Advento das Três Calamidades

Capítulo 725

Advento das Três Calamidades

Você vai ficar bem. Não é como se não tivesse esperado isso desde o começo. Deve ficar feliz por eu estar te contando. Você foi a primeira pessoa a saber.

.....

Subindo as escadas da propriedade, Leon simplesmente seguiu em silêncio.

Ele não disse uma palavra.

Tentei puxar papo ao longo do caminho, mas parecia que ele não queria nem ouvir. No final, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele simplesmente se afastou de mim e foi direto para o seu quarto.

Hmmm.

Olhando para suas costas se afastando, finalmente dei de ombros.

'Tenho certeza de que ele está feliz por mim.'

Talvez.

No entanto, tinha outras coisas com que me preocupar. Desviando minha atenção de Leon, voltei para o escritório de Aldric e, ao entrar, não esqueci de trancar a porta antes de abrir a sua porta de espião e entrar.

...Nunca vou me acostumar com isso.

Realmente parecia uma fantasia que Noel gostaria de realizar.

Infelizmente, isso simplesmente não era seguro o suficiente para mim.

Essa foi uma das razões pelas quais decidi voltar aqui. Planejava colocar tudo na minha força, na minha ligação.

Além disso, porque queria ler mais.

'Como Leon está aqui, consigo começar a preparar o ritual para recuperar minhas memórias.'

O problema era que eu não sabia como o ritual funcionava.

Precisava estudar mais antes de começar. Além disso, também planejava aprender mais sobre os Seres Externos.

Já estava na hora de aprofundar meus conhecimentos sobre eles.

— Certo.

Parando na frente da sala, observei ao redor antes de dar um passo à frente. Imediatamente, tudo ao redor começou a flutuar no ar, e, controlando tudo cuidadosamente, garanti que tudo fosse guardado na minha conexão.

O maior problema com a conexão era que havia um gasto constante de mana ao colocar objetos dentro, o que significava que, a não ser que eu retirasse tudo, uma pequena parte da minha mana se consumiria apenas para manter os itens ali.

Felizmente, minha regeneração era mais rápida que esse gasto.

Mas agora que adicionei os objetos, a balança ficou parecida.

Resumindo...

— Tenho menos mana do que antes.

Isso era um pouco preocupante, mas nada que fosse grave.

Ainda tinha bastante mana.

— Agora, então...

Olhei ao redor da sala. Ela estava completamente vazia. Tudo tinha sido retirado e colocado na minha conexão.

Olhei ao redor para garantir que não tivesse deixado nada para trás, assenti comigo mesmo e saí do lugar.

De volta ao escritório de Noel, sentei-me na sua cadeira. A sala estava bem arrumada, e, ao observar o ambiente, meus olhos acabaram caindo no espelho que ficava do lado oposto da sala.

Vi meu próprio reflexo nele enquanto sacudia a cabeça.

— ...Preciso dormir. Já estou começando a ter olheiras.

Tava bem ocupado ultimamente. Tão ocupado que acabei negligenciando o meu sono.

— Vou dormir logo, logo.

Do lado de fora da janela, o sol começava seu lento declínio além do horizonte, formando longas faixas de laranja e sombras mais profundas pelo chão.

A penumbra ia avançando aos poucos, primeiro nos cantos.

Olhei ao redor e estendi a mão até a vela mais próxima, sobre a mesa. Com um leve estalo de dedos, a mecha acendeu, e uma pequena chama começou a tremular.

De repente, as sombras dançaram nas paredes, alongando e torcendo a cada leve movimento da chama.

Puxei um dos livros e comecei a ler.

Este livro tratava dos quatro artefatos. Como eu já tinha bastante informação sobre eles, folheei até a parte final e li sobre o ritual.

— Quando os quatro artefatos forem reunidos, deve-se canalizar mana neles para alcançar a fusão. O processo é difícil, o corpo arde com o fogo de Veltrus, mas dessa chama, nascerá uma nova vida.

Parei por um momento, tentando entender a situação.

'...Então, tudo que preciso fazer é conectar os quatro artefatos usando minha mana e tentar me fundir a eles? Isso não parece tão difícil.'

Na verdade, parecia bem simples.

— Acho que a parte mais difícil deve vir do processo de fusão. Imagino que deve doer bastante.

Pausei de novo, balançando a cabeça.

— Não, provavelmente essa não é a parte mais difícil.

A parte mais complicada deve ser fundir-se aos artefatos sem que Sithrus perceba. Pensando no momento em que ele me encontrou só usando a espada uma vez, percebi que esse processo não seria nada fácil.

Felizmente, já tinha uma ideia de como lidar com isso.

'Talvez eu possa tentar me fundir dentro da conexão. Acho que ele não vai perceber se fizer isso lá.'

Essa parecia uma boa solução.

— Acho que vou fazer isso.

O único problema pendente era conseguir o Cálice do Leon.

Para isso...

não achava que fosse muito difícil.

— Acho que chegou a hora de termos uma conversa séria.

Leon sempre soube que eu escondia alguma coisa. Ele foi a única pessoa que manteve meu segredo durante todo esse tempo.

