Advento das Três Calamidades

Capítulo 741

Advento das Três Calamidades

“Parece que em breve teremos um vencedor definido.”

O rosto de Aoife se contorceu ao ouvir as palavras do irmão.

Seus lábios se abriram, pronta para protestar, para refutá-lo imediatamente.

Mas…

“…..”

Nem um som saiu. Ela se viu incapaz de pronunciar uma palavra sequer.

Ela olhou para a projeção à sua frente.

Para Julien, cujo rosto estava pálido e cujo corpo inteiro estava cheio de ferimentos.

Ele segurava uma espada na mão enquanto tentava ao máximo desviar dos golpes.

Seus movimentos eram bons. Tão bons que Aoife se pegou questionando a situação: “Como ele é tão bom com a espada? Por que parece que ele está melhorando?”

Mas, apesar de todas as perguntas, não havia como negar o inevitável.

‘Ele vai perder.’

Era óbvio. Sua mana estava baixa, e ele estava cercado de todos os lados.

A cada segundo que passava, ele recebia uma nova ferida.

Aoife não era a única que pensava assim.

A plateia tinha o mesmo pensamento.

Até Leon, que normalmente acreditava cegamente em Julien, estava franzindo a testa, com os braços tensos, observando a luta ao longe.

Por outro lado, o Marquês estava sorrindo.

O mesmo acontecia com seu irmão.

Aoife apertou o braço da poltrona enquanto olhava à sua frente.

Para aquela figura solitária à sua frente.

“Viu…?”

Uma voz sussurrou em sua cabeça.

“Ele é um orgulho arrogante. Nunca deveria ter confiado nele.”

***

‘Eu odeio o céu.’

Pebble fixou o olhar vazio para o céu.

Era azul. Era grandioso. E era tudo que o gato desejava alcançar.

E ainda…

O mesmo céu que Pebble queria tocar rejeitava-o a cada tentativa.

Era como uma jaula.

Uma jaula que o impedia de chegar até lá.

‘…Eu realmente odeio o céu.’

*

Falhar.

O que significava falhar?

Falhar vinha de não alcançar um objetivo ou resultado desejado? Ou simplesmente significava não ser bom o bastante?

Pensando bem, era os dois.

Fracasso era o resultado de não ser suficientemente bom.

Era também uma medida de valor.

O valor vinha de quanto alguém podia atingir. Quanto mais falhasse, menor seu valor.

Pebble sabia bem disso. E… justamente por saber disso, doía.

Pebble simplesmente… não era bom o bastante.

Inútil.

Sabia disso desde o começo, desde o momento de seu nascimento, quando uma humana frágil e insignificante o aprisionou com facilidade, até todas as tentativas vãs posteriores de conquistar um novo vaso.

Houve algum momento em que conseguiu alguma coisa?

Nem Julien dava muita atenção às suas habilidades, sempre focando em outras coisas.

Por que…?

Porque não era bom o bastante.

Pebble nunca tinha se incomodado de verdade com isso. Existiam muitas desculpas para seus fracassos. Por que foi preso por um humano? Bem, ele tinha acabado de nascer. Era jovem.

Por que Julien não aprendeu suas habilidades?

Bem, ele estava ocupado. Tinha muitas outras coisas para fazer.

Por que não conseguiu evoluir?

‘…’

Pebble tinha desculpas para muitas coisas.

Mas desta vez…?

Pebble não conseguiu encontrar uma desculpa.

Quanto mais tentava justificar seu fracasso, mais percebia que não havia nenhuma. Nenhuma desculpa. Apenas uma explicação.

Não bom o bastante.

Pebble…

Simplesmente… não era bom o bastante.

Apesar de tudo que Julien havia passado para ajudar, Pebble ainda tinha falhado.

Assistiu enquanto a coruja conseguiu evoluir, deixando seu casco vazio e finalmente florescendo para o mundo ver.

Pebble ansiava por um momento assim. Queria finalmente se livrar de sua casca amaldiçoada e florescer diante de toda a humanidade.

Alcançar o céu.

Mas…

Pebble era um fracasso.

