Terramar: O Mar Encoberto

Capítulo 1032

Terramar: O Mar Encoberto

O intenso mau de sangue permeava o ar na floresta densa.

Corte.

Grite.

O som úmido e nauseante de carne sendo rasgada continuamente ecoava entre as árvores.

Pantando pesado, Gao Zhiming ergueu a adaga ensanguentada na mão. Ele apertou os dentes e avançou. Sangue frio e coagulado espirrava em seu rosto jovial de apenas nove anos.

Já estava completamente exausto naquele ponto. O movimento intenso e incessante de balançar a adaga queimava os músculos dos seus braços; eles latejavam de dor.

Gao Zhiming deu uma olhada em Anna, que estava próxima. Engolindo qualquer reclamação que pudesse ter, ele se recompôs, e mais uma vez, mergulhou a adaga na perna do bezerro pendurado no galho da árvore.

Fazer a lâmina fundo na bezerra não foi nada fácil. A pele do animal era grossa, e, por estar morto há bastante tempo, a carne endurecera bastante. Seus tendões também ofereciam resistência.

Toda vez, Gao Zhiming tinha que reunir toda força que tinha para conseguir enfiar a lâmina até o fundo.

"Não confie na força bruta," Anna instruía. "Tente mirar nas brechas entre os grupos de músculo. Lembre-se da sensação de cortar carne com uma lâmina. Você precisa se acostumar com isso o quanto antes."

"Aquele bandido de rua que te ofereceu o pescoço antes? Inimigos tão burros quanto ele são poucos e raros."

"Entendido!" Gao Zhiming assentiu. Ele apertou a empunhadura da adaga e continuou o treinamento, seu suor misturando-se ao sangue que manchava sua pele.

Anna apoiou-se contra o tronco de uma árvore com um dossel enorme e observava Gao Zhiming em silêncio, à distância.

Ela não tinha expressado suas opiniões diretamente na frente do marido, mas, no fundo, tinha que admitir que, comparado às dificuldades dele com os estudos, ele era indiscutivelmente talentoso nesta área.

Apesar do pouco tempo de treinamento, ele já havia adquirido uma força de combate rudimentar. Se ele resolvesse agir agora, as chances de conseguir assassinar um adulto desprevenido eram altas.

Porém, o mais importante era que Gao Zhiming tinha visto sangue. Ele havia dado aquele passo crucial de superar o medo de matar um humano.

Quando se trata de matar alguém da mesma espécie, há uma diferença invencível entre quem nunca matou e quem já cruzou essa linha.

Enquanto Anna pensava na próxima fase do treinamento de Gao Zhiming, um som de farfalhar vinha da floresta próxima.

Ela virou rapidamente para ver um idoso emergir entre as árvores. Seu rosto estava avermelhado, claramente queimada de sol, e carregava uma vara de pescar no ombro.

No momento em que Anna e Gao Zhiming apareciam, a atenção do idoso foi diretamente para Gao Zhiming. Ele olhou para a adaga ensanguentada na mão do menino antes de fixar o olhar na carcassa mutilada do boi pendurada na árvore.

Seus olhos se arregalaram de choque.

O braço de Anna se mexeu levemente, e, num instante, a faca de arremesso que o Máscara havia dado a Gao Zhiming apareceu em suas mãos.

Ela reconheceu aquele rosto. Ele era um morador da cidade, e ela tinha visto-o quando ela e Gao Zhiming se mudaram pela primeira vez.

No entanto, o idoso parecia não perceber a intenção de matar que emanava de Anna. Seus olhos brilharam de empolgação após seu choque inicial. Ele deu um passo à frente e deu uma volta ao redor de Zhiming, exclamando admirado: "Uh, kung fu chinês? Legal!"

Com isso, pegou o celular, percorreu rapidamente sua galeria e clicou em um trecho de um antigo filme de artes marciais da Shaw Brothers dos anos 1980. Segurou a tela na frente de Anna com expressão animada e começou a fazer ainda mais perguntas.

Anna piscou. Percebeu que o velho tinha interpretado completamente errado a situação. Ela soltou um suspiro de alívio silencioso e guardou discretamente a faca de arremesso.

Como ele não era uma ameaça, ela começou a trocar pequenas palavras com ele. Logo descobriu que seu nome era Mark Rook e que, tecnicamente, ele era meio que um vizinho.

Antes de se aposentar, ele trabalhava como chef, mas agora, aposentado, seu tempo se resumida a duas coisas: pesca e assistir filmes. Claro, ele tinha uma predileção especial por filmes de artes marciais, e, por isso, estava fascinado com o que acabara de presenciar.

"Então, as técnicas desses filmes são reais? Como é que fazem? Essa criança, ele está treinando técnicas do Shaolin, não é?" O velho perguntou, com expressão de curiosidade evidente. "Ah, se há algum tabu cultural oriental a respeito disso, fique à vontade para não responder."

