
Capítulo 726
Advento das Três Calamidades
A escuridão se fechou ao meu redor, engolindo-me por todos os lados.
O som desapareceu, sumiu no silêncio. Sem passos, sem respiração, nem mesmo o mais tênue sussurro. Apenas um silêncio opressor, artificial, que pressionava contra mim de todos os lados.
Meus músculos se tensaram de forma instintiva.
Eu podia sentir isso.
Uma presença.
Alguém... ou alguma coisa estava na mesma sala que eu.
Observando. Esperando.
Segurei a respiração, forçando-me a permanecer imóvel enquanto meus olhos vasculhavam as sombras. Lentamente, cuidadosamente, estendi os fios, deixando-os se espalhar em todas as direções, procurando movimento, uma brecha no silêncio.
Mas não havia nada.
Sem resposta.
Sem interrupções.
Sem som.
E ainda assim... eu sabia que não estava sozinho.
Podia sentir que estava sendo observado na escuridão, enquanto tentava manter a calma ao máximo. Contudo, mesmo no meu estado mais tranquilo, não pude evitar o suor frio que começava a escorrer pelas minhas costas.
Isso não era algo que eu pudesse controlar.
E justo quando a tensão atingiu seu auge...
Quando cada nervo do meu corpo gritava de tensão...
Foi embora.
A presença desapareceu.
Ela... simplesmente sumiu.
Como se tivesse perdido completamente o interesse em mim.
Como se eu não importasse mais.
Faísca!
A vela na minha mesa tossiu e reacendeu, sua chama tremendo enquanto voltava a arder. A luz se espalhou, expulsando as sombras. Elas se agarraram aos cantos do cômodo, retorcidas em ziguezague por toda a sala.
"...."
Fiquei em silêncio, incapaz de entender a situação.
No entanto, rapidamente me recuperei ao olhar para o reflexo fragmentado de mim mesmo vindo do espelho na extremidade oposta do cômodo. Senti meu peito subir e descer lentamente enquanto um som de pulsação forte ecoava na minha cabeça.
'O que será que foi aquilo...?'
Ainda sentia o frio percorrendo meu corpo.
Era a primeira vez que vivenciava algo assim. Essa sensação de medo... era diferente de tudo que já tinha passado antes. Nem Sithrus tinha me causado um medo semelhante.
Se ele me dava uma sensação de impotência, então... isso me trouxe algo diferente.
Não era insignificância.
Não era desespero.
Era mais como...
Reconhecimento.
Como se de repente eu tivesse chamado a atenção de algo que eu nunca deveria ter percebido.
'O medo de ser reconhecido... Como é que isso faz sentido?'
Puxei minhas mãos para a mesa, inclinando-me para frente enquanto tentava recuperar o fôlego. Mas, no momento em que coloquei as mãos na mesa, percebi algo.
O livro...
Estava completamente em branco.
Tudo o que Noel tinha escrito, tinha desaparecido.
"Q... quando foi que isso...?"
Cobri a boca e voltei a sentar na cadeira. Estava realmente lutando para me manter firme, mas sabia que precisava. Por isso, ao olhar novamente para o espelho, fixei o olhar no orbe roxo refletido dentro de mim.
Empurrei minha mão para baixo, abaixando-a bastante.
"Melhor."
Finalmente consegui me acalmar.
Voltando a atenção para o diário, tentei processar a situação.
Fechei os olhos e reproduzi mentalmente as palavras do livro.
'A ignorância é a maior bênção de uma pessoa. Quanto menos ela sabe sobre algo, mais segura está. A consciência é um convite. E no momento em que você passa a entender a existência deles... eles passam a saber da sua.'
Felizmente, ainda conseguia lembrar de tudo o que tinha lido.
Meus exemplos não tinham sido apagados. Apenas todas as marcas de sua existência.
Mas havia uma coisa que me despertava curiosidade.
'Soube da existência deles quando estava na Dimensão do Espelho. Isso significa que eles estavam cientes de que eu existia naquela época? ...Se sim, por que só agora estão agindo? Ou será que eles não têm alcance na Dimensão do Espelho?'
Virei a página para ver que ela estava totalmente em branco.
Desde o começo, o diário não tinha muito escrito. Parecia uma página apressada. Fiquei um pouco surpreso com a falta de informações, mas tudo fez sentido agora. Não é que Noel não soubesse muito; é que apenas falar ou escrever sobre eles atraía sua atenção.
Provavelmente, isso explicava por que ele nunca falava muito sobre eles e por que me fez descobrir sozinho.
'...Surpreende-me que ele conseguiu escrever tanto sobre eles sem ser notado, mas tenho certeza de que há um truque.'
Continuei folheando as páginas.
Tudo estava em branco.
Não parecia haver mais nada de relevante.
Prestes a guardar o livro, minha mão parou exatamente na última página — na contracapa interna do livro.
Uma pequena dobra no canto da capa, sutil demais para ser vista sem atenção cuidadosa. Meu interesse aumentou e fui puxando o canto delicadamente.
Comecei a desdobrar.
E então—
Apareceu uma frase única.
Somente uma.
Mas foi suficiente para tirar meu fôlego.
'Um dos Deuses nos traiu!'
*
No dia seguinte.
Não consegui dormir muito bem durante toda a noite.
Fiquei pensando nas últimas palavras do livro. Tossindo e virando de um lado para o outro, tentei ao máximo não pensar nelas, mas, independentemente do que fizesse, elas ficavam presas na minha cabeça.
'Um dos deuses nos traiu...'