Não, não era um fracasso.

Pebble era apenas… insuficiente.

Um erro pode ser perdoado uma vez. Mas repetir fracassos, sem parar… já era prova suficiente de seu valor.

Pebble não tinha valor algum.

…E qual seria a utilidade de alguém que não tem valor?

Swoosh, swoosh—!

O espaço diante deles se distorceu, e várias flechas apareceram.

Pebble levantou a pata, localizando a flecha ao pressionar com ela.

A gravidade mudou, e várias flechas pararam. Mas…

Bum!

“Ugh…!”

Algumas ainda conseguiram passar.

Gronhadas de Julien ecoaram enquanto ele recuava vários passos, sangue escorrendo pelos cantos da boca, lutando para segurar a espada nas mãos.

*Hum*

Um som baixo de zumbido ressoou logo depois.

O espaço se distorceu novamente, e inúmeras outras flechas saíram de todos os lados, pressionando sem descanso, de forma implacável, ao ponto de parecer sufocante, sem espaço para respirar.

‘Não, não posso deixá-los entrar!’

Pebble percebeu que a situação piorava ainda mais. Sem hesitar, pressionou novamente sua pata, tentando ao máximo evitar que qualquer flecha passasse.

Desde que conseguisse fazer sua parte, Julien não teria problema.

O gato compreendia que era a última barreira defensiva que Julien precisava.

Fracasso significava a derrota de Julien.

Ele tinha que provar seu valor!

‘Eu não quero falhar. Não posso falhar. Já fracassei demais. Por favor… deixe-me ser bom em alguma coisa!’

O gato rugiu em sua mente.

Seu rugido foi poderoso.

Era grandioso.

Era magnífico.

Mas também… estava em sua mente.

Bum—!

“Akh—!”

Um grito saiu dos lábios de Julien enquanto seu corpo começava a tremer, e algumas flechas ficaram erguidas em seu corpo. Seu corpo trepidou, e sangue começou a escorrer por toda parte.

“H-hum…

A voz de Pebble tremeu.

Olhando fixamente para o céu.

Para a jaula que o aprisionava. Se ao menos pudesse voar…

Todo…

Era… sua culpa.

Se ao menos fosse menos incompetente…

Se ao menos… não fosse um fracasso.

“Kph!”

Gritando de dor, Julien levantou a cabeça e olhou à sua frente. Com a espada no chão, continuou a fuzilar seus três oponentes.

Ele via várias esferas dentro dos corpos deles. Cresciam de tamanho, e ele sentia que estavam correndo para acabar com tudo. Também estavam ficando sem mana.

Ele apertou a mão na espada.

'Estou perto. Quase lá.'

Julien olhou para o sangue que escorria pelo chão.

Forçou um sorriso enquanto o observava.

Neste momento, Julien poderia resolver tudo se quisesse. Poderia usar completamente o nível cinco de magia emotiva e lutar em pé de igualdade com eles.

Porém, isso não era algo que ele desejava.

Esse não era seu palco.

Nunca foi.

‘Só mais um pouco. Preciso fazer um pouco mais…’

O palco estava quase pronto, mas ainda havia algo que ele precisava fazer.

Mas…

“....”

Justo quando começou a se mover, percebeu que seus braços estavam pesados. Tão pesados que lutava para levantá-los. Será que Pebble estava fazendo alguma coisa?

Julien lentamente virou a cabeça e olhou para o gato.

Foi então que notou algumas esferas.

Uma azul e uma vermelha.

Tristeza e raiva.

Julien piscou lentamente antes de olhar para o gato. Uma olhada na expressão dele foi tudo o que precisou para entender o que estava acontecendo.

Naquele momento, o peso que parecia pressionar-o de todos os lados parecia desaparecer, e no lugar veio um sorriso enquanto ele olhava de volta para seus três adversários. Basta um olhar para Julien perceber o que Pebble estava pensando.

‘Que gato bobo…’

Ele não conseguiu evitar rir enquanto olhava à frente.

Também foi lembrado de um passado. Um envolvendo uma certa coruja.

“Não é estranho…?”

