Advento das Três Calamidades

Capítulo 692

Advento das Três Calamidades

“…Mal posso esperar para sair daqui.”

“Pois é. O calor. Está realmente começando a me afetar.”

“Bom, não é muito diferente no Império. Para mim, o verão só está começando. Se você acha esse calor ruim, espere até voltarmos. Pode estar quente aqui, mas pelo menos é seco. Lá…? É tão úmido quanto dá pra ficar.”

Gemidos percorriam a multidão, enquanto vários cadetes claramente se contorciam de desconforto, suas expressões se torcendo de incômodo. Alguns até olhavam ao redor com uma expressão de mudança, como se pensassem que este lugar não fosse tão ruim assim.

“Pensando bem, ‘ele’ não está aqui, então talvez não seja tão ruim se ficarmos aqui mais um pouco.”

“Ah, é mesmo.”

Por ‘ele’, eles se referiam a Julien. Nem todos estavam cientes de sua ‘morte’, e por isso, ainda se demoravam a mencionar suas habilidades de ‘má sorte’, e como, sempre que ele estava presente, todos acabavam sofrendo.

“Pensando nisso, nossa viagem foi, na verdade, bem ruim. Enfrentamos várias coisas. Talvez ele não seja tão azarado quanto pensávamos anteriormente.”

“Você tem razão.”

Os cadetes concordaram em silêncio, sentindo que a viagem tinha sido realmente difícil, mesmo sem a presença dele. Nesse sentido, talvez estivessem sendo um pouco duros demais com ele.

Ouvindo a conversa deles, Leon tentou esconder ao máximo o sorriso.

Se ao menos eles soubessem…

“Por que você está sorrindo?”

Talvez por não estar se escondendo muito bem, ou por ela ser bastante observadora, Evelyn foi rápida em apontar suas ações, fazendo com que várias pessoas voltassem o olhar na direção de Leon.

“Hm?”

Olhando para Evelyn, ele fingiu estar de cabeça feita, levantando uma sobrancelha.

“…Estava feliz porque quase íamos embora. Também estou cansado desse lugar.”

“É mesmo?”

Os olhos de Evelyn se estreitaram. Ela não parecia convencida. Na verdade, os outros também não. Isso porque ele costumava ser o que parava as conversas sobre Julien.

Último que lembravam, foi ele quem jogou a maior parte dos cadetes pela janela durante ‘aquela’ ocasião.

Algo parecia um pouquinho errado, mas eles não conseguiam explicar muito bem o porquê.

Assistindo ao comportamento deles, Leon ficou sem palavras. Abriu levemente a boca, procurando algo para dizer, mas no final, permaneceu em silêncio e simplesmente olhou em volta.

Estavam em uma parte mais calma e remota da cidade. O lugar quase não tinha gente, a multidão habitual desaparecida. Construções se erguiam de ambos os lados, formando o entorno de uma pequena praça. Algumas bancos alinhados ao redor e, ao centro, uma escultura solitária, com acabamento de ébano, brilhando sob o sol branco e escaldante.

Naquele momento, aguardavam a chegada do Chanceler.

Ela lhes tinha avisado com antecedência para esperar por ela ali. Sabendo que ela era a única pessoa capaz de levá-los embora, só podiam agir conforme a ordem.

“A propósito, alguém trouxe lembranças ou ossos? Consegui comprar bastante coisa. Acho que, se vendermos lá no Império, farei uma boa grana.”

Surpreendentemente, quem falou foi Kiera, levantando a mão para mostrar uma pequena sacola que parecia estar cheia de objetos.

Aoife levantou uma sobrancelha.

“Desde quando você tem tanto dinheiro? Espere… não me diga…”

Uma expressão de choque cruzou o rosto de Aoife.

“O quê?”

“Você… Não me diga que vendeu seu corpo? Ah, não…”

Os lábios de Kiera tremeram, toda a expressão dela se contorcendo junto com seus lábios. Com um único olhar, dava para ver que ela estava realmente lutando para manter a compostura. E essa era a verdade.

Seja Aoife ou Evelyn… Ambas passaram boa parte da viagem tentando fazer ela perder sua ‘persona’. No começo, era porque sentiam saudades da antiga Kiera, mas depois virou uma diversão entre elas.

Até a forma de chamá-la mudou para ‘Kiera entediante’.

O fato de Kiera ainda não ter quebrado sua postura mostrava o quanto ela era determinada.

“Tsc? Ainda sem reação?”

…E Kiera também gostava das expressões que Aoife e Evelyn faziam toda vez que não conseguiam fazer ela perder a pose.

Justo quando ela ia abrir a boca para responder, uma figura surgiu na frente deles, com seus longos cabelos pretos reluzentes balançando suavemente enquanto seus olhos de obsidiana se fixavam neles. Imediatamente, todo o barulho cessou, e todos os olhares se voltaram para a Chanceler, que os observou silenciosamente antes de direcionar seu olhar para Aoife.

“Todos estão presentes, Chanceler. Não falta nenhuma pessoa.”

Como responsável pelos estudantes do terceiro ano, era natural que ela fizesse a chamada. Por isso, sabia com absoluta certeza que todos estavam presentes.

Delilah assentiu silenciosamente, com pensamentos indecifráveis, enquanto vira a cabeça para o horizonte, franzindo levemente as sobrancelhas.

O ambiente ficou novamente silencioso enquanto todos os cadetes a olhavam, esperando que ela fizesse alguma coisa. Contudo, mesmo após vários minutos, Delilah permaneceu imóvel, sem mexer sequer um músculo, enquanto os cadetes começavam a ficar cada vez mais confusos.

‘O que está acontecendo?’

‘Algo vai acontecer? Por que ainda não estamos indo embora?’

