Advento das Três Calamidades

Capítulo 823

Advento das Três Calamidades

O treinamento de Evelyn ficou mais intenso.

Ela só aparecia no meio da noite ou quando precisava aliviar o gelo que se espalhava pelos outros no cômodo. Cada vez que surgia, sua presença parecia mais fraca, seu rosto ficava mais pálido a cada dia que passava, e tudo o que eu podia fazer era observar em silêncio.

Não a impedi.

Decidi respeitar seus desejos enquanto buscava uma maneira de ajudá-la.

"Ei, Julien."

Uma vozinha me tirou dos meus pensamentos.

Deitada no chão ao meu lado, a menina piscou os olhos.

"Você pode me contar mais sobre o mundo de onde você veio?"

"De onde eu vim?"

"Sim. Sim."

A menina assentiu.

"...Eu nunca saí de perto daqui. Fico curiosa. Como é lá? É quente?"

"Quente?"

Bom...

"Depende."

"Quê...?"

Os olhos grandes de Penelope piscaram. Apesar de não enxergar, isso não significava que não precisasse piscar.

"A temperatura pode mudar? Mas como...?"

"Bom, é principalmente porque o clima lá muda de acordo com a estação."

"Estação? O que é isso?"

"É assim."

Comecei a explicar à menina o conceito de estações e como elas funcionavam. Ela ouviu tudo com maravilha, seus olhinhos brilhando a cada nova explicação.

"Isso é incrível!"p>

É claro que Ilyen também achou interessante.

Só que ele demonstrava sua animação pelos movimentos, agitando as mãozinhas.

"Então no sommer pode ficar muito quente?"

"Summer."

Corrigi antes de assentir.

"Isso. Pode ficar muito quente no verão. Às vezes, fica tão quente que é bem desconfortável. Só de ficar do lado de fora já começamos a suar."

"Sério?"

"Sim, sim."

Eu sabia que estava perdendo tempo conversando com as crianças, mas ao ver suas expressões, não conseguia parar. Era evidente que elas nunca tinham saído da cidade. Jovens demais, e talvez presas por circunstâncias que não podiam controlar.

Mas a próxima pergunta que ela fez me fez parar.

"Você acha que vou conseguir sentir isso? O verão?"

"....."

Diante da pergunta dela, não consegui responder.

Minha garganta secou ao encontrar os olhos da menina e do menino, ambos me olhando com uma esperança silenciosa e frágil que eu não sabia como responder.

Como se percebessem minha hesitação, as expressões deles se apagaram.

Só para a menina sorrir novamente.

"Bom, eu odeio suar. Talvez eu nem queira ver depois de tudo."

Assentiu. Assentiu.

Ilyen assentiu ao lado dela, e meu coração afundou.

"Ei, hei."

p>Uma voz rouca soou atrás de mim. Quando me virei, vi o velho se aproximando com um sorriso preguiçado no rosto. Ele levantou a mão e apontou para as crianças, balançando a cabeça em desaprovação silenciosa.

"Vocês dois não tentem me passar pra trás. Se alguém vai ver esse sommer, serei eu."

"É verão, velho."

Penelope corrigiu, cruzando os braços.

"Hã...?"

O velho olhou pra mim, sua expressão parecendo dizer 'Eu não estou errado, né? Eu ouvi direito? Me diz que estou certo!'

"Sim, é verão."

O velho pareceu desesperado, e as crianças riram.

Olhei pro velho e sorri. Não era ingênuo. Percebi que ele fez de propósito, tentando levantar o astral de seu jeito sutil.

Secretamente agradeci de coração, enquanto ele se sentava ao meu lado.

"Bem, na verdade, estou curioso sobre esse somal—"

"Verão."

p>"Ah, certo, o que vocês jovens quiserem chamar. Heh. Sabe, eu também estou curioso sobre esse negócio de verão. Moro nessa cidade chata a vida toda, nunca vi nada assim. Ouvi dizer que lá em Kyron, o clima é mais ou menos igual. Talvez seja de lá que você é, hein?"