Ele falou suavemente, suas palavras chegando silenciosamente ao gato.

Estranho?

O gato lentamente ergueu a cabeça.

“O que é estranho?”

Ao invés de responder, Julien apenas observou ao redor. O ruído das árvores, a terra úmida sob seus pés, o zumbido distante dos insetos, a tênue onda de um riacho próximo e o sussurrar do vento nas folhas. Seu olhar vibrava, e o mundo ao redor parecia desacelerar.

Pebble também percebeu isso.

Por apenas um breve momento.

“Como o mundo muda quando mudamos a nossa visão dele.”

O gato piscou lentamente.

O sorriso de Julien ficou ainda mais suave, enquanto olhava para frente.

Já era hora.

Swooosh!

Uma flecha surgiu do nada. Julien levantou a mão, mas foi inútil, pois ela atravessou seu ombro. Ele não fez nenhum som.

Apenas aceitou. Poderia ter evitado, mas decidiu não fazê-lo.

Ele usava seu corpo para construir o palco.

Para criar…

A rampa.

O rosto de Pebble tremeu.

“Por quê…”

“A dor… pode ser sofrimento ou crescimento.”

O humano falou, sua voz mais fraca do que antes. E, mesmo assim, tinha uma firmeza que o impedia de tremer.

Seu olhar permaneceu firme enquanto olhava para frente. Esforçando-se ao máximo para levantar a espada, parecia preparado para o próximo ataque.

“O fogo pode ser destruição ou crescimento. Um dia de chuva pode trazer tristeza ou parecer uma pintura perfeita. O silêncio… muda dependendo do que você sente. Desde paz até solidão. Tudo… depende de como você enxerga as coisas.”

Pebble fez uma pausa.

Para onde o humano estava indo com tudo aquilo? Por que falar tanta besteira?

Agora não era hora para isso.

“O que isso—”

“Toss…!”

Assoprando, o corpo de Julien vacilou enquanto olhava à sua frente. “Algo muda quando você para de tentar se provar. Quando para de medir seu valor pelo quanto dá, corrige ou conquista. De repente, você percebe que há muito mais no mundo do que realiza—!”

Xiu! Xiu!

“Hum… Julien!”

Mais flechas surgiram, cravando-se em suas costas.

Seu rosto ficou consideravelmente pálido enquanto ele cambaleava diante de tudo, esfregando a espada no chão e se apoiando nela.

“Haa... Haa...”

Com a mão tremendo, ele sorriu.

“Você me chamou pelo nome pela primeira vez.”

“Eu…”

O rosto de Pebble mudou.

Não era a primeira vez que o gato via a teimosia do humano.

Era uma cena demasiado familiar.

Mesmo nos momentos mais desesperados. Mesmo na morte. Mesmo… no fracasso. Ele continuou.

“Por quê…?”

Pebble olhou ao longe. Para as pessoas. Todas olhavam para ele com desprezo e resignação.

Já era o fim.

O gato via isso.

E elas também.

Então por que…?

Por que ele ainda se esforçava na derrota?

“L… a vida não muda—!?”

Swoosh!

O rosto de Julien ficou pálido enquanto recuava um passo. Outra flecha atravessou sua perna. Sangue escorreu.

Ele estava à beira de perder.

O mundo inteiro parecia sentir isso.

“…A única coisa que muda é você.”

Pum!

Julien agarrou sua camisa enquanto seu joelho cedeu e caiu ao chão.

Pebble via que ele estava na última.

E ainda—

“Você estava tão ocupado pensando em sucesso que não percebeu.”

Ele continuou a falar.

“Mas quando você para…”

Julien parou.

Seu olhar piscou.

O mundo desacelerou novamente.

Naquele instante, quase parecia que tudo ao redor desaparecia.

O que sobrava era apenas o silêncio do mundo.

“Respire.”

Ele inspirou fundo.

“…E olhe.”

Ele ergueu a cabeça.

Não para os ataques que vinham, mas para o céu.

O grande céu azul.

“A rotina se torna bela.”

Um sorriso desfigurou seus lábios.