‘…Estamos esperando alguém?’

‘Vamos ser emboscados?’

Todos os sussurros e murmúrios preenchiam a pequena praça enquanto os cadetes trocavam olhares confusos.

Até Aoife e os demais estavam intrigados com o atraso repentino.

‘Que raios está acontecendo?’

‘Como eu vou saber?’

Quem tinha uma certa ideia do que se passava era Leon, que não pôde deixar de levantar as sobrancelhas surpreso. Será que…?

Logo após esses pensamentos surgirem na cabeça dele, uma figura apareceu ao longe. Leon foi o primeiro a perceber, ao virar na direção dela, seu sorriso começando a se formar lentamente ao notar que o olhar de Delilah também caiu sobre ele.

A expressão de irritação que marcava seu rosto aos poucos se acalmou, retornando ao seu semblante geralmente sério.

Porém, se alguém olhasse de perto, perceberia um leve movimento de seus lábios, como se estivesse tentando esconder alguma coisa.

“Ei, Leon…” Evelyn chamou de repente, puxando um fio de cabelo roxo atrás da orelha enquanto se virava para ele. “Você tem alguma ideia do que está acontecendo? Porque a Aoife está sendo bem inútil agora.”

“Ei…”

“Pois é, né.”

Evelyn deu de ombros, lançando um olhar para Aoife que parecia dizer, ‘Não menti’.

Quase que Aoife respondia de imediato, mas seus olhos seguiram o olhar de Leon num flash, e então ela viu. Em um instante, sua expressão mudou. Não… ela não só mudou, ela ficou pálida, como uma criança assustada. Era um olhar de quem viu algo que jamais deveria ver. Como se tivesse acabado de ver um fantasma.

Essa mudança repentina deixou Evelyn confusa.

“O que aconteceu com você? Por que—”

Porém, ela percebeu rapidamente a causa, e seu rosto também começou a mudar com um semblante assustado.

“Aquela… Aquela…”

Evelyn começou a gaguejar, as palavras escapando sem conseguir sair direito.

“Parem com isso. Não vou cair nessa!”

Olhando para elas, Kiera virou os olhos. Ela via claramente o que estavam tentando fazer há quilômetros de distância. Provavelmente, mais uma jogadinha idiota para irritá-la.

Porém, sua atenção mudou rapidamente ao perceber que Aoife e Evelyn não eram as únicas com a expressão assustadora. Kaelion, Amell e até o frio Caius estavam exibindo caras de choque, olhando na mesma direção que todos.

‘Serão todos cúmplices? O que está acontecendo…?’

Impossibilitada de segurar sua curiosidade, Kiera finalmente virou a cabeça, e exatamente naquele momento ela fixou os olhos numa figura que conhecia demais.

Com um rosto bem equilibrado de todos os lados e pele sem uma mancha, ele não ficava atrás de Leon. Seus olhos eram afiados, e seus cabelos escuros balançavam suavemente a cada passo que dava.

Porém, a característica mais marcante dele eram seus olhos de avelã, profundos, que pareciam olhar de cima para baixo com arrogância.

Era como se todo o barulho ao redor tivesse desaparecido, e todos os olhares se fixassem na figura que há muito tempo não viam.

E então… Justo quando o silêncio parecia se alongar por uma eternidade, Julien levantou a mão, cumprimentando a todos como se tivesse acabado de voltar de uma pequena viagem.

“E aí, como vocês estão?”

Silêncio.

As palavras de Julien foram recebidas com silêncio, enquanto todos os olhares permaneciam fixos nele. Alguns mais chocados, outros totalmente sem reação.

Mas no final…

Swoosh!

Uma sombra passou veloz, e uma figura apareceu na frente de Julien, com as mãos estendidas, agarrando-o.

Thud!

Ambos caíram ao chão enquanto Julien olhava para Kiera, surpreso. Ela realmente se importava tanto assim com ele? Ele ficou sem saber o que pensar.

“Vou te matar!”

“…?”

Mas logo ficou claro para ele que estava complicando demais, pois sentiu um par de mãos agarrando sua garganta.

“…Seu merda, você devia estar morto! Vou acabar com você!”

Kiera não se preocupou em abaixar a voz; falou alto o suficiente para que todos ao redor pudessem ouvir. A força na sua voz cortou o silêncio, e várias pessoas saíram do estupor de repente, piscaram como se tivessem sido puxadas de volta à realidade.

Desconcertado, Julien tentou falar.

“Espera, segura aí. Eu—”

Nem conseguiu completar a frase quando outra figura apareceu, correndo na direção dele e pulando ao lado de Kiera, também agarrando sua garganta.

“Deixa eu ajudar!”

“Aoife!?”

“Eu também!”

“Evelyn!”

“Eu também!”

“Caius!?”

Antes que Julien percebesse, uma multidão se formou ao redor dele, todos com cara de muito irritados, agarrando sua garganta e tentando sufocá-lo. Sem esperar por isso, Julien olhou desesperadamente ao redor até fixar o olhar em Leon, que o encarava em silêncio.

‘Salva-me!’

Leon finalmente sorriu, dando um passo à frente na direção de Julien.

Os olhos de Julien se iluminaram assim que viu Leon se mover.

‘Como esperado do meu cavaleiro! Ele não foi inútil…’

“Se for para sufocá-lo, ao menos façam um esforço. Que os usuários de corpo o estrangulem, e os magos mantenham ele selado?”

As palavras surpreenderam Leon, que ficou com os olhos bem abertos.

Porém, ele não ligou, continuando a dar ordens.

“Quando for sufocá-lo, bloqueiem suas vias aéreas. É importante que ele não consiga respirar.”

“....!!!”

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