
Capítulo 822
Advento das Três Calamidades
"Reginald!"
"...O que está acontecendo!? Ei! Ei!"
Os gritos ecoaram alto pelo cômodo. Eram altos e cheios de pânico.
Eram difíceis de ignorar, e quando entrei na sala, vi todos olhando na direção da estátua no centro do quarto. Era Reginald, o homem musculoso de antes.
Evelyn ficava não muito longe dele, o rosto pálido e os olhos perdidos.
As crianças choravam ao lado dele.
"Mas... eu..."
Franzi a testa.
'O que exatamente aconteceu enquanto eu estive fora?'
Tudo havia corrido bem desde então.
Como as coisas deram uma reviravolta tão de repente?
"Acalmem-se, todo mundo. Deixe-me ver por um momento."
O único que se manteve calmo foi Velar. Ele avançou e colocou a mão contra a superfície da estátua. O silêncio tomou conta da sala enquanto todos o observavam, esperando em tensão enquanto ele tentava avaliar a situação.
Mas—
A expressão de Velar se complicou quando ele retirou a mão.
Isso foi tudo que todos precisaram ver para entender.
"Não!"
"Droga!"
"R-Reginald...? E-ele...?"
Lágrimas brotaram nos olhos da garota cega enquanto ela segurava a manga de Velar.
"Tirem-no desta sala. Não há nada que possamos fazer."
".....!"
".....!"p>
As palavras de Velar selaram a situação, e as duas crianças não conseguiram mais se conter e começaram a chorar. O rosto de Chloe se complicou, mas logo ela foi consolar as crianças.
"Não se preocupem. Ele só virou estátua. Quando descobrirmos a situação, poderemos ajudá-lo."
Suas palavras ajudaram pouco, mas todos sabiam a verdade.
Ele estava...
Morto.
'Não sinto nenhuma mana dentro do corpo dele.'
Meu coração ficou pesado.
Talvez eu não conhecesse Reginald há muito tempo, mas já havia me acostumado um pouco com ele. Ele era meio burro, mas também muito amigável. Era o tipo de pessoa que falava o que quer que estivesse em sua mente.
"Quem vai tirá-lo daqui? Temos que fazer isso antes que ele se transforme."
"...Eu vou."
Chloe se ofereceu.
"Vou colocá-lo onde estão as outras estátu—"
"N-não, não vá."
Uma mãozinha agarrou sua camisa antes que ela pudesse sair. Era da garotinha, o rosto pálido enquanto ela 'olhava' na direção de Chloe. Ou melhor, ela olhava na direção de onde a voz de Chloe soava.
"E se... algo acontecer com você também? Não vá..."
"Não se preocupe."
Chloe a consolou, acariciando sua cabecinha.
"Nada vai acontecer comigo. Você sabe que eu sou muito mais forte que Reginald. Eu também sou uma das únicas que pode levá-lo até lá. Só esperem um pouco, tá? Eu prometo que vou voltar."
A garotinha tentou protestar de novo, Ilyen ao lado dela, escrevendo furiosamente coisas com a mão contra a coxa de Chloe, mas Chloe apenas sorriu em resposta.
"Como eu disse, confiem em mim. Eu vou voltar."
No fim, o choro das crianças não impediu Chloe de sair.
Clank—!
Um silêncio pesado tomou conta da sala enquanto Chloe partia, a estátua em seus braços. Parecia pesada, mas ela a carregava com facilidade, seus passos firmes e tranquilos.
Conforme o silêncio se instalou pelo cômodo, voltei minha atenção para Evelyn novamente.
Seu rosto ainda estava pálido, e suas mãos tremiam.
Podia ouvir ela murmurar de onde eu estava, 'M-mas... eu achei que eu...'
Sem dizer uma palavra, caminhei até o canto da sala e me sentei. Ao fazer isso, meus olhos percorreram lentamente o espaço, absorvendo tudo. As crianças se abraçavam, chorando baixinho, enquanto Velar sentava-se em seu lugar em silêncio, os olhos fechados como se estivesse perdido em seus próprios pensamentos.
O velho parecia relativamente calmo, os olhos fechados enquanto se sentava no sofá.
Absorvendo tudo, respirei fundo.
'O que diabos aconteceu?'
Como a situação poderia ter dado uma reviravolta tão repentina?
Não fazia sentido algum. Pelo que eu entendia, Evelyn estava fazendo um bom trabalho em acalmar o gelo. Para ele ter se intensificado de repente assim...
p>Só havia uma explicação.
"...O gelo está começando a piorar. Ou melhor, a maldição."
A constatação fez minha respiração pausar.
Olhando para cima, de repente percebi por que Velar estava perdido em seus próprios pensamentos. Ele provavelmente havia percebido isso também.
'Merda.'
Amaldiçoei em silêncio.
A maldição piorar só significava uma coisa.
'Leon e os outros... Eles têm ainda menos tempo.'
Olhei para Evelyn e cerrei os dentes.
Ela conseguiria mesmo melhorar suas habilidades antes que fosse tarde demais?
*
"Voltei."
Felizmente, Chloe voltou dez minutos depois.
As crianças pularam de alegria, correndo até ela enquanto ela sorria e as abraçava.
"O que eu disse? Eu disse que voltaria. Não há do que se preocupar quando se trata de mim."
Por um momento, o clima dentro da sala pareceu melhorar.
Mas o logo sorriso desapareceu de seu rosto ao olhar para Velar.
"O gelo lá fora piorou. Está ficando ainda mais frio. Receio que as estátuas também tenham ficado mais fortes por causa disso. Não sei se conseguimos manter as coisas assim por muito mais tempo."