Anna pretendia despistar Mark com respostas vagas, mas o tal era particularmente entusiasta e apaixonado por kung fu chinês. Falava sem parar, com entusiasmo excessivo, como fã encontrando seu ídolo.

Ao fim da conversa, Mark até convidou calorosamente Anna e Gao Zhiming para visitarem sua casa.

Não querendo parecer muito diferente, Anna aceitou o convite. Afinal, era impossível se isolar completamente ao chegar a um lugar novo. Além disso, criar uma boa relação com os vizinhos ajudaria a se integrar melhor à cidade.

A casa de Mark ficava próxima — a apenas algumas centenas de metros da de Anna. Não havia ninguém em casa além de sua esposa, uma idosa com um sorriso amigável.

A estrutura toda de madeira tinha um charme rústico. O interior também era decorado com um toque de aconchego familiar. Havia poucos eletrônicos, além de uma televisão simples.

Assim que entraram, Mark deixou de lado toda formalidade. Empurrou saquinhos de discos — todos contendo estrelas de artes marciais — e mostrou-os a Anna com uma alegria infantil.

Era evidente que Mark tinha uma personalidade brilhante, quase juvenil, mesmo com seus 73 anos.

"Me desculpe. Ele está muito irritante?" perguntou a idosa com um sorriso suave, colocando uma torta de maçã quente na mesa. "Ele sempre foi assim."

Ela tirou as grossas luvas de forno e se virou para o marido, dizendo: "Mark, chega de conversa. Essa é a primeira vez que Anna nos visita; tenha um pouco de moderação, ok? Ainda são crianças, e provavelmente até menores que nossos netos."

Todos se sentaram à mesa e começaram a desfrutar da refeição preparada pela Sra. Rook. Um banquete com frango assado, espaguete com salsicha fatiada, sopa de cogumelos bem temperada e torta de maçã recém-saída do forno. Até um copo de vinho caseiro tinha para cada um dos três adultos presentes.

Justo quando Mark ia começar uma nova conversa, sentiu discretamente a esposa, Mary, pisar em seu pé.

Confuso, olhou para ela e, em seguida, para o olhar que ela lançava a Anna. Foi então que percebeu—o braço esquerdo de Anna não estava lá.

Seus olhos se apagaram de surpresa, e um peso enorme pareceu apertar seu peito. Ele já tinha visto ferimentos assim antes em filmes de artes marciais.

Meu Deus... Ela é tão jovem... será que vieram do outro lado do mundo, da Ásia, porque foram expulsos de uma seita?

De repente, tudo fez sentido. Mark finalmente entendeu por que Anna e Gao Zhiming estavam tão reservados.

Ah, agora entendi. Droga. Deveria ter percebido antes. Toda vez que falava com ela, inconscientemente sentia que estava piorando ainda mais a situação deles.

Essa descoberta repentina apagou toda sua animação. Sem seu jeito animado de conversar, um silêncio desconfortável tomou conta da mesa.

"Senhor Mark, sobre o que aconteceu na floresta, poderia guardar segredo pra gente?" perguntou Anna, quebrando o silêncio.

"Claro, claro!" concordou Mark rapidamente, lançando um breve olhar para sua coleção de DVDs de artes marciais. Seu rosto ficou levemente avermelhado, e ele se endireitou com uma confiança renovada.

"Posso me considerar bem informado sobre certos aspectos da cultura oriental. Não se preocupe. Sua shimen não vai vir aqui causar problema com vocês. É assim que se pronuncia a palavra ‘seita’?"

As sobrancelhas de Anna se franziram um pouco. "Shimen? Seita?"

Ela não fazia ideia do que o velho estava falando. Mas, de qualquer forma, parecia que o problema tinha se resolvido de uma forma especial.

Por gostar naturalmente de crianças, Mary dirigiu um olhar gentil a Gao Zhiming, que estava devorando a comida no prato.

"Criança, você gosta de assistir TV?" perguntou Mary. "Pode comer enquanto assiste. Não precisa ser tão formal. Minha neta faz o mesmo quando volta da escola no verão."

Gao Zhiming, que desistiu da escola após um ano, não entendia uma palavra sequer do inglês que Mary falava. Com uma expressão vazia, virou-se para Anna, pedindo com o olhar.

Porém, Anna não percebeu seu olhar. Estava muito ocupada conversando com Mark, tentando entender um pouco da história da cidade e também aprender os nomes dos moradores.

"Ah, criança, não precisa ser tão rígido. É só tratar este lugar como se fosse sua casa," Mary riu, colocando os óculos de leitura e pegando o controle remoto.

A tela da TV acendeu, piscando entre canais enquanto Mary procurava um dos canais de desenhos para Gao Zhiming.

Enquanto folheava os canais, Anna puxou um fio de cabelo atrás da orelha e deu mais uma mordida na pasta. Ela olhou para cima de repente e lançou um olhar casual para a tela.

Então, congelou.