Advento das Três Calamidades

Capítulo 848

Advento das Três Calamidades

Cra Crack! Cra Crack—!

O som foi abafado no início.

Porém, quanto mais o tempo passava, mais pronunciado o som se tornava.

Cra Crack!

Dentro da escuridão da mente de Velar, ele começou a ver, os traços tênues de roxo infiltrando-se em seu corpo.

"O que você está fazendo?"

Velar falou. Ou pelo menos, tentou falar.

Mas sua voz... Já o havia abandonado há muito tempo.

Cra Crack—!

"Por que está fazendo isso? Por que está gastando sua energia comigo?!"

Velar queria gritar. Queria dizer-lhe para parar.

Ele sabia o que ela estava tentando fazer. Mas já era tarde demais para ele. Era melhor que ela economizasse sua energia para pessoas que realmente importassem. Não ele.

Ele... já havia desistido.

Mas—

Cra Crack!

O raio continuou a despejar-se em seu corpo.

Suas palavras existiam apenas dentro de sua consciência. Não havia como deter o raio, e à medida que ele continuava a infiltrar-se em seu corpo, para seu choque, Velar sentiu algo.

Contração. Contração.

Seus músculos.

Ele começou a sentir seus músculos mais uma vez.

"O-o quê...? Mas..."

Cra Crack! Cra Crack!

O raio não parou. Em vez disso, ficou mais forte. Infiltrou-se cada vez mais fundo em seu corpo enquanto os músculos de Velar começavam a tremer. Quanto mais tremiam, mais Velar começava a sentir. Sim... sentir.

A sensação que ele pensava ter perdido retornava lentamente.

Mas isso não foi tudo.

Gradualmente, ele começou a ouvir.

Swooooosh! Swoooosh!

O vento furioso.

O estalar da neve.

...E o som suave da respiração diante dele.

Velar começou a ouvir tudo.

"Mas como...? Como ela...?"

"Pare de resistir."

Uma voz fraca, porém resoluta, entrou em sua mente um momento depois.

Cra Crack!

p>Relâmpagos rastejaram para dentro de seu corpo mais uma vez, e os sentidos de Velar começaram a se aguçar. Ele sentiu o frio cortante ao seu redor, o calor em seu peito e a dor que explodia com cada estalo. Quanto mais o tempo passava, mais Velar começava a sentir, e logo, sua visão começou a retornar enquanto suas pálpebras começavam a tremer.

Com o som suave de sua respiração, as pálpebras de Velar se abriram, e a escuridão se estilhaçou.

Swoooosh!

Um vento frio se seguiu, fios de cabelo roxo esvoaçando pelo ar e preenchendo a visão de Velar. Ele lentamente abaixou a cabeça para olhar para a figura diante dele, seu rosto pálido, suas mãos pressionadas contra seu peito enquanto seus lábios tremiam.

Ela nem parecia notar seu despertar.

Ela apenas... despejava tudo o que podia nele.

E enquanto Velar a observava, também notou as figuras ao redor dela.

Com o retorno de seus sentidos, eles também haviam retornado.

Você...

Por qual motivo você luta tanto?

***

Dói.

Dói tanto.

Não aguento mais.

Por quanto tempo ainda tenho que fazer isso?

Devo parar?

Não, não posso parar.

Nunca vou parar. Não assim.

Não terminei.

Mas... dói tanto.

Minha cabeça está tão leve. Já é o suficiente.

Por que faço isso?

Não sou inútil.

Eu...

Cra Crack—

Relâmpagos continuaram a crepitar no ar enquanto Evelyn concentrava toda sua atenção no fraco calor diante dela. O rugido do vento havia abafado sua audição há muito tempo, e ela não sabia como estava conseguindo, mas continuava persistindo.

O frio e a solidão cobraram seu preço.

O peso da situação pressionava fortemente seus ombros, pois ela era a última de pé. Não havia mais ninguém para arcar com o peso da responsabilidade. O peso de toda a situação.

Ela não podia passar essa responsabilidade para ninguém.

Porque...