"Kyron...?"p>

Pensei por um momento. Se não me enganava, essa era a Cidade do Fogo.

'...Eles provavelmente estão passando pelo que a gente está passando. Só que é mais relacionado a fogo do que frio.'

Estremece só de pensar.

Talvez a gente não estivesse tão mal aqui.

p>"Não, eu não vim de lá. Nunca fui em Kyron, mas imagino que por lá não exista inverno."

"Ah, claro."

O velho deu uns tapas na própria cabeça.

"Velho bobo. Como eu podia esquecer uma coisa dessas?"

Deu risada antes de continuar o papo. O velho Sal... Era assim que ele era. Falava demais e era especialmente bom de ler o clima. Com apenas algumas palavras dele, as crianças não pareciam mais tristes, e eu me senti muito melhor.

"Heh, sabe, no meu tempo, a gente saía na neve e arremessava bolas de neve em qualquer um que passava. Se metia em todo tipo de confusão, mas caramba, era bom. De um inverno, um dos até atirou uma num cara daquela igreja. Hah! Nem preciso dizer, ele se deu pior que a bola de neve."

"Hahahaha! Sério?! Que gente boba...!"

Até eu não pude deixar de sorrir ao ouvir algumas histórias dele. Eram bem divertidas.

"Mas sabe de uma coisa..."p>

Inclinando a cabeça contra a parede, o velho fitava as luzes lá de cima, seu sorriso desaparecendo por um instante enquanto sua mão se estendia pra cima.

Ele ficou em silêncio por um momento.

Mas depois—

p>"...eu estou curioso sobre esse negócio de verão. Na verdade, também estou curioso pra ver como são as outras cidades. São tão bonitas quanto aqui? Ou piores? Como a grama parece? E a comida, como é?"

Os olhos do velho estavam um pouco turvos enquanto falava.

p>Eu entendia de onde ele vinha. Preso no mesmo lugar, provavelmente queria ver como era o mundo fora da bolha em que vivia.

"Mas sabe, acho que também está tudo bem assim."

O velho sorriu novamente, rindo um pouco.

p>"...Tive uma vida boa. Não há arrependimentos reais. Só desejos."

Com um "huaaa" suave, ele se ajudou a levantar, tocando as costas. Seu rosto se contorceu ao fazer isso, "Ai, minhas costas! O que eu tava pensando, sentando aqui? Levanto mais devagar do que pra dormir!"

Olhando pra ele, sorri novamente.

'Ele nem está tocando as costas dele. Está tocando o quadril.'

"Cala a boca, velho!"

Uma voz cortou a cena um momento depois.

"Todos sabemos que suas costas estão ótimas. Mesmo que estivesse sentindo dor, provavelmente não sentiria."

"Ei, cuidado, moça! Isso é jeito de falar com os mais velhos, hein?"

"Para, por favor. Estou tentando me concentrar."

p>"Que concentração? Sei que você está fingindo. É só inveja de ouvirmos tudo isso e você não."

"Tá, tá."

Chloe acenou a mão de forma dismissiva pro velho.

"O que te faz dormir."

"Ai, ai... a geração de hoje em dia. Realmente não sabe mais falar com os mais velhos."

Reclamando consigo mesmo, o velho foi se sentar no sofá. Ao se sentar, murmurou, "Verão, hein? Que coisa interessante."

Ele parecia perdido em pensamentos, provavelmente ainda refletindo sobre nossa conversa anterior. Então senti um puxão gentil em minha manga e olhei para baixo para ver a menina me olhando com olhos grandes e curiosos.

"Você não falou sobre a Primavera e o Outono. Como são?"

"Primavera e Outono? Hmm." Pensei por um momento, e estava prestes a responder, quando...

"Hic!"

Um grito súbito cortou o silêncio, assustando todos. Virei a cabeça e vi o velho se levantar abruptamente do sofá, uma mão agarrando o peito enquanto a cor fugia de seu rosto.

