Advento das Três Calamidades

Capítulo 847

Advento das Três Calamidades

'Hahaha!'

'Passa a bola! Pra cá! Pra cá!'

'Quer comprar isso? Vem... é o melhor que você vai encontrar!'

'Que a Deusa esteja com você.'

'Está com frio? Coloca isso, vai te aquecer.'

Eisylra sempre fora conhecida como a Cidade do Gelo, e não era à toa. Apesar do frio intenso, os cidadãos conseguiam viver. Eles lidavam com o frio, adaptavam-se a ele. Com a ajuda da Deusa, todos conseguiam viver em harmonia.

'...Tô com fome.'

'Tô com frio... pode me dar um trocado?'

Nem tudo, porém, era perfeito.

Nenhuma cidade era impecável.

Mas, dentro da Dimensão Espelhada, essas falhas eram normais. As pessoas ainda viviam. Sobreviviam, e algumas até prosperavam.

Velar era uma dessas pessoas.

E não apenas prosperava, mas fazia os outros prosperarem também. Como um devoto seguidor da Deusa e um dos magos mais poderosos da cidade, ele tornou-se o guardião daquele lugar.

Ele vivia na cidade.

E a cidade o amava.

'Obrigado por tudo!'

'...Obrigado por nos manter seguros!'

'Que a Deusa esteja com você!'

'Como vai?'

Para onde quer que fosse, as pessoas o cumprimentavam. Respeitavam-no.

Velar gostava daquela vida.

Apesar do frio que tomava conta da cidade, todos ainda conseguiam viver e sobreviver. E era seu trabalho garantir que aquela paz durasse.

Ou pelo menos esse era seu pensamento inicial.

Porém, logo o frio chegou.

Um frio cortante tão intenso que até os mais acostumados tinham dificuldade em suportá-lo. Todos começaram a rezar para a Deusa, esperando por algum socorro. Mas, para o horror de todos os presentes, logo perceberam que sua conexão com a Deusa havia sido cortada.

Em vez disso, sentiram uma aterrorizante escuridão se voltar contra eles.

Uma escuridão tão terrível que muitos ficaram imóveis. Até mesmo os Príncipes ficaram indefesos.

Foi também nesse momento que o frio se tornou ainda mais cruel, penetrando nos corpos dos cidadãos comuns.

'A-ajuda! Me ajuda! Alguém me ajude...!!'

'V-v-velar! Me ajuda! Eu não consigo...! Não aguento mais isso!'

'Socorro! Socorro! O que está acontecendo! O que está acontecendo!?'

'Waaaah! Waaaah!'

Gritos.

Gritos desesperados.

Velar ouviu todos eles.

'Por favor, fiquem calmos! Apenas fiquem calmos! Todos que ainda estão bem, por favor, saiam da cidade! Eu resolvo a situação aqui! Cubram seus corpos com mana! Tentem não deixar o frio tomar conta!'

Velar fez tudo o que pôde. Esforçou-se ao máximo para evacuar as pessoas. Tentou controlar o caos.

Ele—

'.....'

Inevitavelmente falhou.

Crunch!

Enquanto estava de pé sobre a neve, seus cabelos balançavam ao vento forte, Velar encarava em branco o que restava da cidade. A outrora orgulhosa cidade fervilhante de vida tornara-se um deserto gelado.

Os milhares de estátuas eram um lembrete do que um dia foram.

'A-ah.'

Apesar de todos os seus esforços.

...Apesar de ter tentado de tudo para que todos fugissem, ele acabou falhando.

Nem uma pessoa.

Não havia conseguido salvar uma única pessoa.

O outrora aclamado guardião de Eisylra falhara na única tarefa que lhe fora confiada.

Lembranças de crianças rindo, de mercadores sorrindo enquanto trocavam mercadorias, e de trabalhadores erguendo imponentes prédios passaram pela mente de Velar enquanto ele continuava a encarar em branco a cena congelada diante de si.

Eram um lembrete de seu fracasso.

Daquilo que ele não conseguiu proteger, e naquele momento, ele sentiu...

Cra Crack!

As finas rachaduras no fundo de seu coração.

Daquele momento em diante, tudo pareceu um borrão para Ele. Vagava sem propósito pela cidade, lembrando-se constantemente dos lugares que um dia existiram. Havia vezes em que pensava em deixar a cidade, mas seu dever o impedia.

Essa cidade...

Era dele para proteger.

Até o fim.

Ele era a última pessoa que poderia ir embora.

A única coisa que podia fazer era procurar uma cura, mas por mais que tentasse, Velar não conseguia descobrir nada. Quanto mais tentava, mais percebia o quão impotente era.

Crac-Crack—!

Dentro de si, seu coração se partiu ainda mais.

Velar vagava sem rumo pela cidade, sem metas reais. Com a cidade que deveria proteger destruída, o que mais ele deveria fazer? Não descobria a causa da maldição, nem sabia por onde começar.

Ele era...

Inútil.