Não havia mais ninguém para quem entregá-la.

É por isso que...

"E-eu... preciso... continuar. E-eu não posso parar."

Ela não podia desistir.

Mesmo com sua mente enfraquecendo e seu corpo debilitado, ela não podia parar.

Ela não tinha permissão para parar!

Todos haviam parado, mas não ela!

"M-mais...!!"

Cra CRACK—!

Relâmpagos crepitaram ferozmente, descargas caindo de cima enquanto o rosto de Evelyn ficava ainda mais pálido. Suas reservas de mana diminuíam, e fragmentos de gelo começaram a se formar ao redor de seu corpo. Apesar da dor, apesar da exaustão, Evelyn não parou.

Ela precisava continuar.

Esse era seu dever como a última de pé.

"Eu não... sou inútil. Eu... consigo. Eu definitivamente consigo!"

Mordendo o lábio, um sabor metálico encheu sua boca enquanto ela continuava a despejar tudo o que tinha na tarefa diante dela.

Sua mente ficava mais confusa, mas ela continuava persistindo.

"Eu c-consigo continuar. Eu consigo continuar. Eu... consigo continuar. E-eu consigo continuar. Eu-consigo continuar."

Mesmo com seus pensamentos começando a diminuir, Evelyn continuava a gritar as mesmas coisas repetidamente em sua mente. Foi graças a isso que o raio nunca parou. Continuou a cair sobre o corpo de Velar, infiltrando-se nas partes mais profundas de seu corpo e estilhaçando o gelo que havia congelado seus órgãos e sangue.

"Eu... consigo."

Mas todo humano tinha um limite.

E Evelyn logo começou a alcançar o seu.

"E-eu... c-consigo. Eu..."

O mundo branco ao seu redor lentamente começou a desaparecer na escuridão, e as mãos de Evelyn escorregaram da figura diante dela.

Suas palavras ficaram mais arrastadas, e seu corpo começou a oscilar.

"Não, eu não posso. A-ainda... não. Eu não posso. Eu..."

A escuridão continuou a rastejar para dentro de sua mente. Apesar de suas melhores tentativas de detê-la, a escuridão apenas crescia, levando sua mente a cada segundo que passava.

E logo—

"A-ah."

As mãos de Evelyn se soltaram do corpo de Velar enquanto ela cambaleava para frente.

N-não.

A neve abaixo parecia correr em sua direção enquanto uma onda de fraqueza tomava conta de Evelyn.

Evelyn queria persistir. Queria lutar mais.

Mas seu corpo se recusava a ouvi-la. E assim como a neve abaixo se aproximava, Evelyn sentiu algo.

Um... traço de calor.

Juntamente com o calor, ela ouviu uma voz.

"Não imaginei que você perseveraria até este ponto."

Sua voz era suave, mas carregava um calor raro que se infiltrava em seu corpo.

"De alguma forma, você ficou ainda melhor do que antes. Não imaginei que chegaria a um ponto em que finalmente poderia me libertar. Você se esforçou muito."

A voz fez uma pausa, e os olhos de Evelyn se fecharam.

"...Então, descanse. Eu cuidarei de você."

CRUNCH—!

Os olhos de Evelyn se abriram com força enquanto cerrava os dentes e batia as mãos contra a neve. Descansar?

Sentindo o calor infiltrando-se em seu corpo enquanto uma mão pressionava suas costas, Evelyn ergueu o olhar.

Ela olhou para a figura que antes agia como uma boneca sem vida e balançou a cabeça.

"N-não. Ainda não."

A mente de Evelyn estava exausta.

Suas reservas de mana estavam vazias.

Mas ela não podia se permitir. Ainda não.

"....."

Velar permaneceu em silêncio. Não disse nada enquanto observava Evelyn se esforçar para se levantar e se virar, seu corpo tremendo enquanto seu cabelo e roupas chicoteavam selvagem-mente no vento forte.

Seus lábios se abriram quando estava prestes a falar com ela, mas Evelyn falou antes mesmo que ele tivesse a chance.

"...E-eu encontrei um jeito de s-e livrar da maldição."

