
Capítulo 699
Advento das Três Calamidades
O céu.
Como era sentir o céu?
Como era flutuar pelo céu? Sentir o toque suave do vento enquanto o mundo lá embaixo lentamente encolhia na distância...?
Essas eram as perguntas que Pebble fazia a si mesmo constantemente.
Desde o nascimento, nunca tinha sentido o que era tocar o céu. Sentir o céu. Ou estar com o céu.
Não, houve uma época em que isso aconteceu.
Mas também foi a época em que Pebble morreu e perdeu sua vida.
"Prepare-se, Pebble. Está quase pronto."
A voz suave do humano chegou aos ouvidos do gato, lentamente chamando sua atenção para o ovo que estava diante dele.
Pebble lentamente se aproximou do ovo, sentindo a pulsação de vida vindo dele.
O gato sentiu uma sensação repentina de expectativa enquanto olhava para o ovo.
Será que finalmente conseguiria sentir o céu?
Estalo!
"Ok!"
A voz do humano soou novamente, seus olhos fixos no ovo que mostrava uma reação evidente.
"Prepare-se, Pebble. Logo vou usar o espelho para transferir sua alma para o ovo. O processo deve ser relativamente fácil, e assim que você sair do ovo, dada a sua potência atual, deverá conseguir crescer até a forma adulta."
"...Ok."
Pebble avançou, olhando para o ovo com uma seriedade incomum.
Regal~
Foi então que o gato sentiu uma presença vindo de trás dele.
Um sorriso brincou nos lábios do gato.
"Coruja idiota. Estou quase alcançando. Veja se vai conseguir me intimidar de novo."
Pebble lembrou de todas as vezes que aquela coruja tola se aproveitou dele, de toda dor e frustração que foi forçado a suportar.
'Vou devolver tudo em breve...' Murmurando para si mesmo, o gato não percebeu o olhar estranho que a coruja lhe lançava.
No fim, a voz do humano voltou a soar.
"Ok, estou pronto!"
Ele canalizou sua mana no espelho e um brilho intenso se manifestou sobre ele, envolvendo o ambiente em uma luz brilhante.
Virando a cabeça, o humano olhou para Pebble.
"Vai!"
Pebble não perdeu um segundo.
Assim que ouviu a voz do humano, correu em direção ao espelho.
Swoosh!
O gato desapareceu rapidamente dentro do espelho.
Os olhos de Julien brilharam, e ele trouxe o espelho até o ovo. A mana dentro de seu corpo drenou rapidamente. Mas ele não se importou. Já previa isso, e focou toda sua atenção em Pebble.
Agora que Pebble estava dentro do espelho, a conexão que sentia com ele foi completamente cortada.
"Hoo."
Respirando fundo, Julien olhou para o ovo e murmurou.
'Agora a responsabilidade é sua.'
Julien abaixou o espelho, e uma luz branca envolveu completamente o ovo.
A luz era cegante.
Cobrindo todo o ambiente. Se não fosse o fato de Julien ter previsto tudo e ter se preparado, quase todos ao redor teriam percebido o espetáculo.
Normalmente, isso não importaria, já que só ele e Noel estavam na propriedade.
No entanto, dada a situação, sem dúvida havia espiões por perto. Assim, Julien precisava agir com o máximo de sutileza possível.
Swoosh!
Felizmente, a luz não durou muito.
Assim que surgiu, ela começou a diminuir gradualmente até desaparecer por completo.
Silêncio.
O que se seguiu foi um silêncio habilidoso enquanto Julien focava sua atenção no ovo.
Fechando os olhos, ele conseguiu sentir traços faintes de vida no ovo, mas estavam fracos.
"Conseguiu...?"
Era a primeira vez que Julien tentava algo assim. Não sabia se havia dado certo ou não.
Por fim, virou seu olhar para a Coruja-Grande.
A coruja estava apoiada em um dos galhos da árvore, observando o ovo em silêncio.
"O que acha?" perguntou Julien, levando a coruja a virar seu olhar para ele. A coruja ficou em silêncio por alguns segundos, até negar com a cabeça.