Era alguém em quem confio, e, vendo que Noel tinha confiado algumas de suas habilidades a ele, sabia que Noel o tinha 'confiado' até certo ponto.

... Talvez não confiado completamente, mas considerado digno de aprender com Noel.

'Como eu disse para Aoife... menti porque não me importava. Mas agora... quero ser honesto, porque realmente me importo.'

Já não planejava mais viver uma mentira.

Mentiras só complicam as coisas, tanto para mim quanto para o meu eu do futuro.

— Melhor resolver tudo antes que seja tarde demais.

A vela tremeu novamente, sua chama ondulando ao ritmo de uma respiração invisível. As sombras se contorciam nas paredes, alongando-se e retorcendo-se como se tivessem vida própria.

Sem perceber, a sala mergulhou quase na escuridão total.

No lugar dela, a lua agora pairava alta no céu, seu brilho pálido espalhando-se fracamente através da janela. A luz era suave, distante, quase não tocando as bordas da sala. Misturava-se com a luz da vela, criando um tom prateado frio sobre tudo.

Contava só o suficiente para que eu pudesse ver meu próprio reflexo na tela do espelho ao lado oposto.

Olhei para o meu próprio reflexo na escuridão.

Mal podia me enxergar agora.

O único traço visível era meu próprio olhar, que piscava de um lado para o outro, na mesma cadência do flamejar da chama.

Com os lábios apertados, peguei outro livro.

[Seres Externos]

Esse era outro livro que despertou meu interesse.

Na verdade, não sabia muito sobre eles. A única coisa que consegui descobrir foi durante minha experiência na Dimensão do Espelho.

Ainda guardo uma ressentimentozinho contra Noel por não ter contado deles antes.

Porém, levando em conta que provavelmente eu mesmo era assim, decidi me conformar.

— ...Não sou tão diferente agora.

Balançando a cabeça, abri o livro.

Assim que abri, parecia que toda a temperatura ao meu redor caiu um pouco. O ambiente ficou um pouco mais frio e, por alguma razão,

até a chama da vela parecia hesitar, seu movimento congelando por um breve instante, como se algo tivesse entrado na sala.

Levantei a cabeça e olhei ao redor, sentindo minhas sobrancelhas começarem a se franzir lentamente.

Mas, ao não encontrar nada, concentrei minha atenção de volta no livro. Não tinha muitas palavras, mas tudo estava escrito à mão, em letra cursiva.

'Essa é a caligrafia do Noel.'

Reconheceria num instante, e comecei a ler.

———

'Não conheço muito sobre os Seres Externos. Só os encontrei algumas vezes, até matei um, mas não sei quantos são ou qual é a hierarquia deles. O pouco que sei é que são incrivelmente poderosos e têm afinidade com a fonte. Parece que eles temem qualquer coisa ou pessoa que possa tocar na fonte.'

'A Dimensão do Espelho foi a prisão que criaram para nos selar. Para impedir que toquemos o que não nos pertence. Eles são agentes da fonte ou uma entidade separada?'

'...Derrotá-los parece impossível. Até Toren, o mais forte entre nós, está de mãos atadas contra eles. Somos apenas ratos presos na gaiola. Qual é o objetivo deles? O que querem de nós?'

'Tem tanta coisa que não sei. Mas... uma coisa eu sei que é que...'

'Eles veem tudo. Sentem tudo. Estão em todos os lugares.'

'A ignorância é a maior bênção de uma pessoa. Quanto menos souber sobre eles, mais seguro estará. Conhecimento é um convite. E assim que você entende a existência deles... eles passam a entender a sua.'

———

Espera, espera, espera, espera...

Parei ao ler as últimas linhas, sentindo um peso se instalar no meu peito enquanto relia aquela parte.

'No momento em que você entender a existência deles, eles passarão a perceber a sua...?'

De repente, um batida sutil, mas intensa, ecoou dentro da sala. Não foi barulhenta, mas soou como se fosse uma pancada enormemente alta na minha cabeça.

A vela tremulou violentamente.

Sombras recuaram e se alongaram em todas as direções, distorcendo-se nas paredes como se quisessem fugir ou me envolver.

Os pelos dos meus braços se eriçaram lentamente, arrepiados, enquanto uma tensão crescente se formava no ambiente.

Olhei para cima, quase contra minha vontade, e fixei o olhar na tela do espelho do outro lado da sala.

Na pouca luz, meu reflexo quase não era visível. Era só um sutil contorno de um rosto na escuridão.

Mas então a vela relampejou novamente.

Por um instante, consegui enxergar claramente meus próprios olhos no vidro.

Eles me fitavam de volta.

...Como deviam.

Porém...

Quanto mais eu olhava, mais parecia que eram eles que estavam me observando. Não como um reflexo, mas como algo separado. Algo consciente.

Segurei a respiração.

Então—

Estalou!

Trincas surgiram repentinamente no espelho, distorcendo o meu próprio reflexo.

Me levantei rapidamente da cadeira.

Flick!

A vela se apagou e a escuridão tomou conta da sala.

Naquele momento, todo o meu corpo ficou tenso.

Embora eu não pudesse ver, podia sentir.

Sentia a presença que permanecia na sala.

Me observando.

Me vigiando.

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