Poder das Runas

Capítulo 22

Poder das Runas

Dessa vez, Elva entrou na sala.

Sua presença sozinha foi suficiente para desviar a atenção do drama que se desenrolava.

No instante em que ela pisou ali, uma mudança quase instintiva aconteceu.

As conversas pararam no meio da frase, os olhares que antes permaneciam fixos se dispersaram, e a tensão sufocante que havia no ar se dissolveu como se nunca tivesse existido.

Os estudantes imediatamente se voltaram para ela. Alguns arregalaram os olhos surpresos, enquanto outros se endireitaram instantaneamente nas cadeiras, suas espinhas ficando rígidas como se uma força invisível os compelisse.

Sua própria presença comandava respeito.

Ash observava silenciosamente de trás, com os dedos tocando levemente a mesa.

Sua impressão inicial de Elva permanecia a mesma—aquela mulher era perigosa, mas de uma maneira difícil de explicar em palavras.

Ela não era apenas forte—era o tipo de pessoa que podia dominar qualquer ambiente sem dizer uma palavra.

Um verdadeiro monstro entre os humanos.

Seus olhos varreram a sala lentamente, passando de um aluno ao próximo, como se procurasse alguém em específico.

E então, pararam.

Por um breve momento, seu olhar fixou-se em Ash, lá no fundo, na última fileira.

E então—sorriu.

Não aquele sorriso falso e agradável que professores costumam usar ao tentar manter as aparências.

Não, este parecia genuíno.

Divertido.

Como se tivesse encontrado exatamente o que buscava.

Uma sensação ruim se instalou no estômago de Ash.

Ela avançou, cada passo exalando uma graça autoritária, sua presença carregando um peso inconfundível que fazia as pessoas, inconscientemente, prenderem a respiração.

Ao chegar ao púlpito no centro da sala, ela se virou para encarar a turma, entrelaçando as mãos antes de cumprimentar com seu tom habitual, quase brincalhão.

"~Boa manhã de novo, cordeirinhos," disse ela, a voz carregada de diversão.

"Bom dia, Professora!!!!!!!!!!"

Todos responderam em uníssono, suas vozes cheias de energia, como se quisessem deixar uma boa impressão.

No entanto, Ash permaneceu em silêncio, apenas observando como os estudantes reagiam a ela.

Elva assentiu, satisfeita com o entusiasmo deles.

"Agora, vamos agilizar as coisas," continuou, folheando o registro de presença que trouxera consigo.

"Primeiro, farei a chamada."

A voz de Elva resonou enquanto ela começava a ler nomes em voz alta, com um tom casual, mas carregado de uma firmeza subentendida.

"Melissa, Classificada em 1º lugar."

"Presente."

"Grace, Classificada em 2º lugar."

"Presente."

Nesse momento, Ash percebeu algo estranho.

Ela não estava apenas lendo uma lista de nomes.

Foi preciso apenas um segundo para entender o que estava acontecendo.

Ela está chamando nomes com suas posições na classificação?

Seu estômago afundou.

Sabia! Estou fudido!

Ash cerrava a mandíbula, abaixando a cabeça levemente enquanto exalava pelo nariz.

Claro, ela faz tudo na ordem...

A cada nome que ela chamava, uma resposta instantânea surgia, com os estudantes respondendo com confiança inabalável.

"Ray, Classificado em 23º."

"Presente."

O nome do protagonista veio e foi, a turma mal reagindo além de alguns murmúrios.

"Gerri, Classificada em 45º."

"Presente."

"Paulita, Classificada em 50º."

"Presente."

E então—

"Ash, Classificado em 1001º."

Silêncio.

Pela primeira vez desde que ela começou a chamar nomes, não houve resposta.

Elva piscou uma vez antes de levantar o olhar do registro, com uma expressão indecifrável.

"Ash, Classificado em 1001º."

Uma segunda chamada.

Dessa vez, Ash se obrigou a responder.

"Presente."

!!!!!!!!! !!!!!!!! !!!!!!!! !!!!!!!!