"Cof! Cof—!"

Começou a tossir pesado, e as crianças correram imediatamente em sua direção.

"Velho Sal!"

".....!"

Até Chloe pareceu assustada enquanto corria pra ele.

"Ei, ei!"

Mas era inútil.

"Cof! Cof!"

O velho continuava tossindo, cada vez mais forte. As crianças começaram a chorar imediatamente, e como se percebesse isso, o velho forçou-se a suprimir a tossida enquanto se sentava de volta no sofá e forçou algumas palavras:

"Estou... bem."

Ele acariciou as cabeças das crianças enquanto fazia isso.

“Viu? Eu estou… cof!!”

"Hei! Hei! Para de falar, seu velho rabugento!"

Chloe correu até ele, pressionando a mão contra o peito dele enquanto um brilho suave se espalhava de sua palma. Mana fluía para o corpo dele, e por um breve momento, a tensão em suas features amenizou. Mas conforme os segundos passavam, sua aparência continuava pálida, e ficava cada vez mais claro que seus esforços eram em vão.

Eu tentei me ajudar, mas não adiantou.

Não era minha especialidade.

A única coisa que podia fazer era fornecer minha mana para Chloe.

Clank—!

Não passou muito tempo antes que a porta se abrisse e duas figuras entrassem.

"Velar!"

"...Irmã!"

Nenhuma das duas fez som enquanto corria pro velho.

"Saem da frente."

A expressão de Evelyn endureceu com resolução. Ela se moveu para o lado do velho e pressionou as mãos contra o peito dele. Um rosnado baixo e abafado emanou dela enquanto finas descargas de relâmpago começavam a crepitar em seus olhos, o ar ao redor zumbindo com suas ações.

Velar também não ficou parado.

Ficou do lado oposto a Evelyn e fez o mesmo.

Com os dois trabalhando juntos, a aparência do velho melhorou visivelmente.

Por um momento, todos começaram a relaxar. Eu também.

Pensei que eles resolveriam a situação.

Mas—

"Pfttt!"

Sangue jorrou da boca do velho, espirrando no chão enquanto seu rosto perdia toda a cor. Gelo começou a se espalhar debaixo de seus pés, finas garras de gelo se arrastando para cima, envolvendo suas pernas e subindo em direção ao peito.

"Sal!"

"Droga, velho!"

"....!!"

A expressão de todos mudou. Todos, menos uma pessoa.

p>Evelyn ficou perfeitamente imóvel, seus olhos bem fechados enquanto concentrava toda sua força para impedir que o velho piorasse. Suas mãos tremiam ligeiramente, mas ela não vacilou, derramando cada gota de sua energia restante para conter a doença.

Mas mesmo com toda a sua atenção e a ajuda de Velar, o gelo não parou.

Continuou subindo no velho.

Lentamente, o gelo começou a subir, envolvendo suas pernas centímetro por centímetro, espalhando seu aperto frio por todo o corpo.

Cra Crack! Cra Crack!

Os rosnados baixos de trovão continuaram pulsando dentro de Evelyn, vibrando levemente no ar. Seu rosto ficou ainda mais pálido, e ela mordeu o lábio até uma fina linha de sangue aparecer. Apesar disso, ela continuou, forçando cada última gota de sua mana pro velho num esforço desesperado para salvá-lo.

Ela não disse nada, mas eu pude ver o que estava pensando.

Não a parei.

Em vez disso, comecei a ajudá-la.

Usando minha Magia Emotiva, tentei acalmar sua mente. Até injetei minha mana no corpo dela.

Fiz tudo o que pude.

Tudo.

Mas tudo não foi suficiente.

"P-para."

As palavras do velho ecoaram no ar, fazendo tudo parar enquanto ele fitava o teto sem expressão. Metade de seu corpo já estava congelada.

"Para... de gastar energia comigo."

Ele sorriu.

"...É tarde demais pra mim."

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