"Fracassou."
"Fracassou...?"
Cra!
Um som fraco de rachadura quebrou o silêncio, chamando a atenção de Julien para o ovo.
Cra Craque!
Primeiro, uma pequena rachadura. Mas em poucos segundos, ela se multiplicou em duas, depois três, e antes que Julien pudesse entender completamente, toda a superfície do ovo estava entabicado por rachaduras.
"Isto..."
Julien se levantou do lugar, recuando um passo do ovo.
E então—
BAM!
O ovo se quebrou, e de dentro saiu um único gato preto.
Num instante, a conexão que Julien havia perdido com o gato foi restabelecida, assim como uma sombra se soltou do ovo, arremessando-se ao ar.
Caindo no chão, apareceu um gato preto familiar, e no local onde o ovo estava antes, havia outro ovo. Parecia exatamente igual ao anterior, com detalhes minúsculos e coloração idêntica.
Era quase como se nada tivesse acontecido com ele.
E ainda assim... Ele tinha claramente visto as rachaduras se abrindo e se espalhando.
Que coisa...?
Olhando atônito para o ovo, o olhar de Julien caiu por fim em Pebble.
Seu rosto congelou ao ver o gato olhando fixamente para o céu acima.
Ele tinha vontade de dizer algo, mas ao sentir o olhar da coruja e vê-la balançar a cabeça, Julien fechou a boca e olhou novamente para o ovo.
Por quê?
Por que fracassou?
***
Um mês depois.
BAM! BAM—!
Batidas ecoaram alto por uma vasta praça, onde uma catedral imponente se erguia no centro. Feita de pedra escura que brilhava sob o sol forte, a catedral observava ruas cheias de seguidores devotos.
Hoje era um dia importante.
Hoje o Santo da Igreja de Oracleus oficialmente se tornaria o novo Papa da Igreja.
Apesar do caos recente e das controvérsias envolvendo o Santo, os cardeais e membros da igreja decidiram dar a candidatura a Jackal.
Para aliviar a desconfiança pública, todos disseram que o motivo das ações recentes de Jackal era que ele havia sido repentinamente tomado pelo poder que herdara, ficando louco.
No entanto, também asseguraram ao povo que esse problema se resolveria rapidamente.
Hoje marcava a primeira aparição pública de Jackal.
O aroma de incenso impregnava o ar, e figuras importantes de várias regiões assistiam à cerimônia.
Vendo tudo de um dos andares superiores, um homem de meia-idade, com algumas rugas, cabelo castanho e olhos estreitos, descansava a mão na grade de mármore, sentindo sua superfície aquecer sob a palma.
"Está quase na hora..."
Ele murmurou, puxando a mão de volta.
"Já esperei tempo demais. É hora de colher os frutos da minha paciência."
O homem lentamente virou o olhar para o cômodo atrás dele. Uma porta alta separava-os, mas para seus olhos, parecia que ela nem existia.
Dentro do cômodo, via uma figura deitada no chão, com o corpo encharcado de suor e assustadoramente magro, como se não tivesse comido há semanas. Seu rosto pálido como um espectro, e seus longos cabelos estavam começando a rarear, grudando na pele em fios úmidos.
Embora devagar, seu peito ainda se movia, indicando que ainda estava vivo.
Porém, o tempo dele estava quase chegando ao fim.
Em breve seria sua vez de agir.
Swoosh!
Justo então, uma figura apareceu diante do homem de meia-idade, com a cabeça inclinada em sinal de submissão.
O homem sorriu.
"Dawn."
"...Sim."
Levantar lentamente a cabeça, os olhos amarelos de Dawn apareceram em toda sua intensidade, enquanto o sorriso de Sithrus se alargou um pouco.
"É bom ver que você está aqui. Temos muito a fazer."
Colocando a mão na grade de mármore novamente, olhando para a multidão sob a catedral, Sithrus calmamente observou a sala onde Jack estava outra vez.
