
Capítulo 790
Advento das Três Calamidades
“Chega disso.”
Bati as mãos uma única vez e parei tudo o que estava acontecendo. Imediatamente, toda atenção voltou-se para mim, enquanto direcionava meu foco para An'as.
“...Vou direto ao ponto. Preciso da sua ajuda para entrar em contato com a Deusa. Preciso falar com ela.”
“O quê?”
A expressão de An'as mudou sutilmente. O mesmo aconteceu com Anne, ambos me olhando surpresos e confusos.
“Você quer se encontrar com a Deusa? Por quê?”
“Há algo que preciso perguntar a ela.”
Não me alonguei mais, mas os dois pareceram entender o que eu quis dizer, trocando um breve olhar. Finalmente, a expressão de An'as mudou, uma expressão complexa se espalhando por seu rosto.
“Se você tivesse me perguntado há algum tempo, eu provavelmente teria conseguido fazer alguma coisa, mas a situação atualmente está um pouco complicada. Toda a Igreja foi fechada, e aqueles do Trono de Solas estão difíceis de localizar.”
“Está acontecendo alguma coisa?”
“Sim.”
An'as não escondeu nenhuma informação. Me contou tudo o que sabia. Ou talvez, tudo o que lhe tinham permitido compartilhar.
Mas foi suficiente.
“Há uma substância estranha se espalhando por toda a região. Ela ajuda as pessoas a ganhar força, mas, ao mesmo tempo, as enlouquece. Não sei muito sobre ela, já que só quem vem do Trono de Solas parece compreender bem a situação, mas pelo que ouvi, não é só aqui que acontece. O mesmo está ocorrendo em outros territórios também. Estamos começando a perder o controle e, por isso, ficou quase impossível para mim me reunir com a Santa Viva atual ou com alguém do Trono de Solas.”
Quanto mais ouvia as palavras de An'as, mais minha testa franzia.
Essa situação estava ficando cada vez mais complicada.
'Que substância é essa que ele está falando? Por que ela está se espalhando? Outros territórios também? Isso foi obra de um deus ou de algo mais?'
Minha curiosidade deu o melhor de mim, e eu prestes a pedir mais detalhes sobre a substância estranha, An'as estendeu a mão e colocou uma pequena garrafa de vidro e uma vela na mesa.
“Aqui.”
Ele empurrou os objetos na minha direção.
“São os itens que consegui recentemente. Dê uma olhada neles.”
Curioso, peguei a garrafa e examinei seu conteúdo, mas, no instante em que meus dedos tocaram no vidro, uma sensação ardente percorreu minhas veias. Meu sangue parecia ferver, e uma onda de constatação aguda me atingiu quase que instantaneamente.
“Isto...!”
Abri a boca, observando a garrafa com atenção.
“Isso é o sangue de——”
As palavras desapareceram da minha boca no momento em que estava prestes a pronunciá-las, meus olhos se arregalando por causa disso. Tentei de novo, mas o resultado não mudou.
“De quem é o sangue?”
“Fale logo.”
“Por que não está terminando sua frase?”
Podia claramente ver a frustração estampada no rosto de todos na sala, enquanto seus olhares se fixavam em mim. As expressões deles diziam mais do que palavras poderiam expressar, e, ao vê-los assim, só consegui oferecer um sorriso amargo.
Felizmente, Leon estava lá para me cobrir.
“Algo está impedindo ele de falar as palavras.”
“Hã?”
“É sério isso?”
Sem dizer uma palavra, simplesmente assenti e devolvi a garrafa à mesa, antes de pegar a vela. No momento em que meus dedos tocaram nela, a mesma sensação percorreu meu corpo.
Meu sangue ferveu como se estivesse em chamas.
Ficando tenso, coloquei a vela de volta na mesa.
'Isso é muito mais complicado do que eu esperava.'
Isso também levantava muitas perguntas. Por que o sangue estava sendo distribuído? O que estava causando tudo isso? Os Entes Externos finalmente estavam agindo? E será que essa também é a razão de Panthea não estar se movendo?
'...O que exatamente está acontecendo?'
Quanto mais pensava na situação, mais ela me parecia estranha.
“Entendo que você tem uma ideia do que essa substância estranha seja, mas não pode falar sobre isso.”