Swoooosh—!

Com o passar do tempo, o frio ficou mais forte, e o vento também. A essa altura, Velar já havia perdido a noção do tempo. Apenas vagava sem propósito pela cidade, esperando por algo.

Qualquer coisa.

E logo ele encontrou.

Clank!

'Haha, você voltou!'

'Velar!'

'Encontrou alguma comida? Ugh! Estou morrendo de fome aqui!'

'Comida...!'

Sobreviventes.

Dos milhares que viviam na cidade, Velar eventualmente encontrou sobreviventes. Cinco, para ser exato.

Um sujeito alto e corpulento. Reginald.

Uma menina. Pênelope.

Um menino. Ilyen.

Uma jovem mulher. Chloe.

E por último, Ol'Sal. Um velho excêntrico.

Desde o momento em que os descobriu, Velar encontrou um objetivo mais uma vez. Encontrou uma razão para continuar vivo.

Pessoas para proteger.

'Querem jogar pôquer? Tenho cartas aqui.'

'Eu quero jogar! Eu quero!'

'Eu também! Mas...! Não quero que o velhote roube!'

'Que absurdo!? Roubar? Sou digno demais para roubar! Que calúnia é essa!?'

Pela primeira vez desde que o frio chegou, Velar sentiu algo.

Um raro calor.

Calor que só podia ser encontrado ao ter uma razão para viver e pessoas para viver. Daquele momento em diante, Velar se aventurou mais longe. Procurou comida e recursos. Estava tentando prepará-los para sair daquele lugar.

Eles não podiam ficar ali mais tempo.

Especialmente as crianças. Eram jovens demais.

Ele precisava fazê-las partir.

Precisava—

'....E-eu tô com frio.'

'F-frio."

Velar ficou parado, olhando para as duas crianças enquanto elas se abraçavam, seus rostos pálidos enquanto o fitavam. Fitando-as, Velar ergueu a cabeça ao redor. Seu expression aos poucos se enrijecia ao ver as figuras familiares que um dia conheceu, agora reduzidas a meras estátuas de gelo.

Ele havia ficado fora por apenas algumas horas...

Como podia...!

Velar correu imediatamente até as crianças, usando sua mana para ajudá-las.

'Não, não, não, não...! Não!'

'I-irãozinho, V... Velar.'

A voz suave o trouxe de volta, e quando olhou para baixo, viu as duas crianças fitando-o, abraçadas uma à outra.

Seus lábios tremiam enquanto o encaravam.

'...F-frio.'

Pênelope murmurou.

'Eu sei. Aguente mais um pouco. Aguente...!'

'Tá... muito fri...'

p>Ela nunca conseguiu terminar suas palavras, seu corpo lentamente se transformando em estátua.

Ilyen veio logo depois.

'A-ah, mas... Eu... Não, eu...'

Velar continuou a despejar sua mana neles. Tentou derreter o gelo. Tentou de tudo. Mas, não importava o que fizesse, o gelo não parava; ele subia lentamente, envolvendo completamente as crianças.

Naquele ponto, independentemente do que Velar tentasse, nada acontecia.

Não havia mais nada que pudesse fazer.

'...A-ah.'

Mais uma vez, ele havia falhado em proteger a única coisa que deveria ter protegido.

'...'

Cra Crack!

Mais uma vez, ele estava sozinho.

Dessa vez, porém, não havia mais sobreviventes.

Naquele dia, ele tornou-se o último sobrevivente de Eisylra, a Cidade do Gelo.

Swooosh! Swooosh—

O frio ficou mais forte, e o vento também.

O gelo cobrindo a cidade ficou ainda mais espesso, e com ele veio uma nevasca furiosa, engolindo toda a cidade em branco.

Velar vagava pela cidade sem olhos, sem expressão.

Mesmo com o frio se intensificando e sua saúde claramente declinando, ele permanecia. Como único guardião da cidade, não tinha escolha senão ficar. Esse era seu dever.

Fez a única coisa que podia.

Pegando um pano, começou a limpar as estátuas.

Tentou preservar o que restava. Cada vez que limpava uma estátua, falava com ela.

'Faz tempo, Kyern. Faz tempo que não vou à sua loja. Quando tudo isso acabar, certamente vou visitar de novo. Lembra como você me deu aqueles lanches de graça? Ainda não te retribui por isso. Então, deixa eu... retribuir.'

'...Cylian. Você está um pouco sujo. Deixa eu te ajudar.'

Na solidão, Velar começou a falar sozinho.

Enquanto limpava as estátuas, começou a imaginar as pessoas que um dia conhecera. Por um momento, quase parecia que estava realmente conversando com elas, rindo e trocando piadas.

A solidão era algo brutal.

Havia tantas coisas que queria dizer, mas ninguém para realmente dizê-las. Queria falar sobre o frio. Sobre a maldição.

Tudo.

Só queria...

Sentir que estava vivendo de novo.

Às vezes, parecia que ele estava apenas existindo, não vivendo.