A voz de Evelyn era fraca, mal audível sob o vento forte, mas Velar ouviu tudo enquanto seus lábios se fechavam gradualmente.

"S-e... e-u perder a consciência, vou perder de vista. É p-or isso... eu não posso... e-u não posso descansar."

Crunch! Crunch!

Cada um de seus passos parecia mais pesado que o último enquanto ela olhava adiante, seu corpo tremendo no vento forte como uma chama moribunda lutando para permanecer acesa.

"E-eu... n-não sei... q-uanto tempo... p-assou. Eu apenas treinei. E tentei... m-elhorar. F-oi quando finalmente senti."

Sem nem perceber, Velar ergueu a mão, enviando mana para o corpo de Evelyn. Ela congelou no meio do passo enquanto a cor lentamente retornava ao seu rosto. Mas logo, seu rosto se tornou resoluto.

Erguendo a mão, um círculo mágico se formou diante dela. Descargas de raio se reuniram mais uma vez, envolvendo todo o seu braço, e sem esperar Velar reagir, ela arremessou o raio para o céu.

BANG—!

O mundo trovejou, roxo e azul tomando conta do branco que envolvera o ar. E quando o roxo apareceu, Velar vislumbrou. Os inúmeros raios dispararam em todas as direções, revelando eventualmente uma esfera escura no céu.

"Isso é..."

"A-a fonte da maldição."

Evelyn respondeu, sua voz ainda mais frágil do que antes.

"E-eu a encontrei não faz muito tempo. Porém, e-u... estou fraca demais para destruí-la."

"....."

Velar ficou em silêncio, seu olhar fixo no espaço acima dele. A esfera já havia desaparecida, substituída pelo branco da tempestade. No entanto, ele ainda podia visualizar a esfera em sua mente enquanto lentamente voltava sua atenção para Evelyn.

Como...?

Como ela a encontrou?

Mesmo ele, muito mais poderoso do que ela, nunca a sentira. Na verdade, ele nem sabia que ela existia até ela mencioná-la.

Mas Evelyn permaneceu quieta sob seu olhar.

Aquela esfera... era algo que ela sentira em seu desespero. Algo que ressoava profundamente com a escuridão escondida dentro dela. Mas encontrá-la não foi a parte mais difícil. A verdadeira dificuldade era manter o controle sobre ela, pois sua presença desaparecia e sumia no momento em que ela perdia o foco.

É por isso que...

Apesar de cansada. Apesar de sentir que seu corpo estava prestes a desistir dela. Apesar de sentir que ia desmaiar a qualquer segundo.

Evelyn não podia descansar.

"H-haaa."

Parando, Evelyn olhou para cima.

Para o branco furioso que estava acima dela.

Velar ficou atrás dela, seu silêncio permitindo que o vento forte perfurasse o silêncio entre os dois.

Quanto mais Velar a observava, mais complicada sua expressão se tornava.

Mas logo, quando memórias de seu passado ressurgiram em sua mente, ele não pôde evitar sorrir.

"Consigo meio que imaginar a vida que você viveu."

A expressão de Evelyn permaneceu inalterada, seus olhos nunca deixando o branco acima dela.

A voz de Velar continuou a sussurrar através da tempestade.

"Você, que sempre fica nas sombras, mas diz estar satisfeita. Você, que quer ser útil, mas tem medo de agir de verdade, com medo de falhar e decepcionar os outros."

Ele colocou a mão contra suas costas.

Mas não foi apenas sua mão. Outra veio um momento depois. Logo seguida por outra, e depois outra.

Cinco figuras ficaram ao lado de Velar enquanto Evelyn continuava olhando para cima, sua atenção em outro lugar.

Mas a de Velar não.

Sua atenção era inteiramente nela.

"Você carrega o peso do mundo, mas não tem ninguém para testemunhar suas lutas. Mesmo que acabe resolvendo a situação, eles nunca saberão o peso das suas lutas. O peso de tudo que você carregou nos ombros. Mas é aí que você se engana."