A palavra mal saiu de sua boca antes de ele sentir.

Cada cabeça na sala se virou em sua direção.

Dezenas de olhares fixaram-se nele em uníssono, carregados de choque, curiosidade, e até um sorriso de leve divertimento.

Alguns estudantes o encaravam como se fosse uma aberração, um erro em um sistema que não deveria existir.

Outros simplesmente bufavam, balançando a cabeça antes de se virar e ignorá-lo, considerando-o indigno do seu tempo.

Sussurros enchiam o ar.

"Classificado em 1001? Isso é real mesmo?"

"Como alguém assim conseguiu entrar na Turma 1S?"

"Ele é o último colocado, literalmente."

"Hah. Não é à toa que nunca tinha visto ele antes."

Ash sentia os olhares perfurando-o, cada um pesado de julgamento.

Mesmo assim, sua expressão permaneceu impassível.

Ele não recuou.

Não reagiu.

Simplesmente recostou-se na cadeira, apoiando o cotovelo na mesa e descansando o queixo na mão.

Deixem olhar.

Deixem falar.

No final, a opinião deles não significava nada.

Porém…

Ele não conseguiu esconder uma irritação sutil que borbulhava sob a pele.

Exalou lentamente, forçando-se a relaxar.

Isso era inevitável. Mas no primeiro dia? Tch. Muito chato.

Claramente—ele era o mais inútil deles aos olhos deles.

Mas tudo bem.

Ele já estava acostumado com esse tipo de atenção negativa—tanto na vida anterior quanto nesta.

O peso dos olhares não o incomodava.

Nem um pouco.

Já tinha sentido isso tudo antes—o julgamento, a rejeição, a zombaria silenciosa daqueles que se achavam superiores.

Mesmo assim, entre o mar de olhares, alguns se destacaram.

Melissia.

Seu olhar intenso penetrava nele como uma lâmina.

Parece estar brava… e surpresa. Preciso falar com ela sobre a aposta depois que a aula acabar.

A expressão dela era indecifrável, mas a tensão na testa e o modo como seus lábios se comprimiram em uma linha fina diziam tudo.

Ash manteve contato visual com ela por um segundo—não mais—antes de desviar o olhar.

Depois, foi a vez de outro olhar.

Ray.

Ao contrário de Melissia, a expressão dele não estava carregada de raiva, mas de pura surpresa, sem filtros.

Como se não conseguisse acreditar no que acabou de ouvir.

Ash soltou um suspiro inaudível, seus pensamentos vagando brevemente.

'Ainda bem que deixei o Anel de Cura no meu quarto…'

Ele não estava a fim de arrumar mais uma encrenca desnecessária.

Desviando o olhar, sua atenção naturalmente foi parar na última pessoa.

Elysia.

Seus olhos não expressavam raiva nem surpresa.

Havia confusão neles.

Uma questão silenciosa.

Algo na maneira como ela olhava para ele fazia seu coração bater mais rápido—uma sensação estranha, quase nostálgica, que o pegou desprevenido.

Pela primeira vez, ele sentiu… algo.

Algo quente.

Algo que apertou seu peito de uma forma inexplicável.

Era como se ela fosse voltar…

Seus dedos tremeram levemente.

Sabia que aquilo era ridículo—sabe, mas mesmo assim se pegou olhando pra ela por mais tempo do que deveria.

Por que ela sempre me lembra ela…?

A ideia veio sem aviso, escapando de sua mente normalmente controlada.

Ela… também veio comigo?

Uma ideia absurda e impossível passou pela sua cabeça.

Ele fez um único desejo—transmigrar. Nada mais.

Então, por que—

"Cough."

Seus pensamentos se quebraram como vidro frágil ao som da garganta de Elva se preparando para falar.

"Todos vocês," sua voz carregou uma autoridade inconfundível, "Ash Burn é um estudante recomendado por mim. Se alguém tiver algum problema com isso, pode falar comigo."

Seu tom era casual, mas a mensagem subentendida era clara.