E, ao fazer isso, ele murmurou,

“Não é estranho o quanto de beleza se esconde à vista de todos? Esperando que olhemos para ela de uma forma diferente?”

Algo mudou quando Pebble ouviu as palavras humanas.

Ele levantou a cabeça e olhou para o céu.

O grande céu azul.

Por uma vez, olhou para ele de uma maneira diferente.

Não como uma prisão, mas como algo belo.

Das nuvens que se movimentam constantemente no ar ao sol que brilha ao seu lado.

A boca do gato se abriu enquanto seu olhar ficava vazio.

Julien riu, sua voz ficando rouca.

“…A beleza não é algo que você deva temer.”

Ele levantou a mão para mostrar um certo ovo.

“É algo que você deve abraçar.”

A mente de Pebble se agitou enquanto Julien jogava o ovo ao ar.

“O céu não é uma prisão.”

Ele murmurou, sua voz ficando mais fraca.

“É o oposto.”

Ele respirou fundo.

“É liberdade.”

A mente de Pebble ficou em branco.

Ele olhou fixamente para o ovo que voava.

Liberdade?

“Sim.”

Mas eu posso ser livre?

“Claro que pode.”

Eu? Um fracasso?

“O maior de todos os fracassos.”

Mas…

“Apenas olhe.”

Pebble fixou o olhar no céu.

O grande céu.

“Realmente olhe para ele. Não como uma prisão, mas como algo diferente.”

Algo diferente…?

Os olhos do gato tremeram. Pela primeira vez, ele olhou para o céu de verdade.

Do azul puro do céu às estrelas douradas brilhando sobre as nuvens, levadas pela brisa suave que seguia…

Pebble olhou de fato para o céu pela primeira vez.

E, ao fazer isso, não pôde deixar de murmurar,

“É… lindo.”

O olhar de Pebble se virou na direção do ovo.

“Alcance-o.”

Julien murmurou, puxando o ovo para perto.

De agora em diante, o gato parecia não perceber mais como o mundo parecia ter desacelerado para eles dois, nem como o rosto de Julien ficava pálido a cada segundo.

Ele apenas olhava para o ovo.

A fonte de seu fracasso.

“…Pare de medir seu valor pelo que conquista.”

“Você não precisa conquistar seu lugar no mundo por realizações.”

“Você já é digno.”

Então…

“ Voe.”

Você é suficiente.

Julien hesitou. Naquele momento, ao olhar para o pequeno gato, uma certa coruja surgiu na sua mente. Embora fossem diferentes, eram tão semelhantes. Um queria florescer, e o outro queria voar.

Ele tinha plena consciência disso.

E decidiu que construiria um palco para os dois.

Para florescer, e para…

“Voe.”

…Depois disso, o mundo ficou em silêncio.

Silêncio durou um instante antes de Pebble olhar para o céu. A prisão azul que parecia aprisioná-lo não estava mais lá.

Pelo contrário, tudo o que via era um infinito azul.

Foi quando Pebble percebeu.

O céu…

Não era uma prisão.

Não.

Era outra coisa.

Era…

Seu espaço.

Sim.

É o território dele.

Não, mais do que isso.

É…

Sua domínio.

Uma mudança aconteceu daí em diante. Pebble desapareceu, e o ovo no céu começou a rachar. Uma pressão aterradora surgiu logo após, uma que parecia dominar tudo ao redor enquanto todos paravam.

“O que está acontecendo?”

“Onde é isso…!?”

O rosto de todos ficou pálido diante da pressão.

Como poderiam não ficar?

Afinal, aquilo não era uma pressão comum.

Era a pressão de um dragão.

“Roooooooooooar!”

Um rugido cortou o céu.

Que tremeu o mundo inteiro.

E que marcou a transformação de uma gato em dragão.

Naquele dia,

Julien atingiu o sétimo nível.

Mas, mais importante…

.

.

.

Na etapa conhecida como o céu.

Um dragão voou.

Um dragão grande e imenso.

Cuja presença absorveu o mundo todo.

Voe.

Este foi o nome do ato de Pebble.

Comentários