Velar começou a despejar toda a sua mana no corpo de Evelyn.

"Eu estou observando."

Cra Craaaack—!

Relâmpagos intensos crepitavam ao redor do corpo de Evelyn. Seu rosto ficou pálido enquanto mantinha o olhar fixo no branco acima dela.

Cra Crack!

Sangue começou a escorrer de seus olhos e ouvidos enquanto seu corpo começava a se contorcer e espasmar. A intensidade dos raios apenas aumentou, cobrando seu preço de seu corpo já enfraquecido. Mas como se fosse alheia à dor, Evelyn continuou.

Velar ficou atrás dela, sua mão pressionada contra suas costas.

Ele despejou tudo o que tinha.

Ele a apoiou.

"...Nós estamos observando."

Mas ele não estava sozinho.

Ao lado dele estava um velho.

Um jovem robusto.

Um par de crianças.

Uma jovem mulher.

CRA CRACK——!

Estendendo a mão, trovões retumbaram pelo ar enquanto o mundo brilhou em roxo mesclado com azul. Um raio rasgou o céu, e Evelyn fechou a mão ao redor dele, agarrando o raio.

No momento em que o fez, sua expressão se contorceu. Um grito rasgou sua boca enquanto seu corpo inteiro começou a tremer.

Dor, diferente de qualquer coisa que já sentira, percorreu seu corpo.

Era quase como se estivesse sendo dilacerada.

O olhar de Velar permaneceu fixo nas costas de Evelyn, sua mão nunca a abandonando. Mesmo quando seu corpo começou a espasmar e seus gritos rasgaram a tempestade, seu aperto permaneceu firme enquanto ele despejava cada gota de sua mana nela.

Ao fazê-lo, ele ergueu gradualmente a cabeça, olhando para o branco acima.

Ele até sentiu aquilo de que Evelyn falava.

Logo, seus lábios se curvaram em um sorriso.

Não sabia por quê, mas sentia vontade de sorrir. Especialmente quando sentiu o frio ao seu redor e viu as lutas pelas quais Evelyn estava passando.

Velar fechou os olhos.

"Está pronta?"

Para quem ele dizia essas palavras?

Evelyn, ou os que estavam ao lado dele?

Só ele sabia enquanto começava a despejar tudo dentro do corpo de Evelyn. Geada gradualmente começou a se formar ao redor de seu corpo novamente. Mas desta vez, as figuras ao lado dele não desapareceram. Elas permaneceram firmes com suas mãos.

O grito de Evelyn continuou, mas ao mesmo tempo, o raio em sua mão começou a tomar forma.

Ele se expandiu e encolheu várias vezes.

Uma e outra vez.

Até que eventualmente, tomou a forma de uma lança.

Sangue começou a escorrer da mão de Evelyn enquanto ela agarrava a lança, seus olhos fixos diretamente acima dela.

Por um breve momento, tudo pareceu parar completamente. Os músculos de Evelyn espasmaram, seu rosto se contorcendo como se seu corpo começasse a falhar. Sangue escorreu de seu nariz e boca, manchando a neve abaixo dela.

Evelyn soltou um grito. Um grito desesperado.

Um que parecia gritar, 'Mova-se! Mova-se...! Só mais um pouquinho!!'

Mas seu corpo se recusava a ouvi-la. Recusava-se a se mover mais. Era isso.

'Mova-se! Mova-se—!'

Seus gritos rugiram pelos arredores, a lança de raio crepitando em seu aperto. Mas quanto mais ela gritava, mais fraca sua voz se tornava.

Até que eventualmente, perdeu a voz.

Gota! Gota!

Sangue continuou a escorrer para a neve abaixo enquanto os lábios de Evelyn tremiam.

Ela abria e fechava a boca, tentando dizer algo.

Mas até isso... parecia impossível para a Evelyn atual.

Será que era isso?

Esse era o limite?

Mas ela quase terminou! Só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho...!

"Está frio, não está?"

Uma voz calorosa sussurrou por trás, forçando os pensamentos de Evelyn a vacilarem. Um momento depois, ela sentiu calor contra sua mão enquanto outra mão gentilmente segurava a sua.

