir, apenas para falhar miseravelmente.

Isso fez seu coração doer.

— N-não se esqueça. Eu sou Imortal.

Ele ficou mole em suas mãos.

Elizabeth não teve escolha a não ser acreditar em suas palavras.

Porque ela não achava que poderia se perdoar se ele nunca mais acordasse.

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