Questionar sua presença, equivale a questionar a dela.

Uma silêncio tenso tomou conta da sala.

Elva sorriu. "~ Então, alguém tem um problema?"

Sem resposta.

"Muito bem."

Ela bateu suavemente as mãos, mudando de assunto sem perder o ritmo.

"Melissia e Ray—vocês serão representantes da turma, respectivamente, para as meninas e meninos."

Melissa mal reagiu, ainda olhando fixamente para Ash.

Ray, por outro lado, endireitou-se, concordando firmemente.

"E agora, sigam-me em linha reta," continuou Elva. "Vamos para o Teste de Afinidade e a Escolha de Curso."

"Sim, Professora!"

A turma respondeu ao mesmo tempo.

Ash expirou lentamente, sua mente cheia de perguntas enquanto se levantava.

***

[Elysia Moonglow]

Eu sou Elysia Moonglow.

Pelo menos, é assim que sou agora.

Na minha vida anterior, meu nome era Nancy Scott. Eu era uma garota comum, vivendo uma vida tranquila e sem destaque na Terra.

Não tinha sonhos grandiosos nem talentos extraordinários.

Meus dias eram simples—acordava sob o calor suave do sol da manhã, caminhava pelas mesmas ruas que conhecia desde a infância, e compartilhava pequenos momentos de risada com poucos amigos.

A vida era pacífica. Pequena. E ainda assim, nunca pensei que terminaria tão repentinamente.

Morri em um acidente de carro!!!!

Tive pouco tempo para entender o que estava acontecendo antes de tudo ao meu redor apagar-se na escuridão.

Meu corpo parecia leve, como se estivesse flutuando em um vazio infinito. Então, tão rápido quanto terminou—

Começou novamente.

Quando abri os olhos, já não era Nancy Scott. Não estava mais deitada no chão frio, lutando por respirar.

Pelo contrário, me encontrei em um quarto desconhecido, olhando para um teto rachado.

Minhas mãos, agora pequenas e delicadas, tremiam enquanto eu tocava meu rosto.

Este não era meu corpo.

Este não era meu mundo.

Fui renascida.

No começo, pensei que fosse um sonho—um truque cruel criado pela minha mente, morrendo, nos momentos finais.

Mas com o passar dos dias, a realidade se estabeleceu.

Transmigreie para um mundo completamente diferente, cheio de magia e maravilhas que nunca imaginei.

Mas mesmo nesta vida estranha e nova, uma coisa permanecia dolorosamente familiar.

Eu era uma órfã.

Como antes.

Não tinha pais amorosos me recebendo neste mundo, nem rostos familiares para aliviar o medo e a solidão que invadiam meu coração.

Era apenas mais uma criança sem nome na Orfandade, lutando para entender por que o destino me deu uma segunda chance e, ao mesmo tempo, me tirou o calor de uma família novamente.

Queria chorar.

E chorei.

À noite, quando ninguém via, escondia o rosto no travesseiro e deixava as lágrimas caírem, perguntando por que a vida havia sido tão injusta.

Questionando se essa segunda vida era uma bênção ou apenas uma piada cruel.

Mas o tempo não parou por causa da minha dor.

Os dias se transformaram em semanas, meses, anos. Aprendi a sobreviver, a me adaptar.

A orfandade não era gentil, mas também não era cruel. Era simplesmente um lugar que existia, assim como as crianças que ali viviam.

Então, um dia, tudo mudou.

Com 10 anos, acendi minhas habilidades mágicas. A orfandade, que sempre foi indiferente à minha existência, de repente, teve um propósito para mim.

Me ensinaram a controlar minha magia, incentivaram-me a ultrapassar meus limites, e quando chegou a hora, me enviaram para a melhor academia do continente humano.

Deveria estar animada.

Este era um mundo de magia, de possibilidades além de tudo que já conheci. Tive uma chance que a maioria das órfãs só poderia sonhar.

Mas, ao invés disso, me senti perdida.