Os olhos de Evelyn se arregalaram.

"Não, espere... O que você está fazendo?"

As palavras nunca saíram de sua boca enquanto sua mão, junto com a dele, lentamente começava a se erguer. Relâmpagos crepitavam ao longo da lança enquanto Velar erguia o olhar para o branco infinito acima. Pedaços de gelo grudavam em seu rosto, mas quando o raio brilhou, sua pele começou a descascar sob o esforço.

"Não, pare! Pare!"

Seu corpo estava começando a se desfazer.

Apesar de saber disso, Velar simplesmente sorriu. A única coisa que podia fazer era sorrir enquanto olhava adiante, sentindo o frio cortante ao seu redor.

"Sim, está frio."

Ele assentiu brevemente, seu cabelo esvoaçando atrás dele. Sua pele começou a descascar ainda mais, sua outrora pele pálida começando a ficar vermelha.

Mas ele parecia alheio às mudanças enquanto se virava para encarar Evelyn.

"Esse clima..."

Um sorriso se formou em seus lábios.

"É frio demais para alguém de coração tão caloroso como você."

Ele guiou a lança em uma certa direção, tensando suas costas enquanto sangue começava a escorrer de sua mão, o raio crepitando em seu aperto.

"Pare com isso! Pare com isso!"

A essa altura, a pele de seu rosto havia descascado completamente.

"Por favor...! Você vai morrer! Não, desse jeito, vou falhar de novo! Pare!"

Seu braço também estava começando a se desintegrar.

"Não! Não! Não! Não! Não!"

Os olhos de Evelyn tremiam, mas Velar não olhava mais para ela.

Ele apenas fitava o branco acima.

"Fui empossado como Comandante de Pelotão da Divisão Oriental de Eisylra não pela glória, não pela sobrevivência, mas pelo bem da cidade e de seus cidadãos. Infelizmente, falhei no meu dever. Todos os cidadãos de Eisylra morreram, sendo eu o último."

A voz de Velar era firme, sua expressão tão severa quanto podia ser.

Cra Crack—!

Despejando cada gota de sua mana na lança em suas mãos, o corpo inteiro de Velar começou a tremer enquanto seus olhos ficavam brancos, aparentemente perdendo completamente o controle de sua visão.

Apesar disso, sua voz permaneceu firme.

"Se deve haver um fim, que termine comigo de pé. Que meu último suspiro seja gasto libertando a cidade a que dediquei minha vida inteira. O lugar onde cresci e o lugar que jurei proteger."

Os pedaços de gelo cresceram, e sangue escorria de cada canto de seu rosto.

A mana dentro do corpo de Evelyn cresceu. Não apenas isso, mas ela também podia sentir seu poder entrando na lança enquanto o crepitar ficava mais forte. Os lábios de Evelyn se abriram enquanto ela tentava gritar.

Tentava berrar.

Mas nada saiu de seus lábios enquanto o corpo de Velar continuava a se desfazer, pedaços de gelo começando a tomá-lo.

Olhando para ele, lágrimas escorreram pelo rosto de Evelyn enquanto seu cabelo esvoaçava sob o vento forte. Embora quisesse detê-lo, sabia que não podia. Em sua mente, começou a aceitar a situação.

Mordendo os lábios, Evelyn desviou o olhar dele.

Olhando para cima e sentindo a esfera que flutuava no céu, cerrou os dentes com força.

Ressentimento surgiu em sua mente enquanto olhava para cima.

"Eu falhei. Eu falhei... No final, não consegui salvar ninguém. Não consegui fazer aquilo que deveria fazer."

Quanto mais pensava em seu fracasso, mais seu peito fervia.

Ela podia sentir a força de Velar enfraquecer a cada segundo, e também podia sentir sua vida escapando. Mesmo que tivesse sucesso, ele ainda morreria.

Não havia como salvá-lo.

É por isso que—

"Haaaaa!"

Evelyn rugiu, encontrando sua voz mais uma vez.

Ela gritou para o céu.