Sentia-se... tão sozinho.

Provavelmente por isso fez isso.

'Você será meus olhos.'

Cra Crack!

Com um aceno de mão, o gelo quebrou em uma das estátuas. A cor lentamente voltou ao rosto da menina enquanto ela abria os olhos.

'Velar!'

A menina inclinou a cabeça, olhando e falando exatamente como ele lembrava.

Mas Velar ainda não havia terminado.

Cra Crack!

'Você será minha voz.'

Uma cena semelhante ocorreu quando o gelo se quebrou do corpo de Ilyen, a figura familiar aparecendo diante de Velar. Porém, diferentemente do passado, ele já não podia mais falar. Ficara mudo.

'Você será meu ouvido.'

Depois veio Chloe.

A cor retornou às suas feições enquanto Velar destruía o gelo ao redor de seu corpo.

'Você será meu senso de dor.'

O gelo se quebrou do corpo do velho, seus olhos lentamente se abrindo.

E por último—

'Você será meu olfato.'

Velar apontou para Reginald, o gelo se quebrando enquanto ele também despertava.

Mas nenhum deles estava realmente acordado.

A solidão era algo brutal. Levava muitos a fazer coisas além do normal ou aceitável.

No caso de Velar, levou-o ao ponto em que criou bonecos do que um dia foram as pessoas que deveria proteger. Cada um representava um de seus sentidos. De certa forma, eram uma representação de quanto tempo ele ainda tinha.

No momento em que um congelasse, ele perderia aquela sensação.

No momento em que perdesse todos os cinco, restaria apenas um sentido.

Ele mesmo.

Paladar.

E quando esse também desaparecesse... isso marcaria seus últimos momentos.

'Vamos jogar uma partida de Pôquer.'

'...Hehe. Mas você não deve roubar, velhote!'

'Quem está roubando?!'

Mas quem poderia culpá-lo?

Em seus últimos momentos, Velar não queria ficar sozinho. Mesmo com o gelo ficando mais forte e toda a cidade congelando, ele ansiava banhar-se nos últimos vestígios de calor que restavam.

Essa era a... resistência de Velar.

Daquele momento em diante, Velar pensou que passaria seus dias restantes naquele pouco de calor que lhe restava, mas quem diria que encontraria novas pessoas novamente? Foi uma situação que o pegou completamente desprevenido.

Um menino e uma garota.

Nenhum dos dois era cidadão de Eisylra, mas compartilhavam um objetivo comum. Queriam se livrar da maldição que havia tomado conta de seu grupo. Velar quis dizer-lhes que não havia cura.

Que era impossível resolver o problema e partir.

Mas...

Mas....!!

Fazia tanto tempo que não falava com alguém.

Só mais um pouquinho, ele queria conversar com eles. Queria saber sobre o mundo além da cidade.

'É, só mais um pouquinho.'

E foi ali que ele aprendeu sobre o 'verão'.

Descobriu isso de uma das novas pessoas, Julien. Era um tanto enigmático para Velar pois possuía uma calma estranha que parecia reconfortante.

Ao mesmo tempo, também havia Evelyn.

Ela era um pouco diferente de Julien. Lembrava dele sobre como sempre parecia ter um desejo de provar algo, e sua vontade de ser reconhecida.

Eram realmente muito parecidos.

Talvez fosse por isso que ele a ensinou, mesmo sem ter muita esperança. Foi também através dela que ele aprendeu mais sobre esse tal de 'verão'.

Pensando em sua descrição, Velar não conseguiu evitar imaginar como as crianças e todos os outros reagiriam à ideia de um verão. Podia visualizar claramente, e o pensamento o fez sorrir.

Foi uma pena que nunca mais pudesse ver isso.

Porque...

p>Já era tarde demais para ele.

Antes que percebesse, Velar começou a perder seu olfato.

Em seguida veio sua sensação de dor.

Depois sua audição. Sua visão.

… E por último, sua voz.

Um por um, Velar começou a perder partes de si. Logo, nada restava além de seu paladar, que também começava a desaparecer. Naqueles últimos momentos, Velar começou a seguir sua memória, caminhando de volta até as estátuas e limpando-as.

Nem sequer tinha certeza de que estava fazendo certo, mas isso não importava para ele.

Só queria...

Continuar cumprindo seu dever, mesmo em seus últimos momentos.

Estava escuro.

Frio.

...E solitário.

De verdade.

Velar encontrou-se cada vez mais perdido em si mesmo. Pensou que tudo acabaria em breve, mas justamente quando achou que tudo terminaria—

Cra Crack!

Sentiu algo.

Profundo em seu corpo, sentiu algo.

Cra Crack! Cra Crack!

Mais uma vez, algo ecoou. Dessa vez, mais forte. Quanto mais Velar sentia, mais começava a compreender, enquanto flashes roxos cruzavam sua mente.

Foi aí que ele se convenceu...

Evelyn.

Ela estava tentando algo.

Comentários