
Capítulo 777
Advento das Três Calamidades
O corpo de Leon começou a brilhar com linhas azuis tênues. Elas cruzavam sua pele, seguindo o caminho de cada veia, até que todas convergiam em direção ao seu peito. No peito, o brilho se intensificou, não formando a silhueta de seu coração, mas o contorno sutil de um cálice.
Os lábios de Julien se curvaram ao ver aquilo.
'Lá está.'
Seu coração acelerou. Aquilo era exatamente o que ele vinha procurando o tempo todo. Ver aquilo deixava seu peito apertado, a respiração presa entre o alívio e a excitação.
O Cálice diante dele era a chave para sua liberdade.
'...Não quero mais ficar preso naquela prisão.'
Nos últimos dois anos, Julien aprendeu a valorizar a vida que tinha. Era estranho, mas durante todo o tempo em que esteve preso, aprendeu a admirar e apreciar tudo o que antes desprezava.
Desde a brisa suave do vento, o aroma delicado das flores, até o calor constante do sol.
Julien descobriu que havia mais no mundo do que seu caminho estreito de ódio e vingança. Essa era também a razão de ter conseguido se acalmar tanto. Finalmente aprendeu a valorizar sua vida e não tinha intenção de deixar que nada ou ninguém a levasse embora.
"Pode me entregar logo."
Julien deu um passo em direção a Leon.
Ele não estava bem. A magia da maldição corroía-o por dentro, disseminando-se descontroladamente por suas veias. Sangue escorria do seu nariz, das suas orelhas e até dos cantos dos olhos, deixando seu rosto manchado de sangue.
No entanto, Leon não parecia prestes a desistir. Mesmo cambaleando, ele permanecia de pé, o olhar fixo em Julien.
Ao ver Leon agir dessa forma, o sorriso no rosto de Julien desapareceu.
"Por que você está lutando tanto?"
Ele não conseguia entender.
Não era apenas um cavaleiro? Pelo que sabia, também era um príncipe. Ainda lutava para entender como um príncipe havia se tornado seu cavaleiro, mas isso não importava.
O que importava era...
"Qual a graça de fazer tudo isso se você puder simplesmente voltar para casa, ficar com sua família e aproveitar uma vida boa? Você não é mais cavaleiro. Por que faz essas coisas?"
Julien não fazia essa pergunta só por curiosidade.
Ele queria perder tempo.
Quanto mais demorasse, mais forte ficava a magia da maldição, apertando sua mão a cada momento. Julien sabia o quão poderosa era Leon. Se possível, não queria correr riscos. Especialmente porque entendia que Leon não era a única pessoa presente no Espelho Dimensional.
Ele estava praticamente cercado de todos os lados.
"...H-há."
Uma risada suave chamou a atenção de Julien novamente, enquanto ele olhava para Leon. Com um sorriso que parecia ter tirado tudo dele, ele murmurou: "Eu também me pergunto."
"O que isso quer dizer?"
"Eu... não sei."
Leon respirou fundo várias vezes, levantando e abaixando os ombros enquanto forçava os olhos a se fecharem. O sangue ainda escorria de suas pálpebras, deslizando por suas bochechas, mas ele ignorou a dor e se concentrou para dentro.
O cálice inscrito dentro dele pulsou uma vez, uma luz tênue ondulou por suas veias, e lentamente, suas feridas começaram a se fechar.
"Huh...?"
As mudanças repentinas surpreenderam Julien, que ficou tenso.
O Cálice dentro do corpo de Leon pulsou mais forte, e o sangramento finalmente cessou. Foi nesse momento que Julien percebeu que havia subestimado Leon. Mas, ao mesmo tempo, seu fôlego ficou mais curto ao olhar para o Cálice.
'Quero ainda mais agora.'
Seus olhos brilharam novamente em roxo. Um filme preto começou a se expandir debaixo dele, avançando rapidamente em direção a Leon.
Era uma pena que os olhos de Leon se abrirem de repente, no exato momento em que aquilo acontecia.
Ele stomou o pé no chão e desapareceu do local, reaparecendo a vários metros de distância.
A expressão de Julien ficou séria, e várias círculos mágicos começaram a girar no ar diante dele, brilhando em tons de roxo profundo, cada um torcendo e rotacionando no ar.
Com um golpe rápido com a mão à frente, os círculos se acenderam.
Pân-c! Os círculos mágicos explodiram em chamas.
Mãos de um verde arroxeado emergiram deles, rasgando o ar enquanto se aproximavam de Leon. Seus dedos se torciam de forma antinatural, agarrando com uma fome que parecia até desesperada.
Porém, Leon se moveu como se tivesse olhos nas costas, passando por cada tentativa com uma precisão instintiva, rápida e afiada.
BANG—!
Seus pés bateram forte no chão, rachando a superfície sob seus pés enquanto avançava rapidamente, pisando com força em direção a Julien.
Ele chegou na frente de Julien, que, pela primeira vez, ficou um pouco encabulado.
"....!?"
Mesmo assim, foi só um momento de nervosismo, pois ele logo se recompôs, estreitando os olhos enquanto concentrava sua atenção no ambiente ao redor. A gravidade ao seu redor pulsou, e os movimentos de Leon pareceram atrasar por um instante.
Aquele breve segundo foi tudo o que Julien precisou; ele virou a cabeça em direção a Leon, abrindo a boca.
E então—
Xiu! Xiu!
Fios saíram da boca dele.
"....?!"
A face de Leon mudou diante da visão inesperada, encolhendo-se por um instante enquanto levantava a mão para bloquear.
Mas—
Swoosh!