Para tudo.

A lança crepitava nas mãos de Evelyn, arcos de energia estalando ao longo de seu comprimento e iluminando seus dedos. Seu corpo inteiro se tensionou enquanto puxava profundamente de dentro de si, drenando cada reserva de mana que lhe restava. O esforço se mostrava na palidez de seu rosto e na elevação superficial de sua respiração, mas ela não vacilou.

Seu foco se estreitou para um único ponto.

Ela voltou toda sua atenção para uma direção, para o lugar onde a luz parecia desaparecer.

A fonte de todo o caos.

Encarando-a, Evelyn reuniu toda a sua força restante, e...

Swoooooooooooosh!

Arremessou a lança.

A lança avançou, rasgando o ar com velofante.

Ela perfurou tudo em seu caminho, dispersando névoa e ondas de choque enquanto disparava em direção à esfera negra no céu.

Nada podia deter a lança.

Ela carregava consigo tudo o que Evelyn havia suportado. Cada traço de ressentimento, cada gota de desespero, cada esforço incansável que ela despejara para alcançar este momento havia se condensado naquele único golpe.

A lança avançou sem obstrução, cortando vento, detritos e névoa persistente como se nada disso existisse.

Nada a desacelerou.

Nada a desviou.

Nada... podia detê-la.

E então, atingiu a esfera.

O contato veio em um instante.

Por uma fração mínima de segundo, houve silêncio, um coração suspenso onde o mundo pareceu prender a respiração. Então a colisão explodiu em uma explosão estrondosa, luz e força estourando para fora enquanto o impacto sacudia o próprio ar ao redor.

BANG—!

O céu explodiu em um instante.

Uma luz ofuscante rasgou os céus, engolindo a tempestade inteira. Os ventos rugidores foram silenciados no meio do uivo, as nuvens rodopiantes dilaceradas como queimadas pela força bruta.

O frio cortante que agarrava a cidade desapareceu tão subitamente, substituído por um certo calor.

Acima deles se estendia um céu cinza opaco.

Um... que era o normal para a Dimensão Espelho.

Thump!

Fitando tudo isso, Evelyn se ajoelhou.

"E-eu... consegui."

Evelyn murmurou, seu rosto pálido enquanto olhava vazia para o céu cinza.

"Eu..."

Com lábios trêmulos, Evelyn olhou para trás.

Para a figura ajoelhada cujo corpo inteiro estava envolto em gelo, seu fino sorriso direcionado para ela.

Atrás dele, ela podia ver várias figuras.

Todas ficavam em silêncio, observando-a com sorrisos.

Um menino jovem. Uma menina jovem. Um garoto grande. Um velho. Uma jovem mulher.

Além deles, havia várias milhares de outras pessoas.

Ela podia senti-las todas olhando para ela.

Agradecendo-lhe.

Mas enquanto sentia seus olhares, Evelyn apertou o peito com força.

"E-eu... consegui."

Evelyn se inclinou para frente, pressionando a cabeça contra a neve.

"E-u cortei a tempestade."

O frio tocou sua testa.

"Eu cortei... a maldição. E-eu consegui... e-eu... consegui, eu... consegui, mas... m-mas..."

Fitando o corpo de Velar e vendo que todos os sinais de vida haviam desaparecido, Evelyn cobriu o rosto com ambas as mãos, seus ombros tremendo.

Naquele dia, Eisylra foi libertada.

A tempestade que amaldiçoara a cidade havia desaparecido.

Mas apesar de seus esforços, ninguém sobreviveu.

O frio partiu.

...Mas partiu junto com todas as vidas.

Desolação e um calor persistente foram tudo que restou.

Juntamente com o soluço silencioso de uma certa garota.

"V-verão."

Agarrando seu peito, ela chorou.

"E-eu não consegui... e-eu... não consegui. Eu não pude... te mostrar."

Pois apesar de seus esforços, ela ainda falhou.

Ela era inútil.

Isso ela sabia.

Mas mesmo em sua inutilidade, ela conseguiu.

Ela cortou o frio.

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