Quem?
...E como?
Quem foi o deus que os traiu?
'Será o Sithrus?'
Não.
Acabei balançando a cabeça rapidamente. Embora Sithrus fosse louco do seu jeito, seu objetivo era claro. Ele queria escapar da Dimensão do Espelho.
Se fosse, provavelmente, a pessoa que mais odiava as Entidades Externas.
Noel também não parecia ser um traidor.
Então só sobravam os outros deuses.
Veltrus. Clora. Panthea. Ivanth e... Oracleus.
Embora eu quisesse negar a possibilidade de ser o traidor, bem me conhecia. Se trair os demais fosse necessário para alcançar algo, eu faria sem hesitar.
'Também lembro que disse que todos os outros deuses precisariam morrer.'
Sei lá, provavelmente, eu seria o principal suspeito.
Não sabia como me sentir com essa ideia.
'Mesmo assim, isso não garante nada. Até agora, só encontrei Panthea. Ainda não vi os outros deuses. Pode ser que um deles seja o traidor.'
Falei isso só para me convencer.
Balancei a cabeça, esfreguei o rosto para afastar os pensamentos confusos. Com um suspiro silencioso, saí do meu quarto esperando que alguma distância ajudasse a clarear minha mente.
Mas, ao atravessar o corredor, uma outra porta rangeu ao se abrir.
Uma figura saiu, com as costas curvadas.
Ele parecia exausto, com olheiras profundas, parou por um momento e olhou para mim.
"...Você está uma lastima."
Assenti.
"Você também."
Parece que Leon também não tinha dormido muito.
Na verdade, ficava bastante curioso.
"O que aconteceu com você? Teve algo errado na cama...?"
"A cama?"
Os olhos de Leon piscaram lentamente antes de balançar a cabeça.
"Não, não foi isso."
"Então...?"
Ele não respondeu e apenas me olhou.
Minha mente lentamente girou até entender.
"Ah..."
Então ele ainda estava preso ao que aconteceu ontem.
Faz sentido.
"E você?"
"Eu?"
Parei por um momento.
'Certo, não seria ruim se eu contasse para ele. Mas será que posso mesmo?'
Era uma das principais questões que me atormentava. Queria contar para Leon, mas achava que era impossível. Não para protegê-lo, mas para proteger nós dois.
Quem saberia o que aconteceria se ele descobrisse a presença deles?
"Então...?"
Como se percebesse algo estranho na minha expressão, a sobrancelha de Leon se levantou. No final, só pude oferecer-lhe um sorriso.
"Quero te contar, mas não posso."
"O quê?"
A sobrancelha de Leon franziu em confusão.
Seus lábios se abriram para dizer algo, mas eu o interrompi.
"Só não pergunte. Ainda não posso compartilhar isso. Não porque não queira, mas porque simplesmente não consigo. Assim que eu te contar, t—!?!"
De repente, as palavras pararam.
Não porque eu quisesse, mas porque não conseguia dizê-las de jeito nenhum. Era como se algo tivesse preso na minha garganta, bloqueando cada sílaba.
Tentei falar novamente, mas ainda assim as palavras se recusaram a sair.
"Você está bem?"
Até Leon parecia notar a mudança.
No final, desisti e fechei a boca.
"Eu—"
'Tentei falar, mas algo me impedia de dizer o que queria.'
As palavras mais uma vez ficaram presas na minha garganta.
Foi então que percebi uma coisa.
'Indiretamente ou diretamente, não posso realmente falar sobre eles. Eles... não me deixam.'
Isso também serviu como um lembrete.
Um lembrete de que eles estavam observando. Que eu agora estava sob o radar deles.
Que... eu precisava tomar cuidado.
Mordendo o lábio, senti um arrepio percorrer minha espinha.
"Julien?"
Ao ouvir novamente as palavras de Leon, apenas balancei a cabeça. Ele franziu a testa, parecendo querer perguntar mais, mas, no final, desistiu.
"Tudo bem."
Ele desistiu de perguntar.
Pelo semblante, parecia confuso. Não parecia ter entendido que eu não podia dizer nada.
'Droga. Se ao menos Evelyn estivesse comigo.'
Evelyn certamente entenderia minha situação. Ela era extremamente perspicaz em situações assim.
'Posso tentar novamente quando ela estiver aqui.'
Mas, antes que isso acontecesse, havia questões mais urgentes a resolver. Não pretendia prolongar mais a situação. Precisava pegar o Cálice o mais rápido possível e recuperar minhas memórias.
A urgência que senti após os acontecimentos da noite anterior era maior do que nunca.
"Vem aqui no meu quarto um instante. Preciso te falar uma coisa."
"Ah, claro... Só preciso tirar um descanso—"
"Não."
Segurei o braço de Leon e o puxei para dentro do quarto.
Clique!
Ao mesmo tempo, fechei a porta atrás de nós e criei uma pequena cúpula de mana ao redor, uma barreira simples, mas eficaz. Não era exatamente um feitiço, mas poderia ser considerado um. Era uma manipulação básica de mana.
Foi suficiente para bloquear a maior parte do som ao nosso redor.
"...Você até colocou uma barreira?"
Leon olhou ao redor, com semblante sério.
Fui direto ao assunto.
"O Cálice que você tem. Posso ficar com ele?"
"Q... o quê?!"
Os olhos de Leon se arregalaram e tudo ao redor pareceu congelar de repente.
"Como... você..."
Sorri ao ver seu choque.
Já era hora de eu ser honesto. Pelo menos, parcialmente.