Os fios passaram à sua frente, rasgando o ar.
'Droga!'
Percebendo quase que instantaneamente que aquilo era uma ilusão, Leon virou-se de volta, a mão indo em direção à cabeça enquanto se abaixava para escapar do ataque. Girou nos pés, levantou a empunhadura da espada e mirou diretamente no peito de Julien.
WHAM!
A empunhadura bateu na perna de Julien, que fez uma careta de dor. Leon não hesitou. Girou o corpo, o cotovelo se levantando enquanto dava uma volta, aparecendo na lateral de Julien. O cotovelo acertou primeiro, atingindo o torso exposto.
Desta vez, Julien foi um passo atrasado demais para reagir.
WHAM!
O golpe pegou.
O rosto de Julien ficou pálido, a dor se contorcendo ao seu lado, e ele cambaleou para o lado.
Leon não desperdiçou a oportunidade. A gravidade intensificada pesou sobre ele, fazendo todos os músculos gritarem de dor, mas ele se moveu quase tão rápido quanto normalmente faria.
O Cálice em seu peito continuava pulsando, revigorando cada movimento.
Nesse instante, ele virou uma máquina de guerra. Implacável, sem pensar, movido unicamente pelo desejo de atacar sem hesitação ou misericórdia. Ele bloqueou completamente seus pensamentos, eliminando a chance de ser afetado pelas habilidades ósseas de Julien.
Ele era a pessoa que conhecia melhor as habilidades de Julien. Como resultado, também era a que sabia lidar com ele melhor.
"Urkh—!"
Com o cotovelo chutando o ombro de Julien, forçando um grunhido, Leon estendeu a mão. Uma espada surgiu, feita inteiramente de sua mana. Ele balançou ela para baixo, e os olhos de Julien se arregalaram, piscando de medo.
'Droga!'
Julien sabia que precisava agir rápido. Estava sendo empurrado para trás por Leon, justamente aquele com quem brincara impiedosamente na juventude.
'Não posso permitir isso!'
Seu olhar vacilou, e sua mana começou a se esgotar rapidamente.
Um de seus ossos se mexeu.
[Olho da Existência]
Os movimentos de Leon pararam no instante em que Julien usou a técnica.
'Consegui!' pensou Julien, se preparando para contra-atacar. Mas, antes que pudesse aproveitar o momento, a espada forjada de mana de Leon caiu novamente.
"Q-que!?"
Julien ficou realmente desconcertado, o rosto contorcido, enquanto várias círculos mágicos surgiam ao seu redor.
[Visão]
[Som]
[Cheiro]
[Toque]
[Sabor]
Julien selou todos os sentidos de Leon.
E mesmo assim—
Continuou a atacar, a espada mirando direto nele. Era quase como se ele não precisasse de nenhum sentido.
".....!?"
Julien realmente tinha esgotado as opções neste momento.
A única coisa que podia fazer era ficar encarando vazio a espada vindo em sua direção.
Mas—
"....."
"....."
O golpe inevitável nunca aconteceu.
Pelo contrário, um silêncio tenso caiu. Leon permanecia ali, diante de Julien, com o corpo marcado por linhas azuis brilhantes, imóvel, a espada de mana pairando pouco acima de sua cabeça, o calor dela irradiando ondas ao redor de seu rosto.
O silêncio durou vários segundos, eles ambos em silêncio.
E então—
_"Buergh!"
Sangue saiu da boca de Leon, caindo ao chão enquanto seu rosto ficava pálido, e as linhas azuis ao seu redor pulsavam intensamente, como se estivessem lutando contra suas feridas, forçando seu corpo a se reconstruir mesmo com mais sangue escorrendo.
Mas Julien permitiria que ele se recuperasse?
"Desculpe-me."
Já tendo aprendido sua lição, Julien se moveu rapidamente em direção a Leon, colocando a mão no seu peito.
"Arrkh——!"
Leon gritou de dor ao sangue começar a sair do peito, enquanto a mão de Julien cravava fundo nele.
"Relaxe. Você já deve estar dormente da minha maldição. Isso não dói tanto quanto você pensa."
O sangue espirrou em sua mão enquanto ele a empurrava para dentro do peito de Leon, e as veias azuis do corpo de Leon brilhavam mais intensamente do que nunca. Julien ignorou tudo isso, focando apenas em escavar mais fundo até pegar o Cálice e finalmente soltá-lo.
Jorrr!
"Haaaargh!"
Um grito angustiante saiu dos lábios de Leon enquanto ele cambaleava para trás, caindo no chão, com sangue ainda jorrando do peito.
"Há-há! Haaa...!"
Seus gritos ecoaram intensamente, preenchendo o ambiente.
E mesmo assim, Julien não deu atenção. Sua única concentração estava no Cálice em sua mão, cujo interior girava com um líquido escuro e estranho, enquanto seus olhos brilhavam de excitação.
'Finalmente. Consegui... finalmente coloquei minha mão nisso.'
Seu coração acelerava enquanto segurava o Cálice negro, cujo conteúdo se agitava com um líquido escuro e estranho. Sua própria reflexão lhe encarava de dentro dele, e ao fundo, os gritos de Leon lentamente silenciaram.
O mundo ficou silencioso naquele momento.
Era só ele e o Cálice.
Mas Julien não passou muito tempo admirando o Cálice. Ele o apertou firmemente, e então, como se fosse magia, ele desapareceu de suas mãos.
Ele levantou a cabeça pouco depois.
Rumble! Rumble!
O ambiente tremeu, e um sorriso surgiu em seus lábios.
"Já passou da hora... Pensei que estivessem mais devagar."