
Capítulo 691
Advento das Três Calamidades
— Consegui pagar tudo. Não custou muito e ainda temos bastante dinheiro.
Ao sair da pousada onde havíamos ficado, Anne casualmente jogou a sacola de moedas na mão, o som das moedas tilintando no ar chamando atenção de algumas pessoas que olhavam na sua direção. Ela parou no meio do caminho, depois virou-se para olhar para An'as, que estava a poucos passos dali. Seu rosto ainda estava atordoado, como se seus pensamentos não tivessem conseguido acompanhar tudo o que tinha acontecido.
Ela rangeu a língua e comentou murmurando: "Anda logo com isso."
Olhei para An'as e senti uma pontada de pena dele. Como poderia ele superar aquilo tão rápido?
Alguns dias tinham se passado desde o incidente, e de tempos em tempos, An'as parava bruscamente antes de olhar para o ar com a mesma expressão de embriaguez. Isso deixava Anne extremamente irritada, ela continuava a rangear a língua sem parar.
— Eu também sou vítima...
No final, ignorando-o, ela virou-se para mim.
— E agora?
— E agora...?
Realmente, e agora...
Minha missão aqui havia acabado. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Finalmente, poderia voltar. Mas… olhando ao redor, fixando o olhar na direção de An'as e Anne, só consegui suspirar silenciosamente.
Percebi de imediato que provavelmente os dois não me acompanhariam de volta ao Império.
— Acho que vou voltar.
O ambiente ao nosso redor ficou parado por um momento enquanto An'as saía do seu transe.
Porém, eventualmente, Anne quebrou o silêncio.
— Com aquele seu parceiro?
— Err…
Ao olhar para o rosto de Anne e perceber o sutil sorriso de canto de boca que ela tinha, só consegui forçar um sorriso.
— ...Sim.
O sorriso de Anne se abriu um pouco mais, mas ela segurou aquilo que parecia querer dizer. No final, ela simplesmente levantou a cabeça, o olhar se perdendo no céu cinzento que se estendia acima. Sua expressão ficou um pouco complexa.
— Não tenho certeza do que vou fazer. Acho que vou usar o meu dinheiro para consertar a nave e contratar mais tripulantes. Perdermos bastante durante tudo isso. Mesmo estando longe de Xa’hurl, vários dos meus companheiros ainda foram afetados.
— Então você ainda vai ser uma pirata?
— Com certeza.
Anne respondeu com uma expressão pragmática.
— É o trabalho mais lucrativo que existe, e com Sylas e outro dos sete senhores desaparecidos, abriu-se uma nova oportunidade. Tem muito dinheiro a se fazer, e… bem, isso é praticamente tudo que sei fazer. Gosto de ser pirata.
— Entendo.
Não podia discordar das palavras dela. Depois de passar tanto tempo com ela e com a tripulação como Lazarus, eu sabia o quanto ela se preocupava com eles e o quanto amava o mar. Faz parte dela. Esperar que ela fizesse qualquer outra coisa pareceria errado… até artificial.
— E quanto a você?
Deixei a cabeça lentamente se virar e olhei para An'as, que parecia ter saído do transe, seus olhos eventualmente voltando para uma torre alta distante.
Sua expressão ficou complicada.
— Na verdade, os membros da igreja entraram em contato comigo. Me ofereceram uma boa posição lá.
— Ah.
Faz sentido. Embora An'as não parecesse mais obcecado pela igreja, ainda tinha algum apego a ela. Se ele quisesse ficar na dimensão espelho, provavelmente essa seria a melhor saída.
— Você vai aceitar?
— Já aceitei.
Abri a boca, mas as palavras simplesmente não saíram. No final, sorri somente.
'Como esperado, ambos querem ficar aqui.'
Tenho sentimentos contraditórios em relação a isso. Depois de tanto tempo com eles, acabei me apegando aos dois. Mas não podia forçar que viessem comigo.
Aliás, a pessoa à qual eles eram mais ligados não era eu, mas Lazarus.
Os sentimentos remanescentes de Lazarus ainda estavam comigo, e para ele, os dois eram as pessoas que mais influenciaram sua vida. Foram as únicas que ele poderia chamar de "amigos" em toda sua vida pequena, mas impactante.
E por isso, não insisti nem disse mais nada.
Para Lazarus, eles eram tudo, mas para mim, eram apenas ventos passageiro, com os quais eventualmente teria que me despedir.
Era hora de dizer adeus.
— Acho que vocês estão com tudo resolvido, né?
— Sim.
— ...Sim, estamos.
O silêncio constrangedor tomou conta enquanto ficávamos encarando um ao outro. No final, quem quebrou o silêncio foi An'as.
— Dá pra perceber que você não pertence aqui. Você também deveria estar partindo hoje, não é?
— ...Sim.
— Entendo.
An'as assentiu suavemente, observando Anne, que dirigiu seus lábios. Então, com um sorriso tênue nos lábios, An'as virou o punho.
— Pode crer!
An'as de repente gritou bem alto, com o rosto ruborizado de excitação.
— Hã…?
— Huh?
Espere aí. O que tinha acontecido? Olhando para o An'as de repente tão animado, fiquei completamente sem palavras.
Por que ele estava gritando? Não, por que ele parecia tão empolgado?
Não precisei esperar muito pela resposta, pois o sorriso de An'as se abriu ainda mais e ele apontou para mim.
— Você sabe quanto eu sofri por sua causa, hein? Não só te arrastei para o Sul do Restante, como também fui alvo de uma criatura rankeada primordial, perseguido por um dos sete senhores, quase morri algumas vezes. Agora que você se foi, finalmente estou livre!
De repente, An'as começou a gargalhar como louco. Quase parecendo a Kiera.
— Kakaka.
Meus lábios se contorceram ao ver aquilo, enquanto olhava para Anne, que piscou lentamente e colocou o dedo nos lábios.
— Agora que penso nisso, você tem razão. Quanto nós dois sofremos?
Ela parecia bastante emocionada, quase chorando.
Que merda?
— Estamos livres!
— Finalmente livres!
Sem aviso, eles se abraçaram apertado, murmurando as mesmas palavras repetidamente como um disco riscado. Ao vê-los, meu rosto se fez triste e não pude evitar de ranger a língua várias vezes.
Cadê a despedida emocional que eu tinha planejado?
'Esquece. Que se dane.'
Jogando os dois o dedo do meio, virei e acenei com a mão, incomodado.
— Tanto faz. Estão livres. Aproveitem enquanto eu não estiver mais aqui. Tsc.
— Ele está indo embora!
— Hahaha!
Os dois continuaram rindo enquanto eu avançava, entrando na multidão ao longe. Continuei caminhando assim até que as vozes deles se extinguissem completamente dos meus ouvidos, até finalmente parar.
Nesse momento, de repente, sorri e balancei a cabeça.
'Aqueles dois…'
Suspirei.
— Acho que esse tipo de despedida não é tão ruim assim.
Olhei mais uma vez para o céu, toquei meu rosto e, por fim, mudei de direção.
Finalmente, era hora de voltar.