Mesmo entre os outros estudantes, eu me sentia deslocada. Eles eram confiantes, fortes, pertencendo a famílias com longas histórias de poder e influência.

Eu, por outro lado, era apenas uma garota de uma orfandade, sem sobrenome.

Fazer amigos não era fácil.

Nunca fui boa em conversar com as pessoas, nem na minha vida passada, e certamente não nesta.

Mas tentei.

E então, após fazer o primeiro teste, exausta e com sede, percebi que tinha esquecido de trazer uma garrafinha de água.

Minha garganta estava seca, meu corpo cansado, e me senti idiota por cometer um erro tão simples.

Foi aí que o percebi.

Um menino estava próximo, carregando uma mochila gigante, praticamente explodindo de garrafas de água e comida.

Seu cabelo prateado-branco chamou minha atenção, um pouco diferente do meu, mas suficiente para eu parar.

Seu rosto, no entanto, não demonstrava preocupação, nem sinal de que se importasse com o peso da mochila ou com os olhares ao redor.

Fiquei hesitante antes de dar um passo em direção a ele.

"Posso pegar uma garrafinha de água?" perguntei, minha voz mais baixa do que pretendia.

Ele se virou para mim, com uma expressão indecifrável. Por um instante, pensei que iria me ignorar.

Mas, ao invés disso, ele mergulhou silenciosamente na mochila, pegou uma garrafa e me entregou sem hesitar.

Depois, sem dizer mais nada, foi embora.

Nem tive a chance de agradecê-lo.

Algo naquela breve troca me deixou incomodada. Ele não pediu nada em troca, nem mesmo seu nome.

Foi um ato tão simples, mas, por algum motivo, não consegui tirar da cabeça a sensação de que o conhecia de algum lugar.

Essa ideia ficou rondando minha mente, teimando em não desaparecer.

---

No terceiro teste, finalmente, fiz minha primeira verdadeira amiga. Seu nome era Grace Starhaven, uma menina de personalidade forte e coração gentil.

Ao contrário de mim, ela era naturalmente sociável, alguém que podia fazer amigos com qualquer pessoa.

Com ela, não me sentia tão só.

Depois, no primeiro dia de aula, o professor chamou nossos nomes para verificar presença.

"Melissia, Classificada em 1º lugar."

"Grace, Classificada em 2º."

Os nomes continuaram, cada um com uma classificação que refletia seu desempenho nos exames de entrada.

Então—

"Ash, Classificado em 1001º."

No momento em que ouvi esse nome, meu corpo ficou rígido.

Uma sensação estranha tomou conta de mim, como se uma memória enterrada tivesse resurgido de repente.

Não era apenas o nome.

Era tudo para mim na minha vida passada.

Em um lugar profundo dentro de mim, uma pergunta se formou—uma que não pensava há anos.

Ele era feliz?

Estava bem?

E então, uma voz silenciosa respondeu.

"Presente."

Olhei em direção à voz, com o coração acelerado por motivos que não compreendia.

E lá estava ele.

O mesmo garoto que tinha me dado a garrafinha de água.

O rapaz de cabelo prateado-branco e olhos azuis cansados e distantes.

Por um instante, ele cruzou meu olhar.

E naquele momento, algo dentro de mim doeu.

Não foi reconhecimento, exatamente.

Não é algo que eu consiga explicar com lógica ou razão. Era um sentimento, cru e irrevogável.

Algo nele parecia familiar.

Como se eu o conhecesse de antes.

Como se eu tivesse perdido ele antes.

A revelação me atingiu tão profundamente que não consegui desviar o olhar. E por um segundo—apenas um segundo—pensei que ele também sentiu isso.

Mas antes que pudesse pensar mais, a voz do professor cortou o silêncio.

"Siga-me."

E assim, o momento passou.

Mas ao seguir ela para fora da sala, minha cabeça ainda girava.

Porque, pela primeira vez desde que cheguei a este mundo, senti algo que não esperava sentir novamente.

E não tinha certeza se estava pronto para entender o que isso significava.