Olhei de volta para An'as e depois para Anne, abri a boca, mas acabei fechando-a antes de assentir. De fato, não podia falar. Não porque não quisesse, mas porque simplesmente não podia.
“Entendi.”
An'as recostou-se na cadeira, seu olhar permaneceu nas coisas dispostas na mesa, sua expressão indecifrável, como se tentasse juntar peças de algo só ele podia perceber.
Por fim, olhou de volta para mim.
“Já que parece entender o que está acontecendo, o melhor seria você conversar diretamente com a Deusa. Infelizmente, não menti quando disse que não posso marcar um encontro com ela. Mas,” An'as fez uma pausa, sua voz suavizando um pouco, “não é totalmente impossível para mim ajudar você a encontrar alguém do Trono de Solas.”
“Você consegue?”
Meus olhos brilharam.
Eu só precisava encontrar alguém com autorização suficiente para contactar a própria Deusa. Desde que ela tomasse conhecimento da minha presença, tinha certeza de que conseguiria marcar uma audiência com ela.
'Tenho certeza de que ela sabe algo sobre Noel. Pelo jeito que ele a salvou no passado, acho que o relacionamento deles não é ruim. Não faria sentido trabalharem juntos se fosse uma relação péssima. Haha... Talvez eles até tenham uma ligação especial.’
Quase ri com a ideia. Não conseguia imaginar Noel ficando com alguém, mas, ao lembrar da mãe de Julien, meu rosto meio que tremeu.
Com certeza...
“Deixa eu ver se consigo organizar alguma coisa. Vai ter uma reunião importante entre os Tronos em breve. Posso tentar ver se consigo colocar meu nome lá.”
Levando-se, An'as puxou um dispositivo estranho e saiu do cômodo pouco tempo depois. Observei suas costas indo embora antes de me virar para Anne.
Ela me olhava, depois olhou para o resto do ambiente.
“Vocês...”
“Somos todos da mesma idade.”
Seu rosto desanimou enquanto ela se levantava, murmurando coisas como: “Hoje em dia esses garotos assustam. Não posso acreditar que todos são tão fortes assim, tão jovens. O que as famílias deles alimentaram nesses meninos?”
Ela saiu do cômodo logo depois.
O que aconteceu após sua saída foi um breve momento de silêncio. Até que Kiera quebrou o silêncio, me olhando fixamente.
“Como exatamente você conheceu essas pessoas?”
“Também estou um pouco curioso.”
Evelyn entrou na conversa.
Virei a cabeça e vi Leon e Aoife também me olhando, então dei uma explicação rápida.
“Foi na época em que eu estava na Dimensão do Espelho, quando tecnicamente morri.”
“Ah, sim. A hora que você 'morreu' e reapareceu. Faz sentido.”
“Certo, certo... Não é estranho algo assim. Já devemos estar acostumados com Julien saindo, assim como ele saiu por três anos inteiros.”
“.....”
Na verdade, eu não tinha saído...
“Você conheceu alguém nesses três anos que permaneceu desaparecido?”
Olhei para Leon.
Ele fez uma careta ao me olhar.
“Provavelmente não.”
Parece que todos ainda guardavam rancor...
Suspirei.
Tudo bem, tudo bem. Vou aceitar isso.
Embora não fosse minha culpa, e fosse necessário, ainda conseguia entender por que eles estavam bravos. O mundo havia mudado bastante desde minha partida, e muitas coisas aconteceram por causa das ações do ‘Julien’.
Com isso em mente—
“Na verdade, não fiquei fora por muito tempo. Fiquei apenas um dia—”
“Tudo bem, dá para fazer.”
A voz de An'as interrompeu a minha, entrando novamente na sala, segurando um dispositivo estranho. Olhou ao redor antes de fixar o olhar em mim.
“...Vai acontecer uma reunião entre os Tronos de Solas em breve. Embora eu não possa prometer que consigo marcar uma audiência com eles, posso garantir que você participe da reunião. O que acontecer daqui para frente vai depender só de você. Pode ser?”
Olhei para An'as e levantei-me da cadeira.
“Assim está bom.”
Tudo que eu precisava era de uma reunião.
Era tudo que eu precisava.