"Dentro de uma hora, ele terá absorvido todo o sangue. Nesse momento, agirei."
"...Entendi."
Dawn assentiu com a cabeça.
"Vou proteger—"
"Não."
Sithrus interrompeu Dawn antes que ele pudesse terminar, deixando-o surpreso.
"Não preciso da sua proteção."
Sithrus sorriu enquanto olhava para Dawn.
"Tenho outras pessoas para cuidar disso."
Imediatamente, várias presenças apareceram ao redor, deixando Dawn estupefato. Embora tivesse uma vaga noção de que estavam presentes, não conseguiu detectar suas posições exatas.
Como isso—
"Não se preocupe com eles. São... um pouco especiais. Há algo mais importante que preciso que você cuide."
"Algo mais importante?"
Dawn olhou confuso para Sithrus. O que poderia ser mais importante do que absorver o sangue de Oracleus e adquirir seu poder?
Ao ver a expressão de Dawn, Sithrus sorriu novamente, balançando a cabeça.
"... Provavelmente não vou conseguir absorver o sangue."
"Hã?"
Os olhos de Dawn se arregalaram ao ouvir as palavras de Sithrus.
"Fracassar? Como—"
"A chance de eu falhar é altíssima."
"Wha... o quê?"
O rosto normalmente calmo de Dawn desapareceu.
O choque que sentia era difícil de esconder.
"Isso não é surpresa."
Sithrus não era tolo. Sabia, mais ou menos, que tudo aquilo era um esquema planejado por Oracleus para ganhar tempo. Para quê? Para coletar relíquias? Para ficar mais forte?
Várias possibilidades passavam pela mente de Sithrus. Mas será que tempo era a única coisa que Oracleus queria?
Obviamente, não.
Sithrus conhecia Oracleus extremamente bem. Desde seus poderes até sua forma de pensar.
Afinal...
Boa parte do que ele tinha aprendido vinha dele.
E por isso, ele entendeu algo muito claro.
'Ele não fez isso só para ganhar tempo. Ele fez porque também sabia que eu falharia ao digerir o sangue.'
O que isso significava?
"Espere," a voz de Dawn sacudiu Sithrus de seus pensamentos, fazendo-o franzir a testa.
"Se vai falhar, por que—"
"Porque preciso tentar."
Sithrus respondeu, lançando um olhar para Dawn.
Ele ansiava pelo poder de Oracleus. Queria mais do que tudo ver o futuro. Entender as coisas que não compreendia, prever o que não podia.
Mesmo que as chances de fracasso fossem altíssimas, ele tinha que fazer isso.
Emmet sabia disso.
Ele... era do tipo que explorava esse tipo de informação.
'E, se fosse eu o Emmet, provavelmente usaria essa chance para atacar a si mesmo, ou causar danos severos a algum poder meu. Mas duvido que ele consiga fazer algo contra as organizações ocultas, já que garanti que seria impossível, ou seja...'
"Se minha hipótese estiver correta, haverá um ataque ao Imperador em breve."
"O quê...?"
O choque no rosto de Dawn havia acabado de diminuir, mas voltou repentinamente. Porém, Sithrus continuou calmamente, avaliando tudo que sabia sobre Emmet e as informações recentes que tinha aprendido.
"Seja uma manobra para ganhar tempo provocando uma luta pelo trono, enquanto desenvolve uma nova força, ou uma tentativa discreta de tomar controle do trono e se aproximar de mim disfarçado de Imperador... Esses são os cenários mais prováveis. De qualquer forma, uma nova potência surgirá de tudo isso. E essa força..."
Sithrus lambeu os lábios devagar, sentindo-os puxarem para cima novamente.
"...Provavelmente pertencerá a Noel e Emmet."
Sithrus lentamente virou seu olhar para Dawn.
"Use as informações que te dei. Pode ser que minhas estimativas estejam erradas, mas duvido."
Afinal...
Assim como Emmet consegue lê-lo, Sithrus também aprendeu a ler ele.
"Gostaria de ouvir boas notícias assim que terminar minha tarefa."