"....."
Velar permaneceu em silêncio, sua expressão ilegível.
Mas eventualmente, seus lábios se abriram.
"E o nevoeiro?"
"...Piorou ainda mais. Mesmo que tentemos fugir deste lugar, não adianta."
Fugir?
Ouvindo a conversa deles, levantei a sobrancelha.
Eles estavam pensando em fugir?
'Não, não acho que seja esse o caso.'
Voltei a pensar na conversa que havia ouvido de Velar antes. Tinha certeza de que fugir era a última coisa que ele queria fazer. Mas sim, ele provavelmente estava pensando nisso pelas crianças.
'...Ainda assim, não acho que seja sequer viável.'p>
Havia uma certa janela de tempo em que o nevoeiro não era denso e as estátuas não se moviam, mas mesmo assim, dado o tamanho colossal da cidade, seria impossível escapar. Eu havia pensado em fazer isso antes, carregar Leon e os outros e sair da cidade, mas percebi bem rápido que seria perigoso demais.
Não apenas pelo consumo de mana, mas também por não me ajudar em nada a descobrir uma forma de trazer Leon e os outros de volta.
"Entendo."
A voz de Velar permaneceu relativamente calma apesar da situação.
Examinando os arredores, seu olhar eventualmente pousou em Evelyn. Ela havia se acalmado um pouco, e sentindo o olhar de Velar, ela estremeceu por um momento.
Mas logo, sua expressão se acalmou novamente.
Não, tornou-se resoluta.
"Eu... acho que consigo."
Ela não conseguia.
Podia ver em seu rosto que nem ela mesma acreditava nisso.
"Treine-me mais. Eu aguento."
"Você tem certeza...?"
"Sim."
"...Certo."
Velar se levantou de seu assento, caminhando até Evelyn.
Naquele momento, todos os olhares estavam fixos em Evelyn enquanto ela estabilizava a respiração e encontrava os olhos de Velar. Os dois ficaram assim até que Velar assentiu e se dirigiu à porta.
"Vamos. Não temos tempo a perder."
Os dois saíram logo em seguida.
Não disse nada e apenas fiquei olhando para a porta. Relembrando as palavras que Evelyn me disse, não a desencorajei ou disse nada para impedi-la.
Em vez disso, comecei a pensar em outra coisa.
Em como...
Ajudá-la.
***
Swooosh—!
O vento soprou com força.
De pé na frente de Velar, Evelyn respirava fundo e pesadamente enquanto leves ruídos abafados ecoavam de dentro de seu corpo. Essa era a forma dela manter o corpo aquecido e impedir que o gelo invadisse cada centímetro de seu corpo.
"Como você sabe, a situação mudou um pouco. Parece que a 'maldição' ficou ainda mais forte do que antes, e infelizmente, Reginald foi a primeira vítima."
"...Sim."
O coração de Evelyn ficou pesado ao pensar em Reginald.
Ela não era muito próxima dele, mas por ter 'curado' todos naquela sala, havia desenvolvido certos laços com cada um deles.
O fato de ele ter virado uma estátua...
'É minha culpa. Se eu tivesse melhorado mais rápido."
"Não é sua culpa."
Velar falou, aparentemente lendo seus pensamentos. Mas não era realmente difícil, já que a atual Evelyn estava com os pensamentos estampados no rosto.
"Esta é uma situação que infelizmente ocorreu. Você estava indo muito bem. Seu ritmo de progresso tem sido incrível, e todos viram como você conseguiu desacelerar o gelo dentro do corpo de todos."
Um sorriso surgiu no rosto do homem.
"Não se culpe pelo que você não pode controlar. Não deixe esses pensamentos te puxarem para baixo. Apenas mantenha o foco no que está por vir. Você está indo muito bem, e todos aqui são gratos a você."
"....."
Os lábios de Evelyn tremeram.
Isso...
Essa era a primeira vez que ela ouvia algo assim, e seu peito não pôde evitar tremer. Pela primeira vez, ela sentiu o peso da responsabilidade. Ela sentiu... uma profunda confiança.
Em toda a sua vida, essa foi a primeira vez que ela experimentou algo assim.
'Sim, eu não estou errada."
Evelyn cerrou os dentes, pensando nas coisas que havia dito a Julien.
Ela havia dito as palavras no calor do momento, mas ao mesmo tempo, esses eram seus verdadeiros pensamentos.
Ela não estava lá apenas para se aproveitar dele.
Evelyn era sua própria pessoa.
Ela queria ser útil. Ser alguém em quem os outros pudessem confiar. Ela não queria ser apenas aquela que discutia com Kiera e Aoife enquanto não fazia mais nada.
"Você está pronta? Este treinamento vai ser ainda mais intenso do que antes."
Saindo de seus pensamentos, Evelyn olhou para Velar.
Cra Crack! Cra Crack!
O relâmpago dentro de seu corpo crepitou ainda mais, e seus músculos se tensionaram.
Uma dor aguda percorreu seu peito, quase fazendo-a vomitar enquanto o gelo que ela vinha suprimindo se espessava dentro de seu corpo. Mas Evelyn se forçou a ignorar, a dor, o peso crescente em seu braço, e simplesmente assentiu.
"Estou pronta."
"...Certo."
Velar assentiu, e um círculo mágico se formou em sua mão.
Olhando para ele, Evelyn tentou imitá-lo enquanto a dor em seu peito aumentava.
'Eu não vou ficar parada sem fazer nada. Mesmo que meu corpo se quebre, e eu possa virar uma estátua também, vou tentar até o fim."
Essa era a luta dela.
A